domingo, 24 de março de 2013

O ser humano é a Terra que caminha



Se o ser humano é a Terra que caminha (Atahulpa Yupanki), por que razão percecionamos o ambiente natural como um exílio de nós mesmos? Arrancámos à vida as nossas próprias raízes. Já não colhemos da Terra o húmus essencial de que necessitamos para respirar. Em vez disso, servimo-nos dela sem cerimónia, degradamos-lhe as feições delicadas que aqui ou ali ainda ostenta. E é o nosso próprio habitat que geme sob o suplício da nossa vontade atroz e demolidora.
Que ser estranho é este que nos habita a alma? Inscreve na Terra a sua existência e dela deseja erguer-se até onde o desconhecido a ameaça. E por isso permite que o medo solte as amarras que o mantinham encerrado nos limites acolhedores de toda a razoabilidade e se passeie agora no labirinto da vida que mora no centro de cada instante.
E milénios sobre a superfície da Terra não foram nem serão suficientes para aprender a simplicidade dos dias carregados de esperança. Prefere calar a voz funda da Terra no bulício das cidades onde se desencontra consigo mesmo e com os outros, a quem não reconhece o mesmo ímpeto pela vida, tão escassa e tão preciosa.
Reaprender a ser: eis o caminho que nos cabe trilhar. Mesmo quando julgamos, cheios de nós mesmos, que nada se esconde no coração da Terra que a razão não alcance. E contudo, há para lá de todos os caminhos da razão um outro entendimento que não retalha a vida para a compreender, mas reconhece no todo a sensatez de cada escolha. E enquanto nos mantivermos reféns da razão analítica, não seremos autenticamente senhores do tempo, porque o não observamos sob a perspetiva da eternidade, mas apenas na sucessão dos momentos discretos e inseguros que no todo não toma a seiva da vida. Reaprender a ser: eis a vocação de todos quantos percecionam a incomensurável intranquilidade que para nós mesmos construímos. Talvez acordemos a tempo. Ou talvez não.

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