quinta-feira, 28 de março de 2013

Paixão de Cristo, paixão do mundo

Giotto, Noli me tangere



Sem negarmos a relevância histórica, que é um facto indesmentível, da morte violenta de Cristo, é possível interpretarmos a crucificação como símbolo da paixão do mundo. A realidade é hoje ainda tão desigual que é impossível pensar que todas as pessoas em todos os quadrantes geográficos e sociais vivem no relativamente maravilhoso mundo da classe média dos países desenvolvidos. Há de tudo. E decerto que a maior parte da população mundial está longe de atingir níveis de bem-estar minimamente aceitáveis. Infelizmente, morre-se ainda de fome no mundo. Morre-se de doenças que no mundo desenvolvido já não matam praticamente ninguém. E mesmo no mundo dito desenvolvido, há bolsas de miséria enquistadas nos subúrbios da vida social, fruto de condições pessoais adversas, mas também, e este ponto é que é decisivo, de condições económicas e ideológicas hostis.
O universo inteiro e, sobretudo, a humanidade é filho de Deus, porque nele teve a sua origem última e para ele se direciona. Afirmar que Cristo é o filho de Deus é afirmar a sua força representativa, o seu poder simbólico, a sua capacidade de resumir o universo e nele toda a humanidade no seu percurso de sofrimento e morte. É certo que a humanidade necessita de redenção moral, mas mesmo que nenhum pecado a afetasse, ainda assim precisaria de salvação, porque é a sua condição precária, a sua essencial contingência que a torna profundamente vulnerável ao abismo do nada que a morte reclama. Precisamos de Deus para que toda a história de sofrimento possa fazer qualquer espécie de sentido. De outro modo, todas as vicissitudes humanas, fustigadas pelas cegas leis do acaso, desaguam sem apelo nem agravo no absurdo da não existência e no triunfo temporal do não sentido. Precisamos decididamente de Deus, como de pão para a boca, tal como Cristo crucificado, o símbolo por excelência da precariedade humana e da transitoriedade a que está sujeita, precisou de Deus para que a história da sua vida, da sua luta pela dignificação dos marginais e dos excluídos, pudesse fazer sentido e se não detivesse às portas do Gólgota sinistro.
A fé cristã proclama que a história pessoal de Cristo não teve o seu termo na Sexta-Feira Santa, nem sequer no silêncio soturno e expectante do Sábado Santo, quando o corpo repousava sobre a fria pedra de um túmulo alheio, mas viu o seu destino entregue à eternidade de Deus naquilo que se costuma chamar, na pobreza lexical de todas as metáforas do divino, a ressurreição.
E é exatamente a ressurreição que no meio de todas as calamidades que assolam a história humana nos incute o intrépido vigor da esperança, para não sucumbirmos à aziaga sorte que uma suposta fortuna nos traz, porque a nossa vida não é narrada por um destino irracional e cego, mas pela abundante palavra que Deus proclama, por entre vicissitudes que não sabemos explicar.
E esta esperança nada tem que ver com o mero conformismo relativamente à realidade temporal. É exatamente o contrário. É a revolta contra a ignomínia, é a insurreição face à injustiça, é a certeza de que nos cabe construir responsavelmente um mundo com sentido, sabendo que ao fazê-lo escrevemo-lo com os caracteres do próprio Deus.
Crer na ressurreição é, pois, crer, sem dúvida, num Deus que é infinitamente mais forte do que a morte, mas é igualmente a confiança de que este mundo que nos foi dado pode já ser, de certo modo, o Domingo de Páscoa, a glória de Deus semeando esperança no jardim inaugural. Tudo isto tem, como é óbvio, consequências políticas. Um cristão que se contenta com a injustiça do mundo, desistiu de criar condições para que essa glória se passeie pelas ínvias veredas da vida. Oxalá não permitamos que a nossa fé seja apenas uma projeção sobre um futuro absoluto que esqueça o presente, o aqui e agora onde Deus quer estar, se o permitirmos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Quem és tu, ser humano?



Que seremos nós realmente? A ciência insiste na ideia de que somos fruto do mero acaso. Somos decerto algo extremamente improvável. O acaso tende a gerar desarmonia e não estruturas altamente complexas e organizadas como somos. Mas o fator tempo torna possível o improvável. No decurso de uma longa extensão temporal, estruturas organizadas puderam aflorar no reino das coisas existentes. E é assim que o improvável assoma algures num planeta dos subúrbios do universo que reuniu as condições necessárias para o aparecimento do ser humano.
Numa tal conceção, podemos prescindir de Deus. Fruto de uma cega evolução, aqui estamos nós prestes a tomar conta do planeta que nos viu nascer e, possivelmente, a criar todas as condições para a própria autodestruição. Talvez num lapso de tempo igualmente longo, possamos de novo aflorar num qualquer outro ponto do universo, onde o acaso gerou novamente condições propícias à nossa floração.
Será tudo como a ciência proclama. Mas o ceticismo que a ciência exige não deve deter-se às portas das explicações científicas. Talvez tenhamos de ir mais fundo e proclamar que só a racionalidade absoluta de um deus nos pode subtrair à cegueira de um acaso sem fins para onde toda a ação possa tender. É possível que, sem negar o valor da explicação científica, possamos também equacionar as coisas sob a perspetiva da eternidade. Seriam assim possíveis as duas explicações. Uma observa o mundo a partir da relação temporal e transitória que os objetos instauram entre si; a outra observa-o a partir de uma racionalidade intemporal e definitiva que organiza o mundo em direção a fins inefáveis que nunca ouvido humano jamais ouviu nem olho humano jamais viu. Duas explicações em paralelo, porque assumidas a partir de perspetivas diferentes e igualmente válidas.
E apesar da verdade que a ciência forja, preciso de uma outra explicação que equacione o mundo sob a luz de uma paixão eterna que o pensou, que o fez ser e o há de acolher, quando a negrura do tempo esfumar o impulso vital que o anima ainda.
E assim o ser humano, este resumo do universo, poderá pensar-se como segredo que um deus revelou ao coração do mundo ao qual pertence e com o qual será definitivamente assumido no amor infinito que um dia lhe proferiu o nome.

domingo, 24 de março de 2013

O ser humano é a Terra que caminha



Se o ser humano é a Terra que caminha (Atahulpa Yupanki), por que razão percecionamos o ambiente natural como um exílio de nós mesmos? Arrancámos à vida as nossas próprias raízes. Já não colhemos da Terra o húmus essencial de que necessitamos para respirar. Em vez disso, servimo-nos dela sem cerimónia, degradamos-lhe as feições delicadas que aqui ou ali ainda ostenta. E é o nosso próprio habitat que geme sob o suplício da nossa vontade atroz e demolidora.
Que ser estranho é este que nos habita a alma? Inscreve na Terra a sua existência e dela deseja erguer-se até onde o desconhecido a ameaça. E por isso permite que o medo solte as amarras que o mantinham encerrado nos limites acolhedores de toda a razoabilidade e se passeie agora no labirinto da vida que mora no centro de cada instante.
E milénios sobre a superfície da Terra não foram nem serão suficientes para aprender a simplicidade dos dias carregados de esperança. Prefere calar a voz funda da Terra no bulício das cidades onde se desencontra consigo mesmo e com os outros, a quem não reconhece o mesmo ímpeto pela vida, tão escassa e tão preciosa.
Reaprender a ser: eis o caminho que nos cabe trilhar. Mesmo quando julgamos, cheios de nós mesmos, que nada se esconde no coração da Terra que a razão não alcance. E contudo, há para lá de todos os caminhos da razão um outro entendimento que não retalha a vida para a compreender, mas reconhece no todo a sensatez de cada escolha. E enquanto nos mantivermos reféns da razão analítica, não seremos autenticamente senhores do tempo, porque o não observamos sob a perspetiva da eternidade, mas apenas na sucessão dos momentos discretos e inseguros que no todo não toma a seiva da vida. Reaprender a ser: eis a vocação de todos quantos percecionam a incomensurável intranquilidade que para nós mesmos construímos. Talvez acordemos a tempo. Ou talvez não.

terça-feira, 12 de março de 2013

Que espera o mundo da Igreja?



Que espera o mundo da Igreja? Qual a visão que o mundo tem da Igreja real? Uma séria investigação que responda a estas duas interrogações poderia ser de grande auxílio na consecução do processo de autorreforma da Igreja Católica.
Sem querer adiantar-me aos resultados de uma tal pesquisa, parece-me que o mundo espera da Igreja que seja coerente com o ideal que ousa pregar, com a mensagem originária do cristianismo. E num mundo onde a informação corre à velocidade da luz, onde a evolução é constante e vertiginosa, o mundo espera da Igreja que anuncie o fundamento seguro de toda a atitude religiosa e simultaneamente se liberte de um discurso dogmático, pré-construído, formulaico e frio. Que adote, portanto, uma linguagem mais afetiva e menos rígida; que condene menos e compreenda mais; que seja lenta no juízo negativo sobre os desenvolvimentos do mundo atual e célere na autocrítica; que insista no núcleo fundamental da mensagem cristã e prescinda do uso de fórmulas de fé que dois mil anos de existência teimaram em acumular. É que a fé é substancialmente uma atitude, mais do que a aceitação intelectual de frases pré-concebidas. Ter fé não é proclamar um rol de fórmulas que concílios e papas definiram num passado mais ou menos longínquo, mas entregar ao Absoluto a própria existência, com aquela confiança que se consolida no encontro pessoal e comunitário com o Deus pessoal de cuja bondade todos dependemos; é sentir-se amado e salvo da própria condição precária pela irrupção do definitivo na provisoriedade da história pessoal e coletiva.
Infelizmente, parece-me que o mundo tem uma visão essencialmente negativa da atuação da instituição eclesial. Sucedem-se os escândalos no interior da Igreja. A rigidez das decisões não permite a adaptação que toda a instituição tem de fazer às novas condições sociais e culturais. Falta transparência em muitos domínios, entre os quais a gestão dos dinheiros que os crentes entregam à comunidade de que fazem parte. Todo o sistema é piramidal e autocrático. É, pois, urgente a democratização da gestão das comunidades, tanto locais como universal. Uma maior participação de todos nos destinos da Igreja, para além de ser um imperativo ético, promove o sentimento de pertença e de comunhão mútua. Em vez disso, o papa é ainda o senhor absoluto, o mestre incontestável… em suma: uma espécie de deus na Terra. E o bispo é-o também na própria diocese, tal como o pároco o é no espaço da sua paróquia. Só o bom senso de muitos pastores tem salvado as comunidades de perderem definitivamente os seus fiéis. Mas temos apenas de confiar no bom senso dos responsáveis ou a própria estrutura institucional tem de garantir graus de participação democrática nos destinos das comunidades que incluam também os leigos?
De uma forma sucinta, eu diria que necessitamos de simplificação (da prática eclesial e da doutrina), transparência (na gestão das comunidades e dos dinheiros) e participação democrática. Eis o programa de um papa que estivesse realmente empenhado na reforma da Igreja e exigisse que a instituição se despojasse do supérfluo para abraçar o que é essencial e nesse núcleo central se empenhasse até ao limite.
Salvo melhor opinião, creio que o retorno à mensagem originária do Evangelho é a revolução de que precisamos. Não se trata de inovar por inovar, se recriar a instituição descaracterizando-a. Trata-se pelo contrário de refrescar a vitalidade da Igreja à luz daquela água viva que jorra da mensagem, do comportamento e do destino de Jesus de Nazaré. É certo que os novos tempos trouxeram problemas que não encontram resposta direta no Evangelho. Mas talvez a Igreja não tenha de se pronunciar sobre tudo. Talvez tenha de assumir com humildade que é sua tarefa anunciar os valores essenciais contidos na mensagem originária de Cristo, deixando a cada pessoa a possibilidade de formar a sua própria opinião acerca dos problemas concretos que assolam os tempos atuais. Quem sabe se a assunção de tal atitude não valorizaria a Igreja aos olhos do mundo. E precisamos tanto de um farol que atribua sentido às circunstâncias complexas e tantas vezes adversas do tempo atual!