domingo, 17 de fevereiro de 2013

um novo papa!



Bento XVI renunciou à sua função enquanto papa. Muitos veem nesta atitude uma espécie de excentricidade, uma atitude quase inacreditável. Tal como os monarcas, também os papas deveriam manter-se em funções até à morte. Ainda que as forças lhes faltem e o sacrifício seja demasiado penoso, deveriam autoimolar-se no altar da Igreja para bem dos crentes! Esta visão paternalista, monárquica e autocrática da função papal está longe da mentalidade moderna que acolhe os mais elementares valores da democracia, bem como o direito dos velhos ao descanso. Por isso, não só estou de acordo com a posição de Bento XVI como até acho que tal renúncia deveria ser obrigatória após os setenta e cinco anos, tal como os bispos das várias dioceses o fazem. E isto por razões tanto de ordem pessoal como de ordem institucional. Do ponto de vista pessoal, toda a pessoa tem direito a passar os últimos anos da sua vida em sossego. A introdução de uma idade limite para o exercício da função papal seria o reconhecimento deste direito individual. Do ponto de vista institucional, é necessário que o desempenho de determinadas funções seja executado por quem tenha capacidade física e intelectual para tal, coisa que muito dificilmente ocorre em pessoas de idade avançada. O problema coloca-se hoje com muito maior acuidade do que outrora, uma vez que o avanço da medicina tem prolongado o tempo de vida até muito tarde. E quantidade nem sempre significa mais qualidade de vida.
De qualquer forma, acho interessante e até cómico que algumas pessoas tenham elogiado o anterior papa pelo facto de se ter mantido no cargo até ao limite das suas forças e elogiem igualmente este papa por ter tido a coragem de renunciar, quando se esperava dele que se mantivesse no cargo até ao fim. Dá a sensação de que, qualquer que seja a atitude do papa, ela será sempre incontestável. Este culto da personalidade ― coisa bem patente em contextos políticos autocráticos ― tende a observar o comportamento do timoneiro como manifestação da mais alta virtude, qualquer que seja a sua atitude. No que me toca, a atitude correta foi a de Bento XVI e ainda recordo com pena a forma degradante como João Paulo II se arrastou penosamente no exercício da sua função.
Que dizer do futuro papa? A Igreja e o mundo precisam de um líder que introduza reformas essenciais na organização e doutrina defendidas pela Igreja:
– Do ponto de vista da organização, julgo importante que o poder da Cúria seja enfraquecido e que o papa oiça mais as Igrejas locais espalhadas pelo mundo do que o governo central sediado em Roma, muitas vezes incapaz de perceber os verdadeiros anseios do povo de Deus.
– Ainda deste ponto de vista, seria auspicioso que diminuísse a importância do direito canónico e desse maior espaço ao Evangelho. Não é pela força da lei que somos salvos, como afirma Paulo, mas pela força da fé.
– Seria igualmente urgente que as mulheres vissem definitivamente reconhecido o seu papel nas estruturas da Igreja, em pé de igualdade com os homens. Que pudessem aceder a todos os cargos de chefia, atualmente apenas nas mãos dos homens.
– Creio ser necessário que homens casados possam exercer cargos de chefia na Igreja e que o celibato possa ser tão-só uma escolha livre, não uma condição para o exercício da presidência das comunidades.
– Creio ser também da maior urgência que a organização da Igreja se torne mais democrática e se desenvencilhe definitivamente de estruturas e procedimentos medievais inteiramente caducos, como seja a conceção do poder absoluto do papa em relação à Igreja universal, da sua suposta infalibilidade que mais não é do que a manifestação desse culto da personalidade de que falei acima (sinal atualizado das antigas formas de idolatria), bem como do poder dos bispos nas dioceses e dos presbíteros nas paróquias. Modernizar as funções na Igreja significa regressar à conceção do poder como serviço, dotando-o de capacidade para dialogar com os fiéis e dando a estes a possibilidade de fazerem ouvir a sua voz tanto ao nível das Igrejas locais como da Igreja universal. Os fiéis não são destituídos de toda a capacidade de juízo. São pessoas conscientes do seu papel, muitas delas mais escolarizadas do que os que presidem às comunidades. Podem e devem ser ouvidos tanto nas questões do governo das comunidades como na escolha das pessoas que os governam.
Do ponto de vista doutrinal, serão muitas as reformas necessárias:
– Uma nova perspetiva sobre a ética da sexualidade, incluindo a aceitação dos métodos anticoncecionais artificiais, reconhecendo que não existe nenhum argumento ético de peso para manter a sua condenação;
– Uma nova perspetiva sobre a fecundação medicamente assistida, mais tolerante, menos proibitiva, aceitando todos os métodos homólogos e reconhecendo que mais não são do que apoios médicos à vontade legítima de um casal ter os seus filhos;
– Uma nova perspetiva sobre a orientação sexual das pessoas, acolhendo os homossexuais da mesma forma que se acolhem os heterossexuais, renunciando a diabolizar as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo;
– Uma nova visão do casamento que inclua os recasados nas comunidades cristãs sem qualquer espécie de restrições, que aceite o casamento de pessoas do mesmo sexo;
– O reconhecimento da autonomia do pensamento teológico em relação às estruturas de poder da Igreja, renunciando à condenação oficial de perspetivas teológicas ousadas e permitindo a liberdade de expressão e de pensamento teológico no interior das faculdades de teologia…
Claro que o novo papa deverá percorrer o caminho que os anteriores já iniciaram no que se refere ao diálogo ecuménico e inter-religioso, ao diálogo com a cultura, reconciliando a Igreja com as modernas formas de expressão cultural.
Ainda estamos muito aquém do que seria desejável. Quem dera que a Igreja não perdesse o pé no mundo contemporâneo e refreasse aquele movimento global que tende a ver a Igreja como uma instituição que caminha a passos largos para a sua própria extinção, pelo menos na Europa e no mundo mais desenvolvido, fazendo crer que desenvolvimento e religião são inconciliáveis. Para que as coisas mudem de rumo é preciso que a Igreja altere a sua forma de atuar, tão pouco consentânea com os tempos e tão longe da simplicidade exigida por Cristo. Desembaraçar-se da bagagem de dois mil anos de vida para salvar o essencial, eis o desafio da Igreja atual.
Como seria bom que a pesada carga doutrinal da igreja se resumisse àquelas poucas afirmações centrais que tem efetivamente fundamento no Novo Testamento! E em vez das complicadas teologias que teimamos em repetir à saciedade, mesmo quando nada dizem ao homem moderno, um punhado de afirmações centrais que o Novo Testamento nos lega seria o suficiente para juntar todo o mundo cristão em torno da verdade de Cristo.

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