quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Eppure si muove!



Infelizmente, a Igreja Católica continua, na maior parte das questões candentes, a reboque da sociedade. Entrincheira-se no seu nicho peculiar e combate até ao limite as principais transformações mentais e sociais que as comunidades vivenciam. Este conservadorismo extremo, que é confundido com salvaguarda do Evangelho de Cristo, torna a instituição eclesial tão obsoleta quanto dispensável à consciência moderna. E é pena, porque bem precisamos de uma instituição ponderada que funde a sua consciência ética no Evangelho e seja dele testemunha eficaz.
Vem isto a propósito das múltiplas revoluções que se têm operado na sociedade contemporânea a respeito da família e da sua organização. Enquistada no passado, a Igreja tem defendido que o casamento é eticamente aceitável apenas quando se refere à união entre pessoas de sexo diferente e que a constituição da família se deve fundar num contrato explicitamente aceite perante a sociedade e, para os crentes, perante Deus.
Esta forma rígida de encarar as questões tem provocado certos engulhos também nos meios católicos. Entretanto, o arcebispo D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, veio agora mostrar alguma abertura, reconhecendo os direitos dos casais que não contraíram casamento (uniões de facto), incluindo casais homossexuais. Ainda longe de estar a par com os tempos, o referido Conselho mostra com esta tomada de posição que, apesar de tudo, a Igreja está atenta ao pulsar do mundo.
Fica ainda por acolher o casamento civil (e porque não religioso?) entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, o presidente do Conselho veio defender a não discriminação dos homossexuais, bem como lamentar o facto de tal condição ser ainda, em determinados sistemas jurídicos, considerada um delito.
Enfim, estamos no bom caminho. Em meu entender, falta apenas dar o passo seguinte. Lá chegaremos, mas só depois de ter sido concluído em todas as instâncias sociais e passar a ser amplamente aceite no quadro dos valores predominantes dos vários sistemas sociais. A Igreja de que faço parte caminha tão devagar que até parece estar imóvel. Eppure si muove!

2 comentários:

  1. Jorge,
    Excelente post. Concordo inteiramente contigo.
    Bjs

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    1. Obrigado, Célia. O papa Francisco tem dado o seu empurrão à máquina, mas a lentidão com que tudo avança é perturbadora. E se a oposição às suas reformas vem de pouca gente, os seus antagonistas estão demasiado bem posicionado para pôr areias na engrenagem.

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