domingo, 24 de fevereiro de 2013

Céu e inferno



Há alguns dias, o meu filho perguntou-me pelo céu e o inferno. Se Deus é bom, o que será o inferno e de que modo se pode compaginar com a existência de Deus? Respondi-lhe que o céu era uma metáfora para Deus. Na verdade, a única realidade eterna é ele, origem primeira e última, princípio absoluto de todas as coisas, de onde tudo provém e para onde tudo se encaminha. Tal como diz S. Paulo, se vivemos, vivemos para Deus; se morremos, morremos para Deus. Ele é o horizonte de possibilidade de tudo quanto existe, o futuro absoluto do universo. É ele e só ele o céu. A morte será então o encontro definitivo de cada ser com a sua pátria eterna.
E a bem ver, talvez o inferno seja igualmente uma metáfora para Deus. Desde logo, teologicamente, o inferno tem de existir como possibilidade para garantir a cada ser humano o exercício da sua liberdade, a liberdade de rejeitar Deus e o universo de valores que ele subsume. E sendo assim, que maior inferno terá um tal indivíduo do que estar permanentemente na presença daquele que rejeitou? Que maior inferno terá alguém que adotou o ódio como forma de ser do que ver-se confrontado com o amor absoluto? E mais ainda: Perante o triunfo luminoso da verdade, do bem, da justiça, que inferno maior poderá ter alguém do que ver-se perante a própria miséria, o próprio fracasso humano, como ser votado à mentira, à maldade e à injustiça?
No fundo, o céu e o inferno são apenas metáforas para o mesmo Deus.
Mas são também metáforas da vida humana. Também nós criamos o céu e o inferno na relação que decidimos ter connosco próprios, com os outros e com o mundo. Não diria, como Sartre, que o inferno são os outros. Porém, a verdade é que o são em múltiplas circunstâncias, tal como também nós o somos para os outros.
As notícias que vieram a lume a respeito dos deprimentes jogos de poder no Vaticano dizem-nos que o inferno também existe no interior desta comunidade que se comprometeu inteiramente com Cristo. E tal como no plano individual precisamos de conversão contínua, também no plano comunitário e institucional a Igreja precisa urgentemente de uma profunda reforma que faça resplandecer o património espiritual que lhe foi confiado e minimize substancialmente os efeitos da maldade humana, provenha ela dos leigos, dos padres, dos bispos, dos cardeais ou do próprio papa. Esperemos que o sucessor de Bento XVI proceda a tal reforma. Se o não fizer, temo que o Evangelho de Cristo se desfigure por detrás do véu nebuloso do pecado humano.

1 comentário:

  1. Grande reflexão. Tomara eu ser capaz de traduzir em palavras tão bonita mensagem.
    Obrigada!

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