domingo, 3 de fevereiro de 2013

A tristeza de Deus



A tristeza de Deus

Deus triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.

Carlos Drummond de Andrade, in «As Impurezas do Branco»

Alguns teólogos defendem que também Deus se sujeita ao sofrimento. E isso ter-se-ia revelado em Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, exaltado na cruz da paixão e da morte. Em vez de um Deus impassível, eternamente contente consigo mesmo, perfeitamente feliz na sua transcendência infinita não sujeita às intempéries da vida, em vez de um Deus que nada sente da tristeza profunda que assola o mundo, da precariedade com que a vida se desenrola, da miséria para a qual são atirados milhões de seres humanos; em vez disso, Deus é solidário com a desolação humana, com a imperfeição do mundo, com a fragilidade da vida. Só assim poderá ser aquele Deus cuja definição mais acabada, ainda que provisória, porque nada que dele digamos poderá estar concluído, se resume ao amor. Como poderia Deus ser o próprio amor, a doação de si mesmo a outrem e permanecer impassível e alheio à desgraça do mundo?
Por outro lado, como compaginar a paixão de Deus com a sua perfeição, a infinitude da sua natureza? Um Deus sujeito aos temporais da vida é ainda um Deus absoluto, infinito, perfeito e eternamente coincidente consigo mesmo? Um Deus frágil é ainda um Deus ou será tão-somente mais um elemento do universo, ainda que imenso?
Pensar Deus é embrenhar-se num emaranhado de paradoxos. O nosso entendimento está orientado para pensar o mundo, como afirmava Kant, para desvendar os segredos do universo, para refletir sobre os mecanismos que estão na base do seu funcionamento. Mas não tem em si mesmo as condições necessárias para pensar Deus. Dele sentimos apenas o irromper da brisa que a saudade liberta. Saudade de Deus, saudade do todo onde nos inserimos que teima em bater à porta da nossa indiferença. E é aí que nos encontramos com ele, no terreno persistente saudade do que nunca teremos ou seremos. Pelo menos enquanto por aqui peregrinarmos. Apesar disso, consciente da imensa carga antropomórfica de qualquer discurso sobre Deus, creio num Deus que se entristece com a paixão do mundo, que se solidariza com a morte humana e dela nos resgata para a única realidade que é o fim da nossa instável existência: a abundância da vida que não terá ocaso. Será uma esperança vã? Será que creio num mito sem substância, sem fundamento na realidade? Talvez sim. Quem o saberá? Basta-me, contudo, a verdade humana dessa narrativa infinita e a beleza desmedida que encerra. Se não existir, deveria existir. E por isso mesmo, tem de existir.

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