domingo, 20 de janeiro de 2013

O esforço da aprendizagem



 Ao ler um texto sobre António Gramsci deparei-me com a sua conceção de educação. E fiquei impressionado com a lucidez do autor:

«Desde o primeiro momento da sua vida, educa-se a criança para que se “conforme” ao seu meio, e a escola nada mais é que uma pequena “fração” da sua vida. “A educação é sempre uma luta contra os instintos relacionados com as funções biológicas básicas, uma luta contra a natureza, para a dominar e criar o ser humano “verdadeiro”. A aprendizagem, a disciplina psicológica e física, necessárias para estudar e para alcançar qualquer realização, não causam prazer: “é um processo de adaptação, um hábito adquirido com esforço, tédio e inclusive sofrimento”.»

Estamos, portanto, muito longe de conceber a aprendizagem como realidade lúdica, como se o ato de aprender de forma sistemática e formal fosse intimamente natural ao ser humano. Não é! Trata-se de uma violência sobre a natural preguiça que, em doses diferentes, em todos habita.

Estamos longe de ter conquistado definitivamente o nosso lugar na civilização do conhecimento, de o ter incorporado como meio natural, onde nos sentimos em casa, e de o transmitir às gerações vindouras como quem transmite caracteres físicos aos seus descendentes. Talvez o tempo que decorreu desde que nos erguemos da barbárie não seja suficiente para que tal tenha acontecido. É por isso que o ato sistemático e formal de aprendizagem entra inexoravelmente em conflito com a propensão natural para a ocupação lúdica do tempo. É essa a razão por que algumas pedagogias pretenderam incorporar aspetos lúdicos no ensino formal, por forma a alijar a carga ao tédio e ao cansaço. Mas por mais lúdico que seja, nenhum ensino formal pode escapar a esta dura realidade. Disciplinar o espírito e o corpo para fazer face às exigências da aprendizagem formal é e será um ato de violência sobre a vontade epidérmica que apenas busca o prazer imediato, sem fazer as contas com os danos que tal decisão implica a médio e longo prazo.

É este o drama da escola. Os professores remam para o mar alto, enquanto os alunos apenas desejam permanecer na praia, junto à zona de rebentação das ondas. Enquanto aqueles impelem o barco para longe da costa, estes resistem até onde podem para brincarem com as ondas matreiras. E nesta tensão dialética, a força que prevalece dita o destino dos jovens. Exclusivamente centrados no desejo imediato, não veem o que perdem, porque os horizontes são escassos e a praia é traiçoeira. Só aventurando-se em pleno mar alto podem descobrir horizontes jamais desvendados e colher, após um persistente e aborrecido esforço, os frutos de tarefas entediantes e monótonas.

E haverá outro caminho que responda a este desejo de autossuperação que todo o ser humano experimenta? Não creio. Pelo menos não conheço. E ainda não vi proposta nenhuma alternativa verdadeiramente credível. É no esforço continuado e enfadonho que se abrem surpreendentes alternativas. Não na cedência à preguiça, à mediocridade ou ao prazer imediato.

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