segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Em defesa da dignidade da vida


É altura de dar voz a Emmanuel Mounier, um filósofo personalista francês cuja perspicácia vale a pena visitar, quando a crise, não apenas a económica mas sobretudo a humana, se apodera do nosso espírito indigente:
«Há na pessoa uma indomável paixão que nela arde como fogo divino. Ergue-se e range ao vento de cada vez que pressente a ameaça da servidão e prefere defender, mais do que a sua vida, a dignidade da sua vida. Define o homem livre, indomável (…). Esta espécie é rara. A maioria dos homens prefere a escravidão na segurança ao risco na independência, a vida material e vegetativa à aventura humana. No entanto, a revolta em tempo de domesticação, a resistência à opressão, a recusa face ao aviltamento são privilégios inalienáveis da pessoa, seu último recurso quando o mundo se levanta contra o seu reino. É preciso que os governos definam e protejam os direitos fundamentais que garantem a existência pessoal: integridade da pessoa física e moral contra as violências sistemáticas, os tratamentos degradantes, as mutilações físicas ou mentais, as sugestões e propagandas coletivas; liberdade de movimentos, de palavra, de imprensa, de associação e de educação; inviolabilidade da propriedade privada e do domicílio, habeas corpus; presunção de inocência até prova de culpa; proteção ao trabalho, à saúde, à raça, ao sexo, à fraqueza e ao isolamento. Mas sempre as coletividades discutirão as fronteiras em que estes direitos se têm que harmonizar com o bem comum. As mais solenes Declarações de Direitos cedo se deturpam, quando não repousam sobre sociedades suficientemente ricas em caracteres indomáveis, e simultaneamente em sólidas garantias nas estruturas. Uma sociedade cujo governo, imprensa, elites mais não difundem do que ceticismo, engano e submissão, é uma sociedade que vai morrendo e só moraliza para esconder a sua podridão.»
Meu Deus, como são atuais, lancinantes, profundas estas palavras! Talvez seja cegueira minha, mas parece-me que estamos todos um pouco mais amestrados, submissos, conformados com o embrutecimento a que a realidade nos entrega. Somos filhos taciturnos do medo. E a ele preferimos entregar a parca esperança, porque não ousamos cavar os filões do tempo rumo a um futuro ainda por fazer. Sossegamos na miséria a que nos condenam. E assim, talvez a mereçamos mesmo. Porque não gritamos, nem esbracejamos face à despudorada vileza dos que nos querem rendidos, domados, infantis.
E contudo, à servidão não cabe senão o passado. Talvez o presente. Mas nunca o futuro que recomeça sempre que nos atrevemos a repensar a história, pessoal e comunitária, a desvendar o caminho da dignidade da vida humana, qualquer que seja e onde quer que se revele, ainda que discreta ou sob a aparência da fragilidade que não tem voz. Onde quer que estejamos, o que quer que sejamos, somos dignos de ser livres. E isso nos basta.

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