terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Os velhos



No contexto da questão das contas públicas, é lancinante a frieza com que se fala da urgência em deixar morrer os velhos ou ajudá-los mesmo a morrer mais cedo quando se encontram num beco sem saída. Estaremos ainda num mundo plenamente humano? Serão as pessoas ainda aquele quid de valor incalculável que se não atira para a sarjeta mesmo que esteja no fim do prazo? Primeiro foi a Comissão de Ética para as Ciências da Vida, ou o seu presidente, já me não lembro exatamente, agora foi a vez do ministro das finanças japonês. É certo que quem governa um país tem problemas para resolver e procura, em princípio, fazê-lo com rigor. Não duvido disso. Mas será possível que valha tudo para se ser eficaz? Não há critérios éticos para lá de toda a eficácia governativa e orçamental? Perdeu-se a noção da hierarquia dos valores. Em vez do orçamento estar ao serviço do ser humano concreto e definido, é o ser humano que terá de ser descartado caso não caiba no restrito espaço do orçamento global. Acho repugnante que se pense e que se aja desta maneira. Os velhos e os doentes terminais não são objetos de que se disponha como quem rejeita um copo partido ou um prato velho. Caramba, somos mais do que meras peças produtivas que servem apenas enquanto são economicamente úteis! Um pouco de vergonha na cara e alguma contenção no uso da palavra não faria mal a estes políticos tecnocratas desbragados.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O esforço da aprendizagem



 Ao ler um texto sobre António Gramsci deparei-me com a sua conceção de educação. E fiquei impressionado com a lucidez do autor:

«Desde o primeiro momento da sua vida, educa-se a criança para que se “conforme” ao seu meio, e a escola nada mais é que uma pequena “fração” da sua vida. “A educação é sempre uma luta contra os instintos relacionados com as funções biológicas básicas, uma luta contra a natureza, para a dominar e criar o ser humano “verdadeiro”. A aprendizagem, a disciplina psicológica e física, necessárias para estudar e para alcançar qualquer realização, não causam prazer: “é um processo de adaptação, um hábito adquirido com esforço, tédio e inclusive sofrimento”.»

Estamos, portanto, muito longe de conceber a aprendizagem como realidade lúdica, como se o ato de aprender de forma sistemática e formal fosse intimamente natural ao ser humano. Não é! Trata-se de uma violência sobre a natural preguiça que, em doses diferentes, em todos habita.

Estamos longe de ter conquistado definitivamente o nosso lugar na civilização do conhecimento, de o ter incorporado como meio natural, onde nos sentimos em casa, e de o transmitir às gerações vindouras como quem transmite caracteres físicos aos seus descendentes. Talvez o tempo que decorreu desde que nos erguemos da barbárie não seja suficiente para que tal tenha acontecido. É por isso que o ato sistemático e formal de aprendizagem entra inexoravelmente em conflito com a propensão natural para a ocupação lúdica do tempo. É essa a razão por que algumas pedagogias pretenderam incorporar aspetos lúdicos no ensino formal, por forma a alijar a carga ao tédio e ao cansaço. Mas por mais lúdico que seja, nenhum ensino formal pode escapar a esta dura realidade. Disciplinar o espírito e o corpo para fazer face às exigências da aprendizagem formal é e será um ato de violência sobre a vontade epidérmica que apenas busca o prazer imediato, sem fazer as contas com os danos que tal decisão implica a médio e longo prazo.

É este o drama da escola. Os professores remam para o mar alto, enquanto os alunos apenas desejam permanecer na praia, junto à zona de rebentação das ondas. Enquanto aqueles impelem o barco para longe da costa, estes resistem até onde podem para brincarem com as ondas matreiras. E nesta tensão dialética, a força que prevalece dita o destino dos jovens. Exclusivamente centrados no desejo imediato, não veem o que perdem, porque os horizontes são escassos e a praia é traiçoeira. Só aventurando-se em pleno mar alto podem descobrir horizontes jamais desvendados e colher, após um persistente e aborrecido esforço, os frutos de tarefas entediantes e monótonas.

E haverá outro caminho que responda a este desejo de autossuperação que todo o ser humano experimenta? Não creio. Pelo menos não conheço. E ainda não vi proposta nenhuma alternativa verdadeiramente credível. É no esforço continuado e enfadonho que se abrem surpreendentes alternativas. Não na cedência à preguiça, à mediocridade ou ao prazer imediato.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Em defesa da dignidade da vida


É altura de dar voz a Emmanuel Mounier, um filósofo personalista francês cuja perspicácia vale a pena visitar, quando a crise, não apenas a económica mas sobretudo a humana, se apodera do nosso espírito indigente:
«Há na pessoa uma indomável paixão que nela arde como fogo divino. Ergue-se e range ao vento de cada vez que pressente a ameaça da servidão e prefere defender, mais do que a sua vida, a dignidade da sua vida. Define o homem livre, indomável (…). Esta espécie é rara. A maioria dos homens prefere a escravidão na segurança ao risco na independência, a vida material e vegetativa à aventura humana. No entanto, a revolta em tempo de domesticação, a resistência à opressão, a recusa face ao aviltamento são privilégios inalienáveis da pessoa, seu último recurso quando o mundo se levanta contra o seu reino. É preciso que os governos definam e protejam os direitos fundamentais que garantem a existência pessoal: integridade da pessoa física e moral contra as violências sistemáticas, os tratamentos degradantes, as mutilações físicas ou mentais, as sugestões e propagandas coletivas; liberdade de movimentos, de palavra, de imprensa, de associação e de educação; inviolabilidade da propriedade privada e do domicílio, habeas corpus; presunção de inocência até prova de culpa; proteção ao trabalho, à saúde, à raça, ao sexo, à fraqueza e ao isolamento. Mas sempre as coletividades discutirão as fronteiras em que estes direitos se têm que harmonizar com o bem comum. As mais solenes Declarações de Direitos cedo se deturpam, quando não repousam sobre sociedades suficientemente ricas em caracteres indomáveis, e simultaneamente em sólidas garantias nas estruturas. Uma sociedade cujo governo, imprensa, elites mais não difundem do que ceticismo, engano e submissão, é uma sociedade que vai morrendo e só moraliza para esconder a sua podridão.»
Meu Deus, como são atuais, lancinantes, profundas estas palavras! Talvez seja cegueira minha, mas parece-me que estamos todos um pouco mais amestrados, submissos, conformados com o embrutecimento a que a realidade nos entrega. Somos filhos taciturnos do medo. E a ele preferimos entregar a parca esperança, porque não ousamos cavar os filões do tempo rumo a um futuro ainda por fazer. Sossegamos na miséria a que nos condenam. E assim, talvez a mereçamos mesmo. Porque não gritamos, nem esbracejamos face à despudorada vileza dos que nos querem rendidos, domados, infantis.
E contudo, à servidão não cabe senão o passado. Talvez o presente. Mas nunca o futuro que recomeça sempre que nos atrevemos a repensar a história, pessoal e comunitária, a desvendar o caminho da dignidade da vida humana, qualquer que seja e onde quer que se revele, ainda que discreta ou sob a aparência da fragilidade que não tem voz. Onde quer que estejamos, o que quer que sejamos, somos dignos de ser livres. E isso nos basta.