domingo, 16 de dezembro de 2012

Morte em Newtown



Parece que os Americanos ainda não perceberam que a natureza humana não é apenas inclinada para o bem, mas também para o mal e até para o mal na sua forma mais aviltante: a crueldade. Deste modo, encaram os desastres humanos — como o massacre que ocorreu recentemente na escola primária de Newtown, no estado norte-americano de Connecticut — não como resultado da falibilidade intrínseca ao ser humano, mas como um mero desvio individual, uma exceção a que é preciso pôr cobro, armando até aos dentes os homens e mulheres de bem. Não entenderam que todos nós somos capazes dos melhores atos de compaixão pelos nossos semelhantes mas igualmente pelas piores sacanices, basta somente que determinadas condições estejam reunidas. Não somos seres luminosos e transparentes, nem a abominação da desolação. Somos um misto de tudo isto, uma área primaveril de onde brota a vida e simultaneamente um campo soturno de invernos chuvosos. E disto que somos decorrem as imprudências, as indecências, o logro, a perversão e demais patifarias que enxameiam as parangonas dos jornais sensacionalistas que, afinal de contas, não têm mãos a medir nem espaço suficiente para narrar todos os despautérios de que somos capazes.
E porque os Americanos acreditam piamente na bondade unívoca da natureza humana, creem que as poucas maçãs podres que o cesto ostenta têm de ser derrotados pela força da esmagadora maioria de cidadãos exemplares. A cada massacre, como o que ocorreu agora, seguem-se, portanto, as vozes tipicamente americanas, exigindo que a União e os Estados liberalizem ainda mais o uso de armas para a defesa das pessoas de bem. Não perceberam que a condição humana é tudo menos aquela retidão ética que asseguram ser. Bastava apenas que lessem as estatísticas, sem os preconceitos atávicos. Nos EUA morreram a tiro, em 2012, 9369 pessoas, enquanto no Canadá esse número é de apenas 144. A diferença é esmagadoramente clara! O problema não se resolve armando mais pessoas, mas desarmando a população de forma sistemática. O provérbio português de que a ocasião faz o ladrão funda-se numa desconfiança essencial a respeito da natureza humana, que se tem mostrado basicamente verdadeira. A resolução dos principais problemas sociais, as abissais clivagens na economia mais rica do mundo são outras tantas ocasiões, a juntar à aquisição fácil de armas de fogo, que acicatam os piores demónios que habitam o coração humano.

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