sábado, 8 de dezembro de 2012

Epicuro

Uma leitura atenta de «Carta a Meneceu» veio aclarar alguns equívocos sobre Epicuro. Nascido em 341 a.C. na ilha grega de Samos, o filósofo, que sempre se considerou ateniense, pertence a uma geração posterior aos três grandes vultos do pensamento grego clássico: Sócrates, Platão e Aristóteles. E apesar do gigantismo dos três sistemas seus predecessores, Epicuro ousa percorrer o seu próprio caminho. É um homem livre e livre é igualmente o seu pensamento. A «Carta a Meneceu» é um dos poucos documentos do próprio Epicuro que sobreviveram à erosão do tempo. Infelizmente, a maior parte da sua produção foi devorada pela devoção aos dois eminentes sistemas filosóficos clássicos: o académico (platónico) e o peripatético (aristotélico). E sobejaram apenas textos de natureza ética, motivo pelo qual se conhece relativamente bem o sistema ético deste filósofo, mas pouco das outras áreas do saber. Apesar disso, proliferou a ideia de que Epicuro defendia como princípio fundamental do comportamento ético o prazer tout court. Tratar-se-ia, pois, de um sistema que poria no centro das preocupações éticas a satisfação de quaisquer desejos com vista à obtenção do máximo prazer. Nada mais errado!
O texto inicia com a defesa da filosofia como percurso com vista à fruição de uma vida feliz. A filosofia é a reflexão constante acerca dos princípios que, se assumidos como eixos centrais do agir humano, hão de trazer-lhe a felicidade. Sábio é, pois, todo o que realizar na vida o que os princípios éticos decorrentes da reflexão filosófica lhe prescreverem.
E o primeiro princípio é de caráter metafísico: a divindade é feliz e imortal, por conseguinte, não lhe poderá ser atribuída nenhuma qualidade que seja incompatível com estas. Epicuro distingue, na linha do pensamento racional, o discorrer próprio do senso comum, que imagina os deuses como entidades que premeiam os bons e punem os maus, ou seja, como entidades que se relacionam permanentemente com o mundo humano, e a racionalidade filosófica que separa indelevelmente o mundo divino e o mundo humano, uma vez que não poderiam os deuses ser inteiramente felizes, se se importassem com a dimensão mesquinha, efémero e injusta em que a vida humana se processa. Entre o divino e o humano há, pois, uma separação que nenhum deus pode ultrapassar, sob pena de se tornar tão humano quanto o somos nós. Estabelece-se, pois, como no pensamento filosófico aristotélico, uma clara distinção entre o sentimento religioso, que vê os deuses em permanente relação com o humano, e a reflexão filosófica que alcança o divino na sua total e inexcedível transcendência. Estamos tão longe de uma visão ateística da realidade como de uma perceção tradicional-religiosa da relação divindade-humanidade. E esta reflexão inicial está intimamente inscrita no pensamento ético de Epicuro por recusar aos deuses não só a manipulação do comportamento humano (o ser humano é livre na sua vontade), como também a ativação da ordem moral do mundo, castigando os maus e recompensando os bons. Se alguma ordem moral o mundo tiver, será, portanto, ativada unicamente pelo comportamento humano e, sendo este precário e imperfeito, jamais a realidade humana poderá ser resgatada da sua própria imperfeição moral. Estamos, assim, condenados a viver num mundo de desordem ética e sem qualquer possibilidade de salvação, dado o fosso intransponível que separa a divindade da humanidade. E ainda que a tradição religiosa e o naturalismo hajam posto acima dos deuses o destino, que tudo orienta e determina, Epicuro recusa-o, por contrário à responsabilidade da vontade humana, livre e consciente.
O segundo princípio é o de que a morte nada significa para o ser humano. De facto, quando este existe, não há aquela e quando aquela existe, já não há ser humano que a possa vivenciar. São realidades que se excluem mutuamente, não podendo jamais coexistir. Esta convicção dará ao ser humano a possibilidade de fruir da vida, efémera mas preciosa. E porque a morte é sempre vivida in absentia, o medo da morte é um absurdo a que só os menos sábios se submetem. Tal como o suicídio, que é a procura da morte no espaço da sua ausência que é a vida. A única realidade que o ser humano deve procurar é, por conseguinte, a vida, e uma vida com sentido. A morte é a impossibilidade da fruição da vida e, portanto, um nada sem sentido. Ser sábio é aquele que é indiferente à ideia da morte e aquele que sabe viver uma vida feliz. Se queres ser feliz, afasta de ti o cálice da morte, bem como a amargura do medo que o sentimento da morte te repropõe incansavelmente e vive votado apenas ao esplendor da vida.
O desejo da vida e a sua fruição são, pois, dimensões éticas fundamentais para todo o homem sábio. Assim sendo, será toda e qualquer espécie de desejo igualmente digno de ser satisfeito? A resposta de Epicuro é negativa. E é neste ponto que se gerou o maior mal-entendido a respeito do epicurismo original. Uma conceção superficialmente hedonista é tão estranha a este sistema ético como o é o seu suposto ateísmo. Na verdade, se por hedonismo entendermos a conceção filosófica que atribui ao prazer, i.e., à satisfação de todos os desejos imediatos, o supremo bem para o qual a vontade deve orientar-se, o nosso filósofo está longe de o ser.
Epicuro começa por distinguir os desejos naturais dos inúteis. Sendo que entre os primeiros há os que são inteiramente necessários à consecução da felicidade, do bem-estar e da própria vida. E são estas distinções subtis, mas fundamentais, que tornam muito mais complexo e muito menos redutível a fórmulas simplistas o pensamento deste eminente sábio grego. Se a vida ética visa a obtenção da «saúde do corpo e da serenidade do espírito», os desejos que não se direcionem a este fim serão inúteis. É que ambas as finalidades exigem muitas vezes sacrifícios que não são compatíveis com a procura do prazer ilimitado e imediato. Fruir da vida não só aqui e agora, mas a médio e longo prazo supõe a rejeição de alguns prazeres momentâneos e a assunção de ações cujas consequências imediatas podem ser desagradáveis ou mesmo penosas para o sujeito, com vista a alcançar a felicidade e o bem-estar a médio e longo prazo. O homem sábio vê para lá do tempo em que toma as suas decisões e projeta o próprio comportamento no futuro, a partir de uma análise criteriosa das ações e das suas consequências sobre a saúde física e a serenidade espiritual. A dor e o medo são certamente sensações a evitar nas opções a tomar e na sua consecução prática, porque provêm e provocam a doença do corpo e a instabilidade do espírito. Pelo contrário, o prazer é o fim de toda a ação moral, uma vez que as escolhas se devem direcionar para a extinção da dor e o incremento do deleite, que constitui a base de toda a vida feliz. Tal como os desejos, também os prazeres devem ser criteriosamente escolhidos, uma vez que muitos deles têm como consequência mais sofrimento, embora possam ser imediata e enganadoramente apetecíveis. E aquilo que nos causa dor imediata pode ter de ser escolhido, com vista à obtenção de um maior prazer que dessa escolha decorrer.
Decerto que todo o prazer é um bem e toda a dor um mal. Decerto que evitar a dor e escolher o prazer é, para Epicuro, o princípio moral fundamental. Mas tal não significa que se deva rejeitar tudo o que pode causa sofrimento imediato, nem significa que se deva acolher tudo o que provoca prazer imediato. As opções a tomar devem atender não apenas às consequências imediatas, mas a médio e longo prazo, para que ninguém possa hipotecar o seu futuro a partir de uma vivência frívola, sem o necessário equilíbrio, e entregue a todos os prazeres sensíveis.
A satisfação dos desejos naturais (o desejo de saciar a fome, a sede, etc.), que são também os mais simples, é o fim de todo o comportamento. Infelizmente, raramente nos contentamos com a frugalidade e entregamo-nos a desejos cada vez mais requintados, tão refinados quanto inúteis (o luxo, a vaidade, o poder desmedido, a glória, as bebidas, os sumptuosos banquetes, a posse de muitos parceiros sexuais, etc.). Saber viver uma vida simples e contentar-se com pouco é o segredo da sabedoria.
Já no tempo de Epicuro a sua filosofia estava exposta a este equívoco. Alguns acusavam-no de centrar a ação humana na obtenção do prazer desregrado. No fundo, o prazer que Epicuro erige a fim último é o que corresponde à «ausência de sofrimento físico» e a toda a «perturbação da alma». E tal fim só se obtém quando nos contentamos com uma vida simples, que vê os seus desejos naturais satisfeitos e recusa todo o excesso. Se o sábio já não sentir necessidade de uma vida fundada no desregramento dos sentidos, viverá de forma mais saudável, tanto física como espiritualmente.
E assim sendo, a prudência ocupa um lugar cimeiro. E diríamos que ser prudente é refletir sobre os danos ou benefícios que uma determinada escolha comporta e decidir em função desses resultados; é não embarcar em experiências insensatas que a médio ou longo prazo trarão ao indivíduo a convulsão da alma; é ter da própria vida uma visão holística e não meramente circunstancial.
Epicuro descreve a natureza circular das virtudes. Não há felicidade sem prudência, beleza e justiça e não há prudência, beleza e justiça sem felicidade. Há, pois, um vínculo essencial entre as virtudes, de modo que nenhuma subsiste sozinha, mas apenas acompanhada pelas outras.
E o sábio grego termina a sua carta oferecendo ao ser humano a esperança da libertação do efémero. Viver no plano dos valores imortais eleva-o ao mundo dos deuses e dali pode contemplar, digno e feliz, o afã e a perturbação da vida tumultuosa dos seus companheiros de jornada, cujas opções os mantêm aferrolhados na tempestade dos desejos inúteis.

Que limites apontar a uma ética tão profundamente delineada? Julgo que maior pecha do epicurismo é desenvolver-se no interior de uma ética individualista. Não há aqui um laivo de abertura do sujeito aos outros nem se vislumbra o equacionamento dos princípios éticos numa base comunitária, de reconhecimento do outro como seu semelhante, com a mesma estrutura moral e a mesma dignidade do sujeito enunciador do discurso. Pelo contrário, todo o pensamento ético progride na mera relação intrínseca do sujeito consigo, longe da estrutura social no seio da qual os seres humanos crescem «livres e iguais em dignidade e direitos». E é este arejamento político, esta visão comunitária que torna cada pessoa capaz de equacionar o seu comportamento a partir de parâmetros racionais expectáveis. Ou somos com os outros, ou seremos apenas um resíduo de humanidade.

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