sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Feliz Natal



A todos os cibernautas um feliz Natal e que nasça no coração de cada ser humano esse deus de infinita bondade por que anseia toda a humanidade, desde os tempos mais remotos.



Belém



Fins de dezembro. A noite é fria.

Pesa um silêncio triste, enorme

Por sobre a terra, que sorria

À luz do Sol. E tudo dorme.



O luar, agora, álgido, escorre

Pelas campinas. Vales, montes

Dormem. Apenas vela e corre

A água do rio, a água das fontes.



Velam também os pegureiros.

Guardam, fiéis, os seus rebanhos.

E esses zagais, rudes, grosseiros,

À luz do luar tornam-se estranhos.



Olhando o céu (que noite linda!)

Falam com toda a gravidade

Desse Messias, cuja vinda

Espera ansiosa a humanidade.



Jonathas Serrano (1855-1944)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Morte em Newtown



Parece que os Americanos ainda não perceberam que a natureza humana não é apenas inclinada para o bem, mas também para o mal e até para o mal na sua forma mais aviltante: a crueldade. Deste modo, encaram os desastres humanos — como o massacre que ocorreu recentemente na escola primária de Newtown, no estado norte-americano de Connecticut — não como resultado da falibilidade intrínseca ao ser humano, mas como um mero desvio individual, uma exceção a que é preciso pôr cobro, armando até aos dentes os homens e mulheres de bem. Não entenderam que todos nós somos capazes dos melhores atos de compaixão pelos nossos semelhantes mas igualmente pelas piores sacanices, basta somente que determinadas condições estejam reunidas. Não somos seres luminosos e transparentes, nem a abominação da desolação. Somos um misto de tudo isto, uma área primaveril de onde brota a vida e simultaneamente um campo soturno de invernos chuvosos. E disto que somos decorrem as imprudências, as indecências, o logro, a perversão e demais patifarias que enxameiam as parangonas dos jornais sensacionalistas que, afinal de contas, não têm mãos a medir nem espaço suficiente para narrar todos os despautérios de que somos capazes.
E porque os Americanos acreditam piamente na bondade unívoca da natureza humana, creem que as poucas maçãs podres que o cesto ostenta têm de ser derrotados pela força da esmagadora maioria de cidadãos exemplares. A cada massacre, como o que ocorreu agora, seguem-se, portanto, as vozes tipicamente americanas, exigindo que a União e os Estados liberalizem ainda mais o uso de armas para a defesa das pessoas de bem. Não perceberam que a condição humana é tudo menos aquela retidão ética que asseguram ser. Bastava apenas que lessem as estatísticas, sem os preconceitos atávicos. Nos EUA morreram a tiro, em 2012, 9369 pessoas, enquanto no Canadá esse número é de apenas 144. A diferença é esmagadoramente clara! O problema não se resolve armando mais pessoas, mas desarmando a população de forma sistemática. O provérbio português de que a ocasião faz o ladrão funda-se numa desconfiança essencial a respeito da natureza humana, que se tem mostrado basicamente verdadeira. A resolução dos principais problemas sociais, as abissais clivagens na economia mais rica do mundo são outras tantas ocasiões, a juntar à aquisição fácil de armas de fogo, que acicatam os piores demónios que habitam o coração humano.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Epicuro

Uma leitura atenta de «Carta a Meneceu» veio aclarar alguns equívocos sobre Epicuro. Nascido em 341 a.C. na ilha grega de Samos, o filósofo, que sempre se considerou ateniense, pertence a uma geração posterior aos três grandes vultos do pensamento grego clássico: Sócrates, Platão e Aristóteles. E apesar do gigantismo dos três sistemas seus predecessores, Epicuro ousa percorrer o seu próprio caminho. É um homem livre e livre é igualmente o seu pensamento. A «Carta a Meneceu» é um dos poucos documentos do próprio Epicuro que sobreviveram à erosão do tempo. Infelizmente, a maior parte da sua produção foi devorada pela devoção aos dois eminentes sistemas filosóficos clássicos: o académico (platónico) e o peripatético (aristotélico). E sobejaram apenas textos de natureza ética, motivo pelo qual se conhece relativamente bem o sistema ético deste filósofo, mas pouco das outras áreas do saber. Apesar disso, proliferou a ideia de que Epicuro defendia como princípio fundamental do comportamento ético o prazer tout court. Tratar-se-ia, pois, de um sistema que poria no centro das preocupações éticas a satisfação de quaisquer desejos com vista à obtenção do máximo prazer. Nada mais errado!
O texto inicia com a defesa da filosofia como percurso com vista à fruição de uma vida feliz. A filosofia é a reflexão constante acerca dos princípios que, se assumidos como eixos centrais do agir humano, hão de trazer-lhe a felicidade. Sábio é, pois, todo o que realizar na vida o que os princípios éticos decorrentes da reflexão filosófica lhe prescreverem.
E o primeiro princípio é de caráter metafísico: a divindade é feliz e imortal, por conseguinte, não lhe poderá ser atribuída nenhuma qualidade que seja incompatível com estas. Epicuro distingue, na linha do pensamento racional, o discorrer próprio do senso comum, que imagina os deuses como entidades que premeiam os bons e punem os maus, ou seja, como entidades que se relacionam permanentemente com o mundo humano, e a racionalidade filosófica que separa indelevelmente o mundo divino e o mundo humano, uma vez que não poderiam os deuses ser inteiramente felizes, se se importassem com a dimensão mesquinha, efémero e injusta em que a vida humana se processa. Entre o divino e o humano há, pois, uma separação que nenhum deus pode ultrapassar, sob pena de se tornar tão humano quanto o somos nós. Estabelece-se, pois, como no pensamento filosófico aristotélico, uma clara distinção entre o sentimento religioso, que vê os deuses em permanente relação com o humano, e a reflexão filosófica que alcança o divino na sua total e inexcedível transcendência. Estamos tão longe de uma visão ateística da realidade como de uma perceção tradicional-religiosa da relação divindade-humanidade. E esta reflexão inicial está intimamente inscrita no pensamento ético de Epicuro por recusar aos deuses não só a manipulação do comportamento humano (o ser humano é livre na sua vontade), como também a ativação da ordem moral do mundo, castigando os maus e recompensando os bons. Se alguma ordem moral o mundo tiver, será, portanto, ativada unicamente pelo comportamento humano e, sendo este precário e imperfeito, jamais a realidade humana poderá ser resgatada da sua própria imperfeição moral. Estamos, assim, condenados a viver num mundo de desordem ética e sem qualquer possibilidade de salvação, dado o fosso intransponível que separa a divindade da humanidade. E ainda que a tradição religiosa e o naturalismo hajam posto acima dos deuses o destino, que tudo orienta e determina, Epicuro recusa-o, por contrário à responsabilidade da vontade humana, livre e consciente.
O segundo princípio é o de que a morte nada significa para o ser humano. De facto, quando este existe, não há aquela e quando aquela existe, já não há ser humano que a possa vivenciar. São realidades que se excluem mutuamente, não podendo jamais coexistir. Esta convicção dará ao ser humano a possibilidade de fruir da vida, efémera mas preciosa. E porque a morte é sempre vivida in absentia, o medo da morte é um absurdo a que só os menos sábios se submetem. Tal como o suicídio, que é a procura da morte no espaço da sua ausência que é a vida. A única realidade que o ser humano deve procurar é, por conseguinte, a vida, e uma vida com sentido. A morte é a impossibilidade da fruição da vida e, portanto, um nada sem sentido. Ser sábio é aquele que é indiferente à ideia da morte e aquele que sabe viver uma vida feliz. Se queres ser feliz, afasta de ti o cálice da morte, bem como a amargura do medo que o sentimento da morte te repropõe incansavelmente e vive votado apenas ao esplendor da vida.
O desejo da vida e a sua fruição são, pois, dimensões éticas fundamentais para todo o homem sábio. Assim sendo, será toda e qualquer espécie de desejo igualmente digno de ser satisfeito? A resposta de Epicuro é negativa. E é neste ponto que se gerou o maior mal-entendido a respeito do epicurismo original. Uma conceção superficialmente hedonista é tão estranha a este sistema ético como o é o seu suposto ateísmo. Na verdade, se por hedonismo entendermos a conceção filosófica que atribui ao prazer, i.e., à satisfação de todos os desejos imediatos, o supremo bem para o qual a vontade deve orientar-se, o nosso filósofo está longe de o ser.
Epicuro começa por distinguir os desejos naturais dos inúteis. Sendo que entre os primeiros há os que são inteiramente necessários à consecução da felicidade, do bem-estar e da própria vida. E são estas distinções subtis, mas fundamentais, que tornam muito mais complexo e muito menos redutível a fórmulas simplistas o pensamento deste eminente sábio grego. Se a vida ética visa a obtenção da «saúde do corpo e da serenidade do espírito», os desejos que não se direcionem a este fim serão inúteis. É que ambas as finalidades exigem muitas vezes sacrifícios que não são compatíveis com a procura do prazer ilimitado e imediato. Fruir da vida não só aqui e agora, mas a médio e longo prazo supõe a rejeição de alguns prazeres momentâneos e a assunção de ações cujas consequências imediatas podem ser desagradáveis ou mesmo penosas para o sujeito, com vista a alcançar a felicidade e o bem-estar a médio e longo prazo. O homem sábio vê para lá do tempo em que toma as suas decisões e projeta o próprio comportamento no futuro, a partir de uma análise criteriosa das ações e das suas consequências sobre a saúde física e a serenidade espiritual. A dor e o medo são certamente sensações a evitar nas opções a tomar e na sua consecução prática, porque provêm e provocam a doença do corpo e a instabilidade do espírito. Pelo contrário, o prazer é o fim de toda a ação moral, uma vez que as escolhas se devem direcionar para a extinção da dor e o incremento do deleite, que constitui a base de toda a vida feliz. Tal como os desejos, também os prazeres devem ser criteriosamente escolhidos, uma vez que muitos deles têm como consequência mais sofrimento, embora possam ser imediata e enganadoramente apetecíveis. E aquilo que nos causa dor imediata pode ter de ser escolhido, com vista à obtenção de um maior prazer que dessa escolha decorrer.
Decerto que todo o prazer é um bem e toda a dor um mal. Decerto que evitar a dor e escolher o prazer é, para Epicuro, o princípio moral fundamental. Mas tal não significa que se deva rejeitar tudo o que pode causa sofrimento imediato, nem significa que se deva acolher tudo o que provoca prazer imediato. As opções a tomar devem atender não apenas às consequências imediatas, mas a médio e longo prazo, para que ninguém possa hipotecar o seu futuro a partir de uma vivência frívola, sem o necessário equilíbrio, e entregue a todos os prazeres sensíveis.
A satisfação dos desejos naturais (o desejo de saciar a fome, a sede, etc.), que são também os mais simples, é o fim de todo o comportamento. Infelizmente, raramente nos contentamos com a frugalidade e entregamo-nos a desejos cada vez mais requintados, tão refinados quanto inúteis (o luxo, a vaidade, o poder desmedido, a glória, as bebidas, os sumptuosos banquetes, a posse de muitos parceiros sexuais, etc.). Saber viver uma vida simples e contentar-se com pouco é o segredo da sabedoria.
Já no tempo de Epicuro a sua filosofia estava exposta a este equívoco. Alguns acusavam-no de centrar a ação humana na obtenção do prazer desregrado. No fundo, o prazer que Epicuro erige a fim último é o que corresponde à «ausência de sofrimento físico» e a toda a «perturbação da alma». E tal fim só se obtém quando nos contentamos com uma vida simples, que vê os seus desejos naturais satisfeitos e recusa todo o excesso. Se o sábio já não sentir necessidade de uma vida fundada no desregramento dos sentidos, viverá de forma mais saudável, tanto física como espiritualmente.
E assim sendo, a prudência ocupa um lugar cimeiro. E diríamos que ser prudente é refletir sobre os danos ou benefícios que uma determinada escolha comporta e decidir em função desses resultados; é não embarcar em experiências insensatas que a médio ou longo prazo trarão ao indivíduo a convulsão da alma; é ter da própria vida uma visão holística e não meramente circunstancial.
Epicuro descreve a natureza circular das virtudes. Não há felicidade sem prudência, beleza e justiça e não há prudência, beleza e justiça sem felicidade. Há, pois, um vínculo essencial entre as virtudes, de modo que nenhuma subsiste sozinha, mas apenas acompanhada pelas outras.
E o sábio grego termina a sua carta oferecendo ao ser humano a esperança da libertação do efémero. Viver no plano dos valores imortais eleva-o ao mundo dos deuses e dali pode contemplar, digno e feliz, o afã e a perturbação da vida tumultuosa dos seus companheiros de jornada, cujas opções os mantêm aferrolhados na tempestade dos desejos inúteis.

Que limites apontar a uma ética tão profundamente delineada? Julgo que maior pecha do epicurismo é desenvolver-se no interior de uma ética individualista. Não há aqui um laivo de abertura do sujeito aos outros nem se vislumbra o equacionamento dos princípios éticos numa base comunitária, de reconhecimento do outro como seu semelhante, com a mesma estrutura moral e a mesma dignidade do sujeito enunciador do discurso. Pelo contrário, todo o pensamento ético progride na mera relação intrínseca do sujeito consigo, longe da estrutura social no seio da qual os seres humanos crescem «livres e iguais em dignidade e direitos». E é este arejamento político, esta visão comunitária que torna cada pessoa capaz de equacionar o seu comportamento a partir de parâmetros racionais expectáveis. Ou somos com os outros, ou seremos apenas um resíduo de humanidade.