sábado, 3 de novembro de 2012

A velha Europa



A Europa no pleno vigor da sua decadência. Todos os impérios tiveram o seu tempo. E quando as circunstâncias se alteraram a seu desfavor, tiveram de renunciar ao poder que sobre os outros haviam detido. A Europa já se viu obrigado a esta feliz abdicação. E ainda bem. Por outro lado, a influência deste pequeno continente sobre o mundo é ainda necessária. Exportámos ciência, tecnologia, conhecimento, cultura e muitos outros bens materiais e espirituais. Entretanto, os centros de produção de conhecimento desviaram-se para outras latitudes, porque a Europa tem dado sucessivos tiros nos pés. Desde logo, a autodestruição que consumou nos dois maiores conflitos mundiais, para os quais arrastou o mundo remanescente. Percebemos, então, que valia a pena juntarmos esforços e ultrapassar nacionalismos grosseiros e insanos, com vista à manutenção da paz e à projeção da Europa no mundo. Mas este percurso tem ocorrido ao arrepio dos interesses da própria Europa. Os Estados tendem a afirmar as suas conveniências nacionais contra as da comunidade onde se inserem. E enquanto vemos os Estados Unidos a agirem como um todo, incrementando por isso a sua importância mundial, a exportarem mentalidades, conhecimento científico, vanguardas artísticas, etc., observamos a decadência feroz de um continente que quis ser o guardião do progresso e é agora o reboque dos novos impérios emergentes, como a China.
Um dos aspetos de que mais nos podíamos orgulhar — o Estado social — é agora delapidado sem sequer nos perguntarmos que futuro nos vai trazer esse vazio e se o desmoronamento da coesão social, dessa coesão que fez deste espaço geográfico uma autoridade moral em matéria de humanismo, não trará novas barbáries. É que o Estado social não é um mero apêndice da vida comunitária. Felizmente, já não nos lembramos o que foi uma comunidade em que a solidariedade social era coisa inexistente e cada um estava inteiramente entregue a si próprio, à sua sorte ou infortúnio, e quem havia nascido em berço de oiro via o futuro garantido, mas quem havia nascido na indigência raramente dela se libertava. Era, pois, uma sociedade que promovia, sem pestanejar, a injustiça da reprodução social. Tudo estava bem como sucedia. Para quê mudar aquilo que os deuses tinham declarado e o destino havia distribuído a cada um? A consequência era uma massa enorme de gentes sem direitos, sem dignidade (pelo menos sem que lhes fosse reconhecida), que via os seus filhos seguirem inevitavelmente o mesmo fadário, como se um deus assim o houvesse declarado.
Entretanto, sobretudo por influência do marxismo (mas não só, uma vez que algum papel foi também assumido pela doutrina social da Igreja), o vilipendioso capitalismo teve de assumir uma face mais humana e o resultado foi o desenvolvimento de um sistema misto no qual as cegas leis da oferta e da procura foram temperadas pela intervenção benéfica do Estado, por forma a garantir a todos uma existência digna e, coisa nada despicienda, a possibilidade de mobilidade social, rompendo com a secular e injusta reprodução social.
A atual crise Europeia é económica, financeira e, sobretudo, espiritual. Ou seja, assiste-se a uma inversão na escala de valores que nos faz regressar ao adverso século XIX, com toda a miséria que a revolução industrial, a proletarização da força de trabalho, o êxodo rural e, mormente, a avidez do capital provocaram. O empobrecimento das populações é evidente, o desmantelamento da classe média é sistemático, a rutura com direitos conquistados ao longo de décadas de árduo e frutífero labor parece não levantar a mais pequena dúvida aos novos comediantes da nossa tragédia. E o pior é que com os atuais políticos, de um modo geral intrujões e ao serviço dos grandes interesses económicos, que mantêm a cabeça no século XIX, agora que o contrapeso dos sistemas marxistas se esfumou, mas tomam decisões no século XXI, não se vislumbra a possibilidade de arrepiarmos caminho. A pobreza parece ter vindo para ficar. As desigualdades sociais cada vez mais vincadas são uma espécie de dado adquirido. A saúde e a educação para todos parecem coisas abstrusas que alguém se lembrou de prometer ao arrepio de um destino que encaixa cada qual no seu casulo adequado. Vamos rastejar na miséria da nossa indignidade porque, na mente destes neoliberais, o merecemos. Não tens trabalho? É só porque não queres trabalhar. Não consegues oferecer aos teus filhos condições para ascenderem socialmente através da educação? Foi porque nada fizeste para amealhar o necessário. Tudo se resume, afinal, a um problema pessoal. O Estado, a comunidade humana em que estamos inseridos nada tem que ver com o destino dos cidadãos. Cada indivíduo é uma ilha cercada de egoísmo por todos os lados. Tal como os Estados europeus, na sua tacanhez estúpida, olham para a União como um mal menor, na qual estão para servir os interesses do seu próprio eleitorado e não o bem de todos os cidadãos europeus que é afinal, mesmo que o não saibam ou não queiram saber, o bem de todos os Estados e do mundo inteiro. Também aqui se aplica a célebre e justa sentença do Talmude: «Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro».

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