terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pós-modernismo



É costume referirmo-nos às sociedades contemporâneas atribuindo-lhes a etiqueta de pós-modernas, seja o que for que tal epíteto queira exprimir. Temos consciência de nos termos aventurado numa nova etapa da história da humanidade e de, apesar das continuidades, termos estabelecido algumas ruturas importantes com a época anterior, abrindo novos caminhos e proporcionando novas oportunidades. Não é fácil estabelecer o limite a quo da nova ordem histórica. De uma forma geral e simplificada, como acontece também com o estabelecimento dos limites temporais de outros períodos históricos, podemos identificar essa fronteira com a primeira guerra mundial. De facto, este acontecimento veio introduzir uma série de modificações políticas que marcaram o tempo posterior até aos nossos dias. Foi na sequência desta catástrofe que se desmoronaram antigos impérios e outros entraram em processo de falência. E se as antigas estruturas de poder tombaram, a ascensão do povo ao poder efetivo foi-se consolidando.
Quais serão as características básicas da sociedade pós-moderna? O triunfo incontestável da ciência e das suas aplicações tecnológica marca hoje o quotidiano dos povos e dos indivíduos. É a nova forma do saber seguro, o novo acesso à verdade, que destrona as antigas raízes do conhecimento centradas na religião e seus sucedâneos mais ou menos sérios, através de um conhecimento que vem do Alto, ou mesmo nas sabedorias filosóficas orientadas para a explicação do mundo e sobretudo do lugar do ser humano no contexto do universo global. E se nos afastámos de um certo exagero usualmente apelidado cientismo, também é verdade que nenhuma outra fonte de saber tem tanto prestígio e é tão considerada como a ciência, cujos resultados em matéria de medicina e de avanços tecnológicos são evidentes e irrefutáveis.
No plano político, assiste-se à vitória, com avanços e recuos, da democracia sobre todos os outros sistemas de organização política. Se é verdade que o século XX testemunhou a hegemonia de ditaduras de direita e de esquerda, o mesmo século protagonizou a sua derrota, fortemente incentivada pela consciência da barbárie da sua atuação e da vontade de poder que haviam encarnado. Num interessante programa de televisão, Mário Soares chamou, e com razão, a este período histórico, o século do povo. A ascensão das democracias como sistemas indiscutivelmente mais perfeitos (ou talvez apenas menos injustos) de organização política e social, se bem que frágeis e constantemente postos à prova pela degradação das estruturas, é uma realidade que se não pode escamotear. Por se ter verificado aquilo de que são capazes as ditaduras — basta lembrarmos os Gulag, os campos de concentração nazi e os extermínios, os desaparecimentos, as deslocações de populações inteiras, as prisões políticas, as torturas, a censura, entre muitos outros aspetos — o advento da democracia introduziu oxigénio à humanidade ferida. Este sistema político funda-se na afirmação do poder do povo, para o povo e através do povo, ou seja, todo o exercício do poder deve estar orientado para o bem-estar dos cidadãos e será permanentemente sujeito ao juízo popular para que se apresente como legítimo. Mas como todos os sistemas humanos, tem as suas debilidades. Se não for cuidada, preservada e sujeita a reformas contínuas, cristaliza-se e desaba. Manter a memória viva das atrocidades dos sistemas alternativos e melhorar as próprias democracias são os antídotos contra o seu envenenamento.
A par com a democracia, observa-se por todo o lado a afirmação da dignidade humana e dos valores e direitos que dela decorrem. A Declaração dos direitos humanos, à qual sucederam muitos outros documentos internacionais de defesa da dignidade humana nas mais variadas situações, é disso o testemunho mais eloquente. E não foram apenas os documentos, foi também a aplicação das suas orientações nos fóruns internacionais e no plano nacional. A superação de antigas visões parciais de etnia, nação ou raça vieram abrir caminho à integração de comunidades humanas até há bem pouco tempo excluídas dos poderes decisórios. Apesar de certas formas de racismo e nacionalismo exacerbado ainda persistirem, porque os progressos não se fazem de maneira uniforme, a consciência global assumiu a igual dignidade de todos os seres humanos, qualquer que seja a sua origem étnica, nacional, linguística, cultural, religiosa, sexual, etc. E daí decorrem naturalmente efeitos práticos a que não podemos escusar-nos. É, neste contexto, evidente, por exemplo, que a proibição do acesso das mulheres a lugares de chefia na hierarquia da Igreja Católica (e de outras Igrejas ou religiões, bem como de outras organizações) é fruto de um preconceito inaceitável, o qual está em evidente contradição com o princípio da igual dignidade do homem e da mulher. O feminismo, enquanto luta pela afirmação dos direitos das mulheres numa sociedade eminentemente dominada por homens, que tem vindo a interpor obstáculos, legais ou práticos, à ascensão da mulher, é hoje o sinal mais luminoso das profundas alterações a que a sociedade contemporânea está sujeita.
A questão dos direitos humanos tem-se desenvolvido também em áreas que tradicionalmente não lhe competiam, mas que hoje são indubitavelmente nela integradas. Refiro-me aos direitos económicos e sociais, que entraram recentemente em crise e foram submetidos a uma pressão sem tréguas nas sociedades ocidentais, incapazes de resolver as suas contradições. Qualquer que seja a nossa posição sobre os atuais desenvolvimentos económicos, ninguém nega que constitui um direito de todos os cidadãos usufruir de um salário justo, de condições sociais e económicas que lhe proporcionem, bem como à sua família, uma vida digna…
Esta globalização dos direitos humanos e da consciência ética veio criar em cada ser humano novas formas de identificação. Se outrora nos identificávamos apenas com quem partilhávamos as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma etnia ou nacionalidade, na sociedade hodierna tendemos a identificar-nos com toda a humanidade, transformando o planeta numa grande família de pessoas cujo sofrimento se torna insuportável para todos os outros. Há certamente um longo caminho a percorrer, mas já se avistam sinais de que é para aí que nos orientamos. Isso deve encher-nos de esperança, sobretudo agora que vivemos momentos conturbados.
Se os consensos sobre matérias fundamentais são importantes, também o é a liberdade e o pluralismo que dela provém. A sociedade pós-moderna é igualmente uma comunidade de pluralismos, na qual se impõe ao indivíduo apenas o que for estritamente fundamental para a orgânica e funcionamento da vida coletiva. A tríade que a revolução francesa tão bem sublinhou (liberdade, igualdade e fraternidade), com fortes raízes na mensagem cristã, triunfou inegavelmente, outorgando a cada sujeito possibilidades que lhe estavam vedadas em antigas formas sociais cristalizadas e fortemente hierarquizadas, nas quais os óbices à mobilidade social eram praticamente intransponíveis.
A educação tornou-se a pedra de toque do desenvolvimento económico e humano. As principais organizações internacionais referem-na como a via de saída do subdesenvolvimento. Para além da sua democratização e universalização, muito mudou, tanto nos métodos como na sua conceção global. Todos concordam que a educação visa a emancipação do indivíduo, a sua libertação e autonomia e o desenvolvimento de competências teóricas e práticas que lhe serão úteis tanto na intervenção cívica como na realização profissional, cada vez mais dependente de conhecimentos especializados. Se no passado se sublinhava a repetição obediente, a reprodução de modelos sociais e a memorização, ligada a uma certa compreensão do mundo, agora insiste-se na originalidade, no processo criativo e na construção do mundo como finalidades da educação. Os métodos ativos são, por isso mesmo, privilegiados por oposição ao antigo ensino diretivo, centrado no professor e na aquisição de conhecimento inerte. Contudo, assiste-se a sucessivas reformas do ensino que parecem pretender torná-lo subserviente das necessidades do «mercado» de trabalho, ocultando o seu caráter humanista.
A afirmação do direito dos povos à independência, à autonomia e à gestão dos seus destinos é outra dimensão da sociedade pós-moderna. Tal como o indivíduo se liberta de tutelas inaceitáveis, assim os povos se libertaram (e libertam) de antigas potências coloniais ou sucedâneos. Mas o problema da autonomia dos povos não parece estar ainda inteiramente resolvido. A Espanha é um puzzle de nacionalidades que ainda se não libertou, a contento de todos, do Estado central. A China é um império de povos muito diferentes cuja descolonização não foi ainda levada a cabo e não o será enquanto subsistir um Estado centralizado e ditatorial que o não permitir. O percurso de libertação dos povos, bem como as visíveis alianças e a consequente formação de regiões supranacionais, que é um processo de sinal contrário mas sustentável se partir da vontade livre das nações, ainda estão longe de ter estabilizado. O caminho é longo e espinhoso, mas promissor, se atendermos às reorganizações políticas relativamente pacíficas decorrentes da queda das ditaduras comunistas.
O mundo é cada vez mais uma «aldeia global». As distâncias tornaram-se curtas, porque as possibilidades tecnológicas as minimizaram. A mobilidade humana é mais intensa e a comunicação ocorre à velocidade da luz. Isto é bom, mas tem os seus perigos. Se temos a sensação de viver num pequeno mundo que é a casa de todos, a verdade é que também o crime se tornou global. Há que reinventar a segurança, sem pôr em causa de maneira definitiva a liberdade individual, o que não é nada fácil.
Com a queda dos modelos económicos marxistas, o mundo transformou-se rapidamente num mercado global que exporta e importa produtos juntamente com a ideologia capitalista subjacente. Tal estado de coisas fomentou a emergência de países com economias tradicionalmente subdesenvolvidas. A riqueza distribui-se agora também pelos mais pobres. E os ricos veem-se obrigados a recuar quando têm de competir com mercados mais baratos que, dada a facilidade das comunicações, rapidamente instalam os seus produtos nos consumidores do mundo inteiro. Uns enriquecem, enquanto o nível de outros se deteriora. Mas o que importa relevar é o triunfo, pelo menos aparente e momentâneo, do modelo capitalista de organização económica, fundado no lucro, na acumulação de riqueza nas mãos de poucos e na mercantilização de produtos financeiros. Daí decorreu a terciarização da economia e a concentração de grandes massas populacionais em metrópoles gigantescas, com todos os problemas subsequentes. O consumismo é o nutriente do próprio capitalismo. Sem consumo não há produção de riqueza, nem lucro. A sociedade desenvolve, por isso, todo o tipo de técnicas para fazer suscitar na consciência individual o mais variado conjunto de necessidades, outrora desconhecidas. Queremos tudo e já. Uma nova gama de telemóveis torna obsoleto e inaceitável o «velho» telemóvel de algumas semanas que temos no bolso. Urge substituir… e atirar fora o que já não serve, ainda que funcione. É a sociedade do desperdício. Já não se repara a máquina que se estragou, compra-se uma nova. A consequência é uma enorme acumulação de detritos e a destruição dos recursos naturais. A ideologia subjacente a toda esta mentalidade é o materialismo. Secundarizam-se os valores espirituais para que ocupe agora o centro de todas as preocupações a aquisição de objetos materiais que preencham desejos que os nossos avós não julgavam poder existir.
O capitalismo é, por sua natureza, um eficaz e feroz predador. Mas o planeta não tem recursos ilimitados que satisfaçam a sede de lucro e acumulação que a atual organização económica do mundo promove. E é assim que estamos no centro de uma catástrofe ecológica cujos contornos ainda não são inteiramente visíveis. A sociedade pós-moderna também aprendeu, ainda que a medo e de forma titubeante, a dar atenção ao planeta, às suas condições naturais e aos sistemas ecológicos fortemente fustigados pela transformação de todas as coisas em meros produtos rentáveis. Esperamos que esta dimensão da vida ganhe a devida importância e antes de sucumbirmos à nossa avidez possamos recolocar as coisas no seu respetivo lugar. Para bem de todos. Para bem dos nossos filhos e netos.
Aconteceram igualmente alterações substanciais no plano ético. O antigo consenso em torno dos valores e da sua hierarquia pulverizou-se. A fragmentação das visões do mundo e das suas consequências práticas trouxe novos problemas às relações sociais, mas permitiu a coexistência de universos plurais, bem como o incremento da tolerância em relação à diferença. Se a verdade forra o valor mais apreciado, hoje é a liberdade que ocupa o centro das preocupações éticas. Talvez o mais eloquente dos sinais seja o desmoronamento dos tabus sexuais. Comportamentos considerados «não naturais» (o que quer que isso signifique) são hoje integrados no quotidiano das sociedades. São exemplos disso mesmo a homossexualidade, que fora considerada uma doença e acabou por ser retirada da lista de patologias da Organização Mundial de Saúde, o divórcio e o consequente acréscimo de novos modelos de família, a contraceção, que deu à mulher poder para gerir a sua sexualidade, e a queda de outros tabus de ordem sexual. Para alguns, tal modificação das mentalidades é o espelho da decadência social, como se outrora tudo fosse melhor e nos dirigíssemos a passos largos para o abismo; para outros, porventura a maioria, é a afirmação da liberdade individual contra um excessivo controlo social conservador que outrora se fazia sentir.
A arte e as suas múltiplas manifestações também mudou de paradigma. Hoje sublinha-se a rutura, a novidade e a criatividade, por oposição à perfeição, ao equilíbrio, ao belo ou ao sublime, que dominavam as formas artísticas do passado. A um observador pouco habituado, uma obra de arte pode ser algo de inusitado ou pode simplesmente confundir-se com qualquer objeto casualmente observado no quotidiano. Neste segundo caso, é apenas o contexto que dirime a questão e clarifica a sua função simbólico-artística. Uma vez que se aprecia a rutura, que tudo torna rapidamente obsoleto e corriqueiro, não é raro que obras de arte assumam contornos extravagantes, bizarros ou até grotescos. Tudo é possível no mundo da arte onde antigas barreiras éticas são derribadas e velhos padrões uniformes que tornavam as linguagens artísticas relativamente balizadas dentro de parâmetros consensuais são demolidos. A arte é o fulgor da originalidade, não necessariamente a expressão da beleza.
A sociedade pós-moderna está profundamente secularizada. O profano tomou a dianteira sobre o sagrado. As estruturas religiosas foram amplamente afastadas da organização política da vida. A laicidade é exatamente essa separação, globalmente aceite, entre o poder político (o Estado) e os poderes religiosos (a religião institucional). Mas as instituições religiosas não perderam apenas a sua influência política, perderam também a profunda ascendência ética, sobre as comunidades e os indivíduos, de que gozavam. Muitos, embora continuem a considerar-se religiosos, afastam-se da participação nos rituais sagrados e a influência que a religião tinha outrora em matéria ética e na formação das principais visões do mundo está claramente mitigada pelo esboroamento da sua autoridade. No plano da relação entre religiões, o mundo pós-moderno, acolhendo largamente uma visão relativista, promove o diálogo inter-religioso e o ecumenismo. Todas as visões do mundo passaram a ser igualmente aceitáveis, dentro de determinados limites, e nenhuma religião parece ter argumentos definitivos que imponham a sua supremacia face a todas as outras. O homem moderno não é irreligioso. É relativista.
Em traços largos, e necessariamente de forma sumária, aqui ficam algumas das principais características das sociedades pós-modernas, nossas contemporâneas. O futuro será o que todos quisermos que seja. Os mais conservadores exigem o regresso a antigos modelos de vida. Os mais progressistas preferem olhar em frente e abalar todos os dias à conquista de novas formas de existência. Uns e outros procuram uma vida com sentido. Somente a interpretam de maneira diversa. Apesar de tudo, a humanidade revelou, até agora, ter a sabedoria necessária para resolver os problemas com que se deparou. Somos isso mesmo: seres inseridos no tempo, oriundos de um passado e projetados num futuro que ainda é preciso erguer. Mas entretanto, convém viver o presente e ter os pés bem assentes na terra.

sábado, 3 de novembro de 2012

A velha Europa



A Europa no pleno vigor da sua decadência. Todos os impérios tiveram o seu tempo. E quando as circunstâncias se alteraram a seu desfavor, tiveram de renunciar ao poder que sobre os outros haviam detido. A Europa já se viu obrigado a esta feliz abdicação. E ainda bem. Por outro lado, a influência deste pequeno continente sobre o mundo é ainda necessária. Exportámos ciência, tecnologia, conhecimento, cultura e muitos outros bens materiais e espirituais. Entretanto, os centros de produção de conhecimento desviaram-se para outras latitudes, porque a Europa tem dado sucessivos tiros nos pés. Desde logo, a autodestruição que consumou nos dois maiores conflitos mundiais, para os quais arrastou o mundo remanescente. Percebemos, então, que valia a pena juntarmos esforços e ultrapassar nacionalismos grosseiros e insanos, com vista à manutenção da paz e à projeção da Europa no mundo. Mas este percurso tem ocorrido ao arrepio dos interesses da própria Europa. Os Estados tendem a afirmar as suas conveniências nacionais contra as da comunidade onde se inserem. E enquanto vemos os Estados Unidos a agirem como um todo, incrementando por isso a sua importância mundial, a exportarem mentalidades, conhecimento científico, vanguardas artísticas, etc., observamos a decadência feroz de um continente que quis ser o guardião do progresso e é agora o reboque dos novos impérios emergentes, como a China.
Um dos aspetos de que mais nos podíamos orgulhar — o Estado social — é agora delapidado sem sequer nos perguntarmos que futuro nos vai trazer esse vazio e se o desmoronamento da coesão social, dessa coesão que fez deste espaço geográfico uma autoridade moral em matéria de humanismo, não trará novas barbáries. É que o Estado social não é um mero apêndice da vida comunitária. Felizmente, já não nos lembramos o que foi uma comunidade em que a solidariedade social era coisa inexistente e cada um estava inteiramente entregue a si próprio, à sua sorte ou infortúnio, e quem havia nascido em berço de oiro via o futuro garantido, mas quem havia nascido na indigência raramente dela se libertava. Era, pois, uma sociedade que promovia, sem pestanejar, a injustiça da reprodução social. Tudo estava bem como sucedia. Para quê mudar aquilo que os deuses tinham declarado e o destino havia distribuído a cada um? A consequência era uma massa enorme de gentes sem direitos, sem dignidade (pelo menos sem que lhes fosse reconhecida), que via os seus filhos seguirem inevitavelmente o mesmo fadário, como se um deus assim o houvesse declarado.
Entretanto, sobretudo por influência do marxismo (mas não só, uma vez que algum papel foi também assumido pela doutrina social da Igreja), o vilipendioso capitalismo teve de assumir uma face mais humana e o resultado foi o desenvolvimento de um sistema misto no qual as cegas leis da oferta e da procura foram temperadas pela intervenção benéfica do Estado, por forma a garantir a todos uma existência digna e, coisa nada despicienda, a possibilidade de mobilidade social, rompendo com a secular e injusta reprodução social.
A atual crise Europeia é económica, financeira e, sobretudo, espiritual. Ou seja, assiste-se a uma inversão na escala de valores que nos faz regressar ao adverso século XIX, com toda a miséria que a revolução industrial, a proletarização da força de trabalho, o êxodo rural e, mormente, a avidez do capital provocaram. O empobrecimento das populações é evidente, o desmantelamento da classe média é sistemático, a rutura com direitos conquistados ao longo de décadas de árduo e frutífero labor parece não levantar a mais pequena dúvida aos novos comediantes da nossa tragédia. E o pior é que com os atuais políticos, de um modo geral intrujões e ao serviço dos grandes interesses económicos, que mantêm a cabeça no século XIX, agora que o contrapeso dos sistemas marxistas se esfumou, mas tomam decisões no século XXI, não se vislumbra a possibilidade de arrepiarmos caminho. A pobreza parece ter vindo para ficar. As desigualdades sociais cada vez mais vincadas são uma espécie de dado adquirido. A saúde e a educação para todos parecem coisas abstrusas que alguém se lembrou de prometer ao arrepio de um destino que encaixa cada qual no seu casulo adequado. Vamos rastejar na miséria da nossa indignidade porque, na mente destes neoliberais, o merecemos. Não tens trabalho? É só porque não queres trabalhar. Não consegues oferecer aos teus filhos condições para ascenderem socialmente através da educação? Foi porque nada fizeste para amealhar o necessário. Tudo se resume, afinal, a um problema pessoal. O Estado, a comunidade humana em que estamos inseridos nada tem que ver com o destino dos cidadãos. Cada indivíduo é uma ilha cercada de egoísmo por todos os lados. Tal como os Estados europeus, na sua tacanhez estúpida, olham para a União como um mal menor, na qual estão para servir os interesses do seu próprio eleitorado e não o bem de todos os cidadãos europeus que é afinal, mesmo que o não saibam ou não queiram saber, o bem de todos os Estados e do mundo inteiro. Também aqui se aplica a célebre e justa sentença do Talmude: «Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro».