sábado, 27 de outubro de 2012

Ai de quem construir a casa sem justiça!

Profeta Jeremias, escultura de Valéria Delfim



Estou neste momento em plena leitura do livro do profeta Jeremias. E é espantoso como aquele homem atirava, sem dó nem piedade, sobre a face dos poderosos — os nobres, os sacerdotes e, sobretudo, o próprio rei — a insuportável verdade: a injustiça em cada esquina, a vitória da opressão dos poderosos sobre os mais fracos, o salário que ficava por pagar ou era pago tarde e às más horas, o desprezo pelos que não contavam do ponto de vista das estruturas de poder (no tempo, representados pelos órfãos e as viúvas). E para este homem desassombrado, cuja vida esteve sujeita a todo o tipo de violência (porque será?), conhecer Deus é exercer o direito, cumprir a justiça, exigir a dignificação dos oprimidos e dos sem nome. Não há outro Deus para além daquele que prescreve a justiça contra toda a opressão do ser humano às mãos de outros igualmente humanos?
E tudo isto parece escrito para os tempos que correm. Políticas insultuosas profetizam melhores dias, contanto que se aceitem sacrifícios injustamente distribuídos, bem como o depauperamento dos que vivem do trabalho, enquanto engordam as fortunas oriundas do capital e sabe-se lá de que outras proveniências. E é justo questionarmo-nos se é possível que o paraíso futuro desabroche da injustiça do presente, como uma rosa de um caule espinhoso. Não creio que o seja. Toda a felicidade coletiva resulta de passos pequenos mas seguros, não de tergiversações contínuas, despautérios politiqueiros, mentiras descaradas cuja única intenção parece ser a conquista e manutenção do poder. Não desejaria que acontecesse aos atores atuais o que Jeremias vaticinou e acabou por suceder aos do seu tempo: a devastação, a queda, a perda de toda a autonomia política com a absorção de Israel pelo império babilónico e a deportação dos seus líderes. Talvez a transposição não possa ser literalista, mas decerto estamos num bívio. Todos sabemos que a miséria e o empobrecimento de camadas sucessivas da população expõem-nas a discursos autoritários, messiânicos, milenaristas. E a democracia é um tesouro tão frágil! Um vaso de barro que, nas mãos da imprudência, facilmente se escaqueira, sem possível conserto.
Não deixarei de gritar aos quatro ventos, na medida das minhas parcas possibilidades, a insanidade desta política suicidária. E mesmo que tenha contra mim tantos excelentes pensadores da nossa praça, estou acompanhado pelas palavras de Jeremias: «[Deus disse:] Antes de te haver formado no ventre materno, já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, te consagrei e te constituí profeta das nações. [Disse Jeremias:] Seduziste-me, Senhor, e eu permiti que me seduzisses! Tu me dominaste e venceste. Todas as vezes que tomo a palavra é para proclamar: “Violência! Opressão!” A tua vontade tornou-se para mim motivo de insultos e escárnios, dia após dia.» (20,7-8).
Apesar das contrariedades a que estamos sujeitos, por um valor maior vale sempre a pena insistir na denúncia das atrocidades que os nossos dirigentes teimam em levar por diante e… em algumas situações, com a aprovação tácita ou explícita dos mais influentes líderes da Igreja!

domingo, 21 de outubro de 2012

O mistério




Quanto mais anos somo aos meus dias, menos sei de Deus. Não que acredite menos. Bem pelo contrário. Tenho apenas uma perceção maior da sua impenetrabilidade absoluta, da sua condição de mistério. Podem as teologias dizer o que entenderem a seu respeito; podem as doutrinas pretender torná-lo transparente ao entendimento humano; podem os pregadores procurar explicá-lo ao ouvido humano. Tudo vão. Tudo pouco. Tudo aquém. E quanto menos sei, mais o conheço. Porque há uma linguagem que se não explica senão ao coração. Deus é a grande companhia para a solidão do mundo. Para a minha própria solidão.