sábado, 29 de setembro de 2012

Sessão de lançamento do meu livro de contos «No rigor do tempo»



Ontem, foi o dia do lançamento do meu livro de contos. Fiquei emocionado com a participação de tantas pessoas. Sei bem o que custa prescindir de tempo com a família ou de tempo livre para estar neste tipo de eventos. Por isso, valorizo mais a presença de todos os que lá estiveram.
Depois de uma apresentação muito interessante de Alice Vieira, disse algumas palavras. Aqui ficam registadas.



Sessão de lançamento do livro «No rigor do tempo»

Boa tarde a todos.
Quero agradecer à escritora Alice Vieira a disponibilidade que prontamente manifestou para apresentar o meu livro de contos «No rigor do tempo». A sua presença muito me honra e enriquece esta sessão. Conheci pessoalmente Alice Vieira num projeto de produção de manuais escolares para o qual escreveu textos inéditos de elevada qualidade, como é aliás toda a sua produção literária. Os seus livros são incontornáveis no panorama da literatura portuguesa infanto-juvenil. Alimentaram gerações sucessivas de crianças e jovens. Continuam hoje tão atuais e relevantes como no tempo em que foram escritos. Também a sua incursão no mundo da poesia e a publicação do seu romance «Os profetas» revelam a sua versatilidade. Um sincero obrigado pela sua disponibilidade em estar aqui para apresentar o meu trabalho.
Quero agradecer à minha mulher, Célia Chamiça, com quem partilho a vida há mais de vinte anos, o apoio que me tem prestado, a inteligência das suas observações críticas e a dádiva constante da sua terna companhia.
Um obrigado também aos meus filhos, Francisco e João, por serem o que são. Valem sem dúvida bem mais do que todos os textos que escrevi ou hei de escrever.
Agradeço a todos os presentes, familiares, colegas de trabalho e amigos, que abdicaram de um pouco do seu tempo livre para estarem aqui comigo. Essa generosidade não tem preço. Fica, pois, gravada na minha memória.
Gostaria ainda de agradecer ao Instituto dos Pupilos do Exército, instituição na qual trabalho, cujo projeto educativo e ação educativa muito admiro, por quererem associar-se a esta iniciativa e pela entusiástica forma como acolheram o meu livro. Muito me honra a sua presença. Num tempo de dificuldades, em que os valores financeiros parecem levar a melhor sobre os valores éticos e estéticos, a generosa presença desta instituição é, para mim, sinal de que vale a pena investir na qualidade do ensino e numa educação integral como a que ministra. Uma perspetiva redutora que vê nos ganhos financeiros a sua única finalidade tem incompreensivelmente posto debaixo de fogo esta e outras instituições. Mas a sua história centenária é reveladora da persistência e coragem, bem como da altíssima qualidade das ofertas educativas que lá se desenvolvem.

Escrever no meio das solicitações do quotidiano não é tarefa fácil. Para quem tem outro ofício, como é o meu caso que sou professor, a escrita tem de ser reiteradamente relegada para os tempos livres, que são escassos, pontuais e pejados de tantas preocupações que muito pouco espaço deixam ao itinerário da escrita criativa. Na verdade, muito dificilmente haverá processo criativo sem aquele sossego que permite ao espírito enveredar por caminhos de inovação. É certo que, pessoalmente, não seria capaz de suportar o quotidiano sem a experiência libertadora da escrita. Mas tal experiência exige, no meio de tantas solicitações do trabalho e da família, um esforço imenso e uma gestão metódica do tempo. E apesar disso, creio valer a pena toda a fadiga acumulada, quando se materializa num livro o fruto de tanto empenho.
Esta questão levanta ainda uma outra interrogação: para que serve um texto literário? Valerá a pena o tempo despendido? Estou em crer que sim. Um dos aspetos que distinguem o ser humano do resto das espécies é exatamente a adoção de valores estéticos no exato momento em que perspetiva a realidade. O texto literário, como toda a obra de arte, pretende ser uma transfiguração do real. Uma espécie de utopia que, partindo da vida, elabora uma ou várias alternativas ao mundo no qual vivemos, saturado de injustiça, imerso na sua imperfeição. Toda a obra de arte remete para um paraíso perdido que a nossa imaginação não se cansa de repropor, ainda que a cobiça, a vontade de poder e o egoísmo individualista neguem todos os dias a sua realização. A arte é a projeção do olhar humano sobre o futuro por criar, um futuro no qual o ser humano se revela na sua plena humanidade, na sua plena identidade de ser livre e feliz. E é assim, mesmo quando a obra de arte desvenda toda a fealdade da vida, porque remete para essa utopia na medida em que pretende reconfigurar o presente por intermédio de uma visão crítica sobre o real.
Vale, portanto, a pena utilizarmos algum do nosso tempo no ato criador que existe tanto na produção da obra como na receção da mesma.
Para mim, um texto literário não serve apenas nem sobretudo para preencher o tempo vazio com que a organização da vida social nos vai ainda brindando. Um texto literário responde às solicitações da nossa dimensão social e dos nossos interesses estéticos. Tem uma ação terapêutica sobre o espírito, derrotado muitas vezes pela desumanização a que somos sujeitos, quando transformados em meras máquinas de produção ao serviço do lucro. Submetidos à vontade sombria de mesquinhos interesses materiais, sufocados pelas injunções do mercado, repetindo dia após dia uma rotina cujo sentido não vislumbramos, arrastamos no corpo e no espírito a tristeza da nossa condição de seres que anseiam pela Vida em plenitude e passeiam a sua indignação nos limites da morte quotidiana.
Não poderá ser a obra de arte uma evasão do real? O ópio do povo, como Marx dizia da religião? Pode ser que seja. Depende da obra e da receção que o destinatário fizer dela. Haverá legitimamente obras de arte que desejam somente ser objetos estéticos e como tal serem desfrutados, sem qualquer outra finalidade. Sem negar a importância de correntes artísticas que advogam a arte pela arte, nela não inscrevo as minhas intenções. Tudo o que é humano tem de dizer respeito à arte e à literatura. A justiça, a verdade, a liberdade, a fraternidade e todos os demais valores éticos são tão relevantes para a arte como o são para o ser humano. O texto literário é, para mim, integrador de todos os valores humanos que dão corpo a uma sociedade humanista e fraterna e simultaneamente é o rosto crítico da humanidade enquanto rejeita tudo o que a avilta e a diminui. É o grito de libertação humana face a todas as opressões pessoais e coletivas. É esse o motivo por que a arte é tão perseguida em regimes totalitários. Nessas sociedades, tende-se a domesticá-la para a tornar anódina, inocente, ingénua, alheia a toda a forma de construção social. Mas tal ocorre igualmente nas democracias representativas, por via do esquecimento da cultura, do desinvestimento e de uma certa seleção dos modelos objeto de apoio público.
Estamos num tempo de escassez. E não se trata apenas de escassez financeira ou económica. É também um tempo de submissão da ética, da estética e dos valores imateriais humanistas à lógica contabilística do deve e do haver, na qual a importância de algo se reduz à sua condição mercantil. Infelizmente, até as pessoas são objetos descartáveis que se usam e deitam fora consoante correspondem a necessidades decorrentes da aplicação cega da lei da oferta e da procura. Que tempo nos sobra para sermos pessoas, quando as horas do dia são poucas para enfrentarmos os desafios da produção?
É necessário recriar novos modelos, novas alternativas à despersonalização a que nos condenam os mercados, sobretudo os mercados financeiros e a sua especulação sem tréguas. Enquanto for a «glória de mandar e a vã cobiça» a sustentarem as políticas internacionais e, consequentemente, nacionais, haveremos de recuar no tempo, até experimentarmos a penúria e a desumanidade a que estavam sujeitos os nossos avós, em vez de prosseguirmos viagem, pela via do progresso humano, do desenvolvimento integral que nenhuma dimensão autenticamente humana exclui.
Não podemos deixar-nos intimidar pelas circunstâncias. Se somos tomados pelo medo, paralisamos e definhamos. Para mim que acredito num sentido global para a história humana e para o universo material, ainda que nem sempre transparente, a esperança não pode sucumbir sob a ação de situações adversas e do nosso imobilismo. E é por isso que escrevo: para abrir outros horizontes às inquietações do presente.
Espero que gostem do meu livro e obrigado pela vossa presença.


domingo, 23 de setembro de 2012

«No rigor do tempo»

Na próxima sexta-feira, dia 28 de setembro, vou lançar o meu livro de contos «No rigor do tempo». A escrita é uma das atividades que mais gosto de realizar. Sem sombra de dúvida, a minha vocação.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

É urgente uma nova política



Que mais quererá o Governo para rever a sua política? Sábado passado o povo saiu à rua, insatisfeito com o tratamento a que a gestão ruinosa do país o submeteu, sem apelo nem agravo. Tenho para mim que estas políticas de austeridade sem matização de espécie alguma são o princípio do fim. Não que tenhamos de continuar a gastar o que temos e o que não temos. Não é isso que defendo. Se se tem de poupar, que se poupe! No entanto, o que é revoltante é que sejam sempre os mesmos a pagar a totalidade das despesas decorrentes dos banquetes em que outros se empanzinaram. Sobretudo, o mesmo chico-espertismo português que foge aos impostos e vive de expedientes, reinterpreta a letra do acórdão do Tribunal Constitucional no sentido de o moldar a novas e impensadas crueldades que hão de cavar, se forem por diante, um fosso cada vez maior entre assalariados e capital, entre pobre e ricos. A ineficácia organizativa do Estado leva o Governo a arrancar despudoradamente somas brutais dos bolsos dos mais frágeis, sejam eles reformados ou assalariados.
Uma nova crise política vem ensombrar o futuro do país. E enquanto os nossos políticos se digladiam no palco em chamas em que se pavoneiam, os corpos vão-se amontoando no lusco-fusco da nossa tristeza.
Uma nova política precisa-se. Não uma que nos empurre definitivamente, num despesismo eleitoralista, para o penhasco de onde espreitamos. Não uma que nos degole na guilhotina do empobrecimento sem horizonte. Não uma que nos afaste da Europa a que pertencemos, que acrescente à nossa situação periférica novos motivos de exclusão. Mas uma que seja autenticamente solidária, onde todos tenham direito de cidadania e ninguém seja banido pela simples razão de haver nascido no local e na circunstância em que nasceu. E tal política tem de existir. Não podemos aceitar resignadamente a perda de tudo o que outrora os nossos antepassados penosamente conquistaram. Pelo menos, para honrar a memória deles, para deixarmos aos nossos filhos aquilo a que têm direito, sejamos firmes na exigência da justiça.