domingo, 12 de agosto de 2012

«Os profetas»

«Os profetas», de Alice Vieira: um romance histórico vigorosamente impressivo pela força anímica, pelo desembaraço da denúncia, pela desenvoltura com que narra uma história cujas personagens revelam sistemas de crenças antagónicos, ódios e amores, simpatias e traições. Num tempo infestado de demónios, a verdade e a mentira repassam os ambientes como se fossem uma e a mesma coisa. Mas não são! É o tempo da delação torpe que não se envergonha de a tudo recorrer para fazer valer os seus fins sombrios, de inimigos forjados numa espécie de loucura coletiva que investe sobre o outro, exatamente por ser o outro, qualquer que seja a sua configuração, de poderes vis que desfiguram a realidade a partir da sua visão acanhada e deletéria, de obscuras relações entre o sagrado e o profano, ambos ao serviço dos senhores do mundo.
E são claras também as preferências da narradora-autora. Preferência pelos explorados que definham na miséria da própria inanição, enquanto os seus verdugos se empanzinam com o pão dos pobres; preferência pelo saber por oposição a todo o servilismo que a ignorância oferece; preferência pela ousadia de ser livre a despeito dos grilhões impostos pela prepotência alheia; preferência pelos grandes valores que constituem o melhor da condição humana: a justiça, a verdade, a liberdade, a igualdade…
E a narrativa torna evidente a distinção entre uma Igreja do poder que assume ela própria a sua opção pelos algozes, por oposição às suas vítimas, e uma Igreja quase clandestina que, consciente do poder do conhecimento, o reparte com os excluídos e os convoca a tomar consciência da situação de injustiça em que se encontram. É, no fundo, a dialética irreconciliável entre uma fé descarnada, porque aparentemente desinteressada das condições sociais, tornando-se ideologia ao serviço do poder, e, pelo contrário, uma fé ao serviço do ser humano, para a qual a «glória de Deus é o homem vivo» (Ireneu de Lião).
Que interesse terá, dirão alguns, uma história cujas circunstâncias nos transportam para o ilustre e funesto século XVI, em pleno humanismo e em plena formação do obscurantismo inquisitório? É que, infelizmente, não se retrata apenas uma conjuntura específica que o tempo desvaneceu. É fácil reconhecer nos nossos dias os mesmos traços da mesma natureza humana, cuja evolução é assustadoramente lenta. Hoje, como ontem, a verdade parece ser um dado manipulável a bel-prazer de interesses corrompidos; a justiça uma realidade abstrata sem retorno sobre o sistema económico mundial que mantém e fomenta assimetrias inqualificáveis e desigualdades escandalosas; a solidariedade destituída da sua real dimensão, até ser, quando muito, repartição do excesso que cai da mesa dos ricos, mas nunca a reforma de estruturas injustas que atiram para a miséria milhões de seres humanos. Uma aliança vergonhosa entre o poder religioso e o poder civil é também hoje identificável como facto em boa medida persistente. A perseguição a toda a heresia, real ou aparente, é uma insana realidade que a tristemente famosa Congregação para a Doutrina da Fé se encarrega de perpetuar na aluvião de condenações surreais.
Que futuro queremos edificar? Um futuro livre de medos e perseguições, justo e autenticamente solidário, no qual nenhum ser humano será julgado pelas ideias que defende; um futuro onde todos sejam atores e destinatários do cuidado dos outros; um futuro em que a ortodoxia e a heterodoxia convivem no mesmo banquete que Cristo convoca? Porque Cristo não é propriedade da Igreja e muito menos do poder religioso. Cristo é património da humanidade. A todos pertence, como Moisés, Buda, Confúcio, Lao-Tsé, Maomé ou Marx, e todas as grandes personalidades que a história da humanidade deu à luz. É esse o futuro que queremos: aberto, democrático, tolerante, justo e solidário. E é a esse «abrir os olhos» da consciência que este romance de Alice Vieira apela com a veemência dos grandes textos.

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