domingo, 12 de agosto de 2012

«O homem duplicado»


A leitura de «O homem duplicado» corroborou a minha impressão — talvez mais do que impressão, porque consolidada pela leitura de outras obras de Saramago — de que a sua escrita é verdadeiramente genial. O que nele mais me fascina não são os enredos — alguns romances do autor desenvolvem mesmo intrigas que não aprecio particularmente —, é essencialmente a sua escrita literária, o trabalho estético sobre a língua que transforma observações originalíssimas ou simplesmente triviais — muitas como tal assumidas — em objetos estéticos deslumbrantes.
Um narrador omnisciente opina sobre as personagens — os seus comportamentos, sentimentos, pensamentos e atos de volição —, os eventos e ações e seus significados, bem como a respeito do labor literário, oficinal, próprio da produção estética. E estas constantes intrusões do narrador, de qualidade superior, emprestam ao discurso narrativo a forma de um tesouro no fundo oceânico do texto.
Além do que ficou dito, que se aplica às obras do autor do período mais original da sua escrita, achei particularmente genial este romance, por motivos a ele intrínsecos. Dois homens exatamente iguais veem os seus destinos confluir num mesmo entroncamento existencial. A altíssima improbabilidade genética de tal acontecimento, aliada à estranha coincidência de tempo e espaço comuns, abre a história para o abismo ficcional que é apanágio da obra de arte; porém, um abismo cujo sentido se condensa numa mensagem a partilhar com o leitor sobre a identidade, a unidade e a unicidade de cada ser humano, bem como o seu significado pessoal e social. Trata-se, pois, de literatura comprometida com sentidos extraestéticos. O aleatório evento, marcado pelo acaso (talvez o caos como «ordem por decifrar»), traz à liça uma profunda reflexão sobre a reivindicação de originalidade de cada ser humano e a insuportabilidade de nos vermos confrontados com uma identidade falsa, sem substrato, mero duplicado de outrem. E é esse borrão humano que não se compagina nem pode coadunar-se com a unicidade constitutiva de cada pessoa, com a sua singularidade total e a alteridade da sua estrutura individual. No fundo, a identidade somática apressa o apagamento da alteridade e transfere a dualidade para o campo da unidade supressora, desfigurando a individualidade de ambos ou, pelo menos, daquele que se assume (ou é assumido) como duplicado. Curiosamente, é a cópia que prevalece sobre o suposto original, desmentindo, desta forma, a inusitada e calamitosa interpretação inerente ao binómio original-duplicado. Por oposição aos objetos que podem, tranquilamente, ser multiplicados ad infinitum, os sujeitos humanos, pela natureza peculiar da sua autoconsciência única e irrepetível, não admitem operações matemáticas desta natureza. É cada um a irredutível unidade quantitativo-qualitativa ínsita à sua natureza pessoal.
«(…) o pior de todos os ódios deve ser aquele que leva a não suportar a igualdade do outro, e provavelmente será ainda pior se essa igualdade vier a ser alguma vez absoluta» (p. 299). Qual será a correta interpretação desta afirmação? Num primeiro sentido, o indivíduo não suporta toda a tentativa de o diminuir à condição de assimilado, de um deus menor, de cópia cuja identidade só transparece pela referência a um outro. Trata-se, pois, da rebelião do sujeito, quando enclausurado na miséria da sua não-identidade. Num segundo sentido, o sujeito humano não suporta que o outro possa ser um seu semelhante e tanto mais o odeia quanto maior for a afirmação da igualdade valorativa do outro em relação a si mesmo. É, pois, a rebelião do sujeito face a todas as teorias da igualdade universal, do reconhecimento do outro como um alter-ego, um outro sujeito com a mesma dignidade. Suponho ser mais adequado o primeiro sentido, uma vez que a personagem a que se refere tal afirmação não parece assumir uma posição tão socialmente assimétrica e mesmo discriminatória em relação aos seus semelhantes.
Qualquer que seja a interpretação que se sustente, vale a pena ler esta grande obra da literatura portuguesa e, sem dúvida, da literatura universal.

Sem comentários:

Enviar um comentário