domingo, 29 de julho de 2012

«O sonho mais doce»


«O sonho mais doce»[1]. Uma extensa e profunda narrativa sobre os sonhos que conduziram a sociedade ocidental durante as décadas de 60, 70 e 80, até à sua derrocada. Rica em movimentos que pretendiam criar alternativas sociais e políticas ainda nunca devidamente ensaiadas, desde os hippies até à crença acrítica no comunismo tal como foi experimentado na União Soviética e na China, passando pela entrega a ideais religiosos, vinculados a experiências de solidariedade internacional, entre outros, o romance testemunha a ascensão e queda desses quadros de referência.
Podemos justamente perguntar-nos por que razão esses sonhos mais doces (talvez no plural a expressão seja mais condizente com a realidade) se desmoronaram a partir do final dos anos 80. É certo que alguns eram de tal modo inexequíveis, pelo menos no intervalo de tempo de uma geração, que a sua morte se anunciava no exato momento da sua criação. Mas outros ruíram fruto das suas próprias contradições. A queda dos regimes de economia planificada veio desmascarar a incoerência fundamental entre o discurso oficial e a prática totalitária e desumana, anos a fio ocultada e desmentida. Talvez este tenha sido o golpe mais notável nas utopias. Infelizmente, a verdade sobre o que se passava realmente para lá da cortina de ferro conduziu não apenas ao descrédito do marxismo (porventura injustamente), como ao descrédito de quase todas as grandes visões do mundo. Hoje parecemos não crer em coisa nenhuma! Vivemos sob a ação dos acontecimentos como uma folha sob os ventos de outono, submetidos a um exercício pragmático quotidiano sem nenhum horizonte que não seja o «aproveita e diverte-te», uma espécie de epicurismo de trazer por casa. (Desculpem o pessimismo sincero. Pode ser que esteja a exagerar. Deus queira que esteja a exagerar!)
As religiões, sobretudo aquelas com maior peso institucional, enquanto portadoras de uma visão global do mundo, também se ressentiram. O abandono é feroz. Cada vez acredito menos que a introdução das reformas necessárias possa trazer de volta os «vencidos do catolicismo». Também acho que a Igreja não deve reformar-se para recolher mais adeptos! As reformas devem ser implementadas na medida em que são justas, na medida da sua verdade interna, independentemente dos efeitos práticos sobre o número de crentes que as estatísticas evidenciarem. Também me parece mal que a Igreja se feche no seu reduto, fruto da convicção de que nenhuma reforma terá consequências pragmáticas imediatas.
A verdade é que os ideais, tal como foram amplamente partilhados pelas sociedades dos anos 60, não estão na ordem do dia. Somos os crentes dos «dados imediatos da consciência»; a ciência e a tecnologia são o novo ideário religioso; o pragmatismo superficial, que se não interroga sobre o sentido último da vida, corrói o dia a dia dos nossos contemporâneos. Será mal? É o que é. Pode ser certamente uma boa ocasião para os pregadores dos grandes sonhos da humanidade se interrogarem sobre as reais razões do seu próprio esboroamento no tecido social. E é possível que encontrem em si mesmos, não tanto naqueles que lhes viraram as costas, os motivos mais profundos da sua perda de influência. Poderá então ser uma boa ocasião para se repensarem a partir dos aspetos críticos que entretanto colheram das experiências do passado. Quem não aprende com a história não constrói o futuro e torna o presente uma mera repetição de estruturas já ensaiadas, mesclada com os erros que as condenaram ao exaurimento. E digo isto não apenas da Igreja Católica, mas também, por exemplo, das interpretações práticas do marxismo.
Todos temos a aprender uns com os outros. Não há nada pior do que a indiferença. Colhidos por ela, arrastamos o quotidiano sem aquele horizonte que pode tornar a vida muito mais do que uma mera sucessão de eventos. Acredito que tem de haver um sentido global para as coisas. Que há mais realidade do que o universo contingente em que habitamos. Que todos os grandes contributos da humanidade, desde a ciência às religiões, da tecnologia às conceções políticas e económicas humanistas, são tão doces como o sonho dos sonhos, cujos contornos não nos é dado desenhar claramente, mas intuímos. Oxalá nos estejamos a encaminhar para onde o futuro ainda seja possível e não para o abismo que criamos com a nossa indiferença individualista e inconsequente.


[1] Doris Lessing, O sonho mais doce, Editorial Presença, 2007. Doris Lessing foi Prémio Nobel da Literatura em 2007.

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