domingo, 22 de julho de 2012

O movimento profético

D. Pedro Casaldáliga, bispo e profeta da libertação



O movimento profético tem raízes profundas nas culturas antigas. Inicialmente associado a oráculos proferidos sob estados alterados de consciência, provocados por consumos de álcool ou drogas ou por doenças do foro psíquico, o profetismo bíblico evoluiu para outras manifestações mais consentâneas com a racionalidade dos discursos.
Apesar disso e paradoxalmente, o profetismo sempre foi considerado pelo poder religioso e político seu contemporâneo como uma fraude que urgia calar, dada a densidade crítica que as suas palavras continham. Houve naturalmente movimentos proféticos integrados no status quo, alinhados com o poder, que enunciavam discursos aprovados e estimulados pelas instituições. Eram os profetas do «regime». Mas de tais manifestações sobraram na Bíblia apenas alguns resquícios sem valor cultural e religioso. Tal profetismo estava automaticamente condenado ao esquecimento, por não respeitar um dos parâmetros essenciais deste tipo de manifestação religiosa: o seu não alinhamento em relação às estruturas de poder, legalmente constituídas, e a sua irritante liberdade, que não poupava as instituições.
Alguns dos maiores profetas eram até originários de famílias perfeitamente integradas em tais instituições. Jeremias, por exemplo, era filho de um sacerdote do Templo. Mas a forma destemida e ousada como assestavam críticas ao sistema abalava as estruturas de que eventualmente faziam parte. E estas empurravam-nos para as zonas limítrofes do sistema, transformando-os em outsiders e condenando-os à quase inevitável expulsão da ordem instituída. Constituíam uma carga demasiado pesada e os timoneiros de turno tinham medo de que as embarcações afundassem. Havia que alijar a carga. Eram, por isso, perseguidos, silenciados, exilados… No tempo de Jesus era proverbial o tratamento dado a estes homens corajosos: «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados!» (Lc 13, 34). Eram, de facto, uma pedra no sapato, um osso duro de roer!
A sua ação podia resumir-se a três vertentes: a denúncia dos males sociais, políticos, económicos e religiosos, o anúncio das suas consequências (castigo, condenação), bem como da ação misericordiosa de Deus que, apesar do demérito do povo, se compadecia de Israel e o libertava. A imagem de Deus que o profetismo transmitia correspondia, de certa maneira, à forma binária e simplista como tendemos a interpretar os acontecimentos (bem-mal): um Deus punitivo, mas misericordioso. E é nesta orientação que se inscreve também a mensagem de João Batista: «O machado já se encontra à raiz das árvores; por isso, toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Lc 3, 9); aquele que há de vir «tem na mão a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas queimará a palha num fogo inextinguível» (Lc 3, 17). Será, portanto, um Deus que recolhe no celeiro o trigo, mas queima a palha e arranca pela raiz a árvore que não der bom fruto. Jesus, que também se inscreve no movimento profético, não entende, porém, esta bipolaridade de Deus. A título de exemplo, basta lermos o texto que relata o anúncio inaugural de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 16-30) para percebermos não só que ele entende a sua missão no contexto do profetismo judaico, como também que ele centra a sua mensagem no poder libertário de Deus.
E é patente o incómodo que as palavras e os gestos de Jesus causaram às estruturas sociais do seu tempo. Afronta o poder político (Lc 13, 31-33; Mc 8, 15), o poder religioso (Mc 7, 1-13; Mt 23, 1-36) e o poder económico (Lc 6, 24s). A sua crítica é tão mordaz que lhe vale a condenação à morte e a execução infamante através do suplício da cruz. Era um marginal, como todos os profetas, e assim se manteve até à morte. Foi mais uma das muitas vítimas do poder, incapaz de conviver com a severa crítica de que era alvo.
E foi assim ao longo dos séculos. Muitos dos que foram torturados e barbaramente assassinados, sob as mais variadas acusações, incluindo as de heterodoxia ou heresia, poderiam facilmente incluir-se no movimento profético. Mas a delirante convicção de que uma dada estrutura possui a verdade gera a negação do outro e consequentemente a morte.
Ter-se-á esgotado o profetismo? Não creio. Apenas mudou de rosto. Adaptou-se aos tempos, mantendo, todavia, as mesmas características essenciais de irreverência, denúncia e desvinculação de todas as estruturas de poder.
O próprio Jesus se queixava de que os contemporâneos defensores da ordem instituída erguiam monumentos aos profetas, que haviam sido perseguidos pelos seus antepassados. A crítica é subtil, mas clara: no fundo, nada mudou, também no seu tempo os que erguiam monumentos aos antigos profetas (exatamente porque a sua mensagem fora assimilada, deixando de se tornar incómoda) continuavam a expulsar os profetas seus contemporâneos, porque intoleráveis aos seus finos e educados ouvidos. Na prática, a orientação fundamental era a mesma.
Só uma conversão profunda pode conduzir à inclusão de todas as vozes no universo religioso, político e social moderno. É a vitória da democracia pluralista sobre o obscurantismo particular e classista, intolerante e avesso a toda a crítica que pretende tornar as religiões, os movimentos políticos, sociais, culturais e económicos autenticamente humanos. Quem dera que ouvíssemos os profetas de hoje e não nos limitássemos a afeiçoar as doutrinas dos antigos aos nossos interesses.

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