domingo, 15 de julho de 2012

«...e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho»


Os textos bíblicos selecionados para a liturgia eucarística deste domingo são surpreendentemente rebeldes. Têm matéria suficiente para fazer refletir a Igreja institucional. Sobretudo o evangelho (Mc 6, 7-13), que narra o envio dos apóstolos a várias localidades da Palestina para anunciarem a Boa Nova da presença libertadora de Deus. Significativa é a maneira como os discípulos se deveriam apresentar, segundo indicações do próprio Jesus: que não se façam acompanhar de bens alimentares, dinheiro, roupas ou calçado sofisticado e suplementar; que levem apenas uma túnica, um par de sandálias e um bastão. E mais nada. O anúncio da Boa Nova da presença de Deus, requer deles que se abandonem à providência divina e aceitem apenas aquilo que as populações a quem são enviados lhes oferecem. Ou seja, são convocados a viver modestamente, sem mais do que aquilo que é estritamente essencial.
E como procede a Igreja enquanto instituição? Que bens acumula? Que riquezas alimentam uma organização altamente complexa que de modesta nada tem? Onde está aquela simplicidade vital que Jesus exigia a todos os que se punham ao serviço do anúncio da Boa Nova? Regressar ao evangelho não pode ser simplesmente interpretar espiritualmente aqueles textos que contêm uma carga crítica à organização eclesial, para que a Igreja possa viver de bem com a sua consciência, ao mesmo tempo que atraiçoa a letra do texto evangélico. Regressar ao evangelho tem de implicar uma revisão sem preconceitos das formas de atuação, das visões do mundo, das estruturas organizacionais… E é essa disponibilidade para pôr em causa o que se é, bem como o lixo que se foi acumulando ao longo de dois mil anos de ascensão política e económica que não se vislumbra no procedimento de muitos dos que ocupam altos cargos na hierarquia eclesial.
Neste sentido, um novo concílio seria urgente. Mas um concílio onde todos tivessem assento: também os leigos, também os críticos, também os grupos mais progressistas. Um concílio autenticamente democrático, no qual todas as vozes pudessem ser ouvidas, sem censura de espécie alguma. No qual o medo se não fizesse sentir. No qual a liberdade e a ousadia, em conjunto com a vontade de reformar o que deve ser reformado, em nome da força revolucionário do evangelho, fossem o valores centrais. De nada vale um concílio previamente controlado pela fação que há séculos se sentou na cadeira de Moisés (Mt 23, 2) e dali pretende controlar as consciências individuais e comunitárias do mundo dos crentes. Um tal concílio será apenas a confirmação do desastre que se anuncia, uma pura perda de tempo e de recursos. Ou vingará a liberdade ou a instituição definhará sobre o seu próprio cadáver. Em nome do evangelho, no qual acredito, espero que a sensatez tenha a última palavra.

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