segunda-feira, 4 de junho de 2012

A última semana de Jesus




Colin J. Humphreys, professor e diretor de investigação no Departamento de Ciências dos Materiais e Metalurgia da Universidade de Cambridge, tem-se dedicado, nos seus tempos de lazer, à investigação historiográfica de temática bíblica. O Mistério da Última Ceia é um excelente livro de pesquisa histórica, no qual aplica conhecimentos culturais extrabíblicos — como já o vinham fazendo muitos peritos em estudos bíblicos histórico-críticos —, mas também conhecimentos de astronomia que se revelaram fundamentais para perceber os calendários em uso no tempo de Jesus e as suas implicações nos relatos bíblicos, sobretudo nos que se referem aos últimos dias de Jesus.
A sua tese fundamental parece-me suficientemente sólida, tornando possível a compreensão da aparente contradição entre os dados dos evangelhos sinóticos — segundo os quais a Última Ceia foi uma refeição pascal que decorreu no primeiro dia dos Ázimos, quando se imolavam os cordeiros pascais — e os dados do evangelho de João — segundo o qual a Última Ceia ocorreu antes da festa de Páscoa e os cordeiros só começaram a ser sacrificados no momento da crucificação.
A tese do autor é a seguinte: os sinóticos usaram o calendário pré-exílico que remontava a Moisés e a um calendário lunar egípcio, enquanto João usou o calendário oficial judaico, com origem no calendário babilónico assumido pelo judaísmo oficial durante a deportação que sucedeu no século VI a.C. Assim sendo, não há contradição entre as duas cronologias, mas apenas o uso de dois calendários distintos. Jesus terá celebrado a ceia pascal no dia 14 de nisan (ou abib), de acordo com os cálculos realizados no âmbito do antigo calendário hebraico, o que terá ocorrido na quarta-feira (e não na quinta-feira, como é costume pensar-se), dia 1 de abril do ano 33, e foi crucificado na sexta-feira, dia 3 de abril do ano 33. Os julgamentos a que Jesus foi submetido bem como a sua legalidade, do ponto de vista da literatura rabínica contemporânea, tornam-se muitíssimo mais plausíveis do que seriam se a Última Ceia tivesse ocorrido na quinta-feira à noite e Jesus tivesse sido crucificado na sexta. E a ajuda preciosa dos dados astronómicos dão nova luz sobre a cronologia da última semana, e sobre os calendários em uso.
No entanto, já não sou tão otimista quanto ao método que o autor seguiu para descrever todos os eventos. De facto, conduzido pela vontade de atribuir densidade factual a todas as narrativas evangélicas, faz uma leitura «concordista», hoje amplamente desacreditada. Utiliza, assim, acriticamente os dados dos quatro evangelhos e preenche as lacunas de cada um com os acontecimentos narrados nos outros, sem se questionar sobre o significado da não concordância que essas lacunas evidenciam. Sabemos hoje, por exemplo, que os grandes discursos de Jesus (como o da Última Ceia) no evangelho de João não podem ter sido proferidos pelo Jesus histórico, porque se afastam inconciliavelmente do estilo e dos jogos de língua de que Jesus se socorria nas suas formulações. Em suma, os extensos e intricados discursos joaninos nada têm que ver com a forma lapidar, concisa e imagética do Jesus sinótico. Ora, Humphreys não faz as devidas distinções. E tal atitude pode tornar menos credíveis as restantes teses do seu livro. Vale, contudo, a pena ler com atenção as suas propostas, que muito ganharam com a formação científica do autor.

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