sábado, 2 de junho de 2012

O deserto da solidão mortal




Já há muito tempo que não ouvia uma conferência tão interessante, tão profunda e tão formalmente eficaz. Foi ontem, no Instituto dos Pupilos do Exército, por ocasião da comemoração do Ecodia. O orador foi o Professor Doutor Jorge Paiva, biólogo da Universidade de Coimbra, um comunicador absolutamente de exceção, que apesar dos seus quase 80 anos exibe uma vitalidade invejável. O tema da conferência foi «A importância da biodiversidade».
Vivemos todos numa gaiola, da qual não podemos emigrar. Se a deteriorarmos, aumentando desmesuradamente o lixo produzido, condenamos a nossa espécie à extinção. Outras espécies têm sofrido os efeitos nefastos da nossa imbecilidade e, sobretudo, da nossa avidez; mas nós temos o nosso destino dependente de altos níveis de biodiversidade. O empobrecimento biológico é a nossa certidão de óbito. De facto, a espécie humana só apareceu na Terra quando altos níveis de biodiversidade se haviam produzido na biosfera. Não sobrevivemos em ambientes com baixos níveis de biodiversidade. Precisamos da exuberância da vida para podermos perdurar. Mas em vez de tratarmos das outras espécies como elementos essenciais ao futuro da humanidade, reduzimo-las a objetos da nossa cobiça económica e financeira. E comprometemos estupidamente o futuro da humanidade.
O triunfo do capitalismo coincide também com a decadência biológica da Terra e, consequentemente, da humanidade que dela depende. Infelizmente, quem domina o mundo é o capital financeiro internacional. Seu único objetivo: o lucro. Seu único meio: a transformação de todos os recursos naturais em matéria comercializável. E é assim que as florestas são varridas pela ambição financeira das grandes multinacionais, sem sequer pensarem que a nossa sobrevivência depende do trabalho paciente e constante das árvores no processo de reciclagem do ambiente, consumindo o veneno que a civilização tecnológica vomita e exalando para a atmosfera o oxigénio de que tanto necessitamos. Contudo, ao ritmo a que corrompemos a atmosfera e dizimamos as florestas, não permitimos que os sistemas naturais de reciclagem da atmosfera ocorram, por forma a criar condições de habitabilidade humana. Queixamo-nos do aumento desmesurado de doenças respiratórias ou de doenças alérgicas. Como poderia ser diferente se adulterámos a composição do ar que respiramos e do qual depende a nossa vida?
Tal como a cobiça, a ignorância é o outro grande inimigo do ser humano. Se a raposa ou o lobo nos devoram os rebanhos, dizimamo-los. Se a águia nos devora os pintos, abatemo-la. Não só ficamos mais pobres, porque mais sozinhos no mundo, como, sobretudo, criamos condições para a proliferação de pragas de outros animais que eram também presas dos que tiveram o azar de incomodar a nossa existência paroquial. Temos vistas estreitas; observamos apenas o horizonte do nosso quintal. Se não alargarmos o horizonte da nossa observação, morreremos atolados na miséria da nossa ignorância, na solidão da nossa estupidez.
O desaparecimento de certas espécies vegetais por ação do ser humano — por serem venenosas ou simplesmente por não constituírem fonte de lucro económico — revela-se catastrófico. Em alguns casos paradigmáticos, estudos farmacológicos posteriores revelaram que a composição dessas espécies poderia ser usada para fins medicinais. E a espécie é salva do abismo onde se encontrava por ação da ignorância humana. Percebemos então que se não salvarmos as espécies em risco, não nos poderão ser úteis quando novos desenvolvimentos científicos vierem mostrar a sua importância para a saúde e o bem-estar da vida humana. Neste caso, depois de casa arrombada, de nada vale pôr trancas na porta!
É verdade que a biodiversidade é também esteticamente relevante. Em quem tenha um mínimo de sensibilidade, uma paisagem natural provoca admiração e espanto. Somos conquistados pelos sentimentos de beleza e sublimidade, perante a perfeição das formas, das cores, ou a graciosidade do voo das aves. Mas essencialmente a biodiversidade é condição de possibilidade da sobrevivência da espécie humana. Se nos esquecermos disto e perpetuarmos o processo autofágico que o capitalismo inaugurou, não teremos futuro.
E por fim, se não dermos ouvidos aos mais avisados, aos mais sensatos de entre nós, havemos de definhar sob a avalanche da nossa ignorância e da nossa vontade voraz de tudo consumir, deixando à nossa passagem o restolho desértico da solidão mortal.

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