domingo, 17 de junho de 2012

Interpretações exclusivas e inclusivas da salvação

Parábola do bom samaritano


Desde o início que o cristianismo se confronta com um paradoxo. Por um lado, anuncia e crê no amor absoluto e incondicional de Deus e na sua consequente vontade salvífica universal. Por outro, assume a pretensão de ser a única e autêntica via de salvação, parecendo condenar uma considerável fatia da humanidade à noite eterna.
E estas duas vertentes têm raízes no Novo Testamento. São muitas as afirmações relativas à vontade solícita e amorosa de Deus que orienta a sua ação para a salvação universal. Sobretudo, a pregação do Jesus histórico é testemunho claro desta perspetiva, rompendo com antigas conceções de Deus que o tornavam refém de grupos específicos, no interior do povo judeu, ou de Israel, no contexto da humanidade multinacional e multiétnica. Talvez as parábolas do publicano e do fariseu (Lc 18, 9-13), do filho pródigo (Lc 15, 11-32) e, sobretudo, do bom samaritano (Lc 10, 29-37), sejam as mais surpreendentes e radicais afirmações dessa vontade infinitamente misericordiosa de Deus, que não conhece limites de qualquer espécie. Nesta última é mesmo surpreendente que seja louvado um estrangeiro, um homem de outro universo religioso e que se lhe não exija nenhuma conversão à «verdadeira» religião para obter a salvação[1]. A sua atuação é suficiente para o integrar na dinâmica amorosa de Deus. Jesus parece, portanto, privilegiar a ortopraxia (um comportamento movido por valores éticos e pela identificação com Deus, enquanto amor universal) em detrimento da ortodoxia (a fé entendida como declaração de um conjunto de verdades em que se acredita) ou a ação especificamente religiosa (a oração, a liturgia)[2]. Seremos julgados não por aquilo em que cremos intelectualmente, mas pelas nossas ações e pelos valores que as sustentam[3]. É, no entanto, claro que, para Jesus, a fé como atitude de radical confiança em Deus, entrega nas mãos da misericórdia absoluta, é momento essencial para a conversão do que somos e, consequentemente, do que fazemos.
Neste contexto, é crucial a leitura de Mt 25, 31-46, parábola em que se narra simbolicamente o juízo final. Diante do Grande Juiz, comparecem todos os povos da Terra. E as pessoas são separadas umas das outras. De acordo com os nossos critérios muito dependentes da ideia de adesão a uma religião ou a uma comunidade de fé como condição de salvação, o critério da separação teria certamente em conta esse dado essencial. Não há, todavia, o mais pequeno sinal de a pertença a um povo, uma religião, uma comunidade de fé, uma conceção ortodoxa do conteúdo religioso ser minimamente tido em consideração pelo Grande Juiz neste momento decisivo. Em vez disso, o único critério relevante é o comportamento do indivíduo em relação aos outros, a sua ação fraterna e solidária, o investimento no bem-estar e na felicidade dos seus irmãos em humanidade. E mais não é dito! Deus identifica-se surpreendentemente com o que sofre, com o indigente, com o ser humano infeliz, marginalizado e excluído. Dignificar a vida destas pessoas é também um ato religioso: amar a Deus que se identifica com cada pessoa que partilha connosco a aventura da vida.
Por outro lado, há referências no Novo Testamento que fazem depender a salvação da em Jesus Cristo, o Filho de Deus (são, evidentemente, afirmações posteriores à morte de Jesus, realizadas pelas comunidades cristãs e não pelo Jesus histórico). O Evangelho de João, o último a ser concluído, ostenta uma série de declarações nesse sentido. A título de exemplo: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho unigénito de Deus» (Jo 3, 17s)[4]. Não se trata, pois, da mera — mas nem por isso menos fundamental — declaração de que a adesão confiante e prática a Jesus e ao seu universo de valores é caminho de salvação. Pretende-se, pelo contrário, afirmar que a ausência de fé em Jesus, o Filho de Deus, arrasta o indivíduo para o abismo da condenação sem retorno. É claro que o contexto em que tais palavras são proferidas reflete o confronto direto do ouvinte com o anúncio da Boa Nova que Jesus (e, sobretudo, a comunidade primitiva) anunciou. Não estão em causa situações de pertença a outras religiões ou o simples desconhecimento da existência de Jesus. Contudo, são afirmações demasiado radicais, que vão muito para lá daquilo que foi a proposta do Jesus histórico e vêm consolidar a crença na superioridade do cristianismo e na ideia de que a adesão à comunidade cristã é condição essencial para a salvação.
S. Paulo, no seu texto mais estruturado que é a Carta aos Romanos, afirma: «Eu não me envergonho do Evangelho, pois ele é poder de Deus para a salvação de todo o crente, primeiro o judeu e depois o grego. Pois nele a justiça de Deus revela-se através da fé, para a fé, conforme está escrito: O justo viverá da fé» (Rm 1, 16s). É, portanto, o Evangelho — ou seja, Cristo — e a fé, como adesão ao Evangelho, que estão no centro do processo de salvação de todo o ser humano. Também é suficientemente claro que por «fé» Paulo não entende apenas a adesão exterior ao cristianismo, mantendo-se a pessoa interiormente ligada a um universo de valores que orientam o seu agir por caminhos ínvios, nos quais prospera a injustiça, a maldade, etc. Para Paulo, fé e obras constituem duas faces da mesma moeda[5].
Na conceção de Paulo, tanto os judeus como os gregos estão à partida condenados, porque nenhum se pode honestamente colocar perante Deus como um justo merecedor da vida eterna. E este juízo é obviamente extensivo a todo o ser humano. E assim sendo, estará a humanidade condenada sem apelo nem agravo, ou haverá outra fonte em que possa confiar, da qual poderá jorrar a salvação? Paulo acha que, do ponto de vista objetivo, a morte de Cristo (o Evangelho) é a única fonte a partir da qual é possível esperar salvação, e do ponto de vista subjetivo, a fé no Evangelho é o único acesso à salvação[6]. A graça de Deus, oferecida por meio de Cristo, há de ser estendida a todos os que nela confiarem pela fé, seja qual for a sua proveniência[7].
Muito para lá daquilo que Paulo sustenta, há um conjunto de outras afirmações do Novo Testamento que testemunham uma visão intransigente do cristianismo, que não admite concessões. Num discurso perante os chefes judeus, Pedro defende, sem rodeios, que «não há salvação em nenhum outro [a não ser no nome de Jesus de Nazaré], pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar» (At 4, 12). Também a tardia Carta a Timóteo (atribuída a Paulo) exprime este exclusivismo cristão: «Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem: Cristo Jesus, que se entregou a si mesmo como resgate por todos» (1Tm 2, 5-6), não sem antes haver afirmado a vontade de Deus em salvar toda a humanidade[8].
Resumindo, a comunidade cristã primitiva oscila entre a certeza de que Deus, por força do seu amor incondicional, quer a salvação de toda a humanidade e a afirmação exclusivista de que só se pode salvar quem acolher o Evangelho de Cristo e acreditar que ele é o Filho de Deus, ainda que tal fé não tenha apenas uma dimensão cognitivo-intelectual, mas também pragmática. E há uma diferença fundamental entre as duas: enquanto a primeira asserção tem base na própria visão e pregação do Jesus histórico, a segunda desenvolveu-se inteiramente no espaço histórico das primeiras comunidades cristãs.
Por influência das declarações mais exclusivistas do Novo Testamento, a história do cristianismo tem refletido uma visão da salvação restritivamente cristocêntrica: nenhuma redenção é possível senão por meio de Cristo, sendo, portanto, exigida a fé cristã específica. Mas tal perspetiva parece comprometer a ideia de um Deus infinitamente misericordioso que deseja a salvação de todos. De facto, aplicando à letra a asserção cristocêntrica, muitos permaneceriam fora do círculo da vida: os membros de outras religiões, bem como os que não têm qualquer religião, ainda que procurem viver sinceramente de acordo com os valores que a própria consciência reconhece como autênticos.
E é assim que alguns teólogos propuseram uma visão menos restritiva, embora igualmente cristocêntrica. A ação salvífica de Cristo estender-se-ia não apenas a quem acredita explicitamente que ele é o Filho de Deus e vive em consonância com tal fé, mas também a todos os que procuram sinceramente o caminho do bem, acolhendo a Cristo sem disso terem consciência. Rahner chamou-lhes «cristãos anónimos». Mas esta solução tem como consequência um certo esvaziamento da fé, uma vez que esta deixa de corresponder a um ato explícito e consciente, para pertencer ao mundo nebuloso do inconsciente humano. E que dizer de quem recusa liminarmente ser cristão apesar de corresponder ao perfil traçado para o suposto cristão anónimo? Não se manifestará em tal atitude uma certa arrogância cristã por se achar a única detentora da verdade? Decerto que muitos ateus e agnósticos convictos não se conformam com o epíteto que os bem-intencionados teólogos lhes pretendem apor, por forma a dar conta da infinita bondade de Deus.
Um outro grupo de teólogos considera que tal posição cristocêntrica deriva de uma intolerável ideia de superioridade do cristianismo. Só uma visão teocêntrica poderia assumir plenamente as consequências da vontade salvífica universal de Deus, por força do seu amor absoluto. Toda a salvação vem de Deus e é a fé em Deus (não apenas em sentido cognitivo-intelectual) que inclui o ser humano na dinâmica redentora. Todas as religiões são aproximações à verdade absoluta que é Deus, mas nenhuma delas se identifica com tal verdade. Semelhante posição torna cada religião mais tolerante em relação às demais, abre a possibilidade de um diálogo autêntico, sem preconceitos e resultados pré-fixados. Nesta perspetiva, Cristo é o caminho, a verdade e a vida para todos os que nele acreditam e nele colocam a sua esperança, mas Deus escolhe outros caminhos igualmente válidos para outros povos e culturas.
Esta posição tem a óbvia vantagem de incluir na dinâmica de salvação todos os que creem no mistério absoluto que tudo envolve, independentemente do nome que os crentes lhe atribuírem e da configuração que tiver no seu universo de valores. Contudo, numa visão tão estritamente religiosa, ficam excluídos os agnósticos e ateus, uma vez que recusam aberta e conscientemente a existência e a ação de um mistério transcendente, qualquer que seja a sua configuração.
Hans Küng — um dos maiores teólogos da segunda metade do século XX —, mantendo as coordenadas centrais do cristianismo (a vontade de salvação universal de Deus; o seu amor incondicional; a necessidade da fé como adesão a um projeto de salvação), veio propor uma solução alternativa que melhor respondesse aos desafios já descritos. Se há salvação para o ser humano, enquanto indivíduo e enquanto membro de uma comunidade humana, só pode ter origem em Deus. Neste sentido, toda a salvação é teocêntrica. Apesar disso, enquanto ser inteligente e livre, o ser humano não pode ser constrangido a acolher esta dinâmica redentora. Exatamente por ser livre, pode escolher a própria condenação. Mas fazê-lo não significa, de modo algum, optar por não ter qualquer religião ou negar a existência de um Deus. Confundir as duas situações não faz qualquer espécie de sentido. O ateu acredita que a sua cosmovisão se aproxima mais da verdade do que a que é defendida por um crente num ser transcendente ou, de um modo mais geral, por um homem religioso. Embora crer que se está mais perto da verdade não nos coloque automaticamente nessa posição, dados os limites evidentes do conhecimento humano, o sistema de crenças adotado com sinceridade por cada indivíduo aproxima-o, pelo menos, da verdade subjetiva, isto é, da verdade tal como a equacionamos em termos pessoais. E isto é suficiente para justificar subjetivamente — do ponto da vista da consciência moral — a opção escolhida.
Se existir um Deus, ele é a origem de toda a salvação, independentemente das crenças, certamente imperfeitas, perfilhadas pelos indivíduos. Mas S. Paulo defende que a salvação também depende de uma atitude: a fé, a aceitação incondicional do amor absoluto de Deus. Dado que lidamos com seres livres e autónomos, a salvação não pode ser um destino automático que dependa apenas da vontade de Deus. Tem de depender igualmente do assentimento humano. Estará então excluído todo o indivíduo que não aceite Cristo como o único mediador da salvação? De acordo com este teólogo, a resposta é negativa. É verdade que, para os cristãos, Cristo é o único caminho, verdade e vida, a única via de salvação. Mas tal conceção só se aplica a quem aderiu a Cristo e ao seu universo de valores. Para todos os outros, Deus interveio na história da sua cultura de muitos modos e por diversas vezes ao longo dos séculos. Há, pois, tantos caminhos como visões do mundo que atribuem sentido à existência humana e ao universo, ou seja, que atribuem sentido à realidade. Por isso, o derradeiro objeto da fé confiante do ser humano não é Deus, tal como a tradição religiosa o configurou, mas a realidade total, ao dinamismo da qual o ser humano atribui sentido. Crer que a realidade não é absurda — um não sentido —, aderir ao convite da vida para participar nos dons que estão à nossa disposição é aceitar que, no mundo, há salvação, contra todo o desespero e sofrimento. É no tecido do real que todo o indivíduo e comunidade se salvam, por força da própria realidade que deu existência a cada ser e na qual cada ser tem o seu destino. E neste sentido será de menor importância se se crê que o destino do ser humano é integrar-se no ciclo da vida — no qual nada se perde e tudo se transforma — ou numa vida maior, que possa recriar, num horizonte absoluto, todas as possibilidades futuras. Seja como for, tudo o que existe se inscreve num sentido. Crer nisso é já abraçar a fé (na razoabilidade do universo e da existência humana) e nessa fé receber a existência pessoal e coletiva como um dom incalculável, que nos desperta gratidão e esperança.
No que me diz respeito, assumo as propostas de Hans Küng como autenticamente humanas e rejeito as propostas mais restritivas, fundadas na pretensão do cristianismo a ser a verdade e não apenas uma aproximação à verdade — ainda que a melhor para todos os que a abraçaram. Gostaria de concluir regressando ao início: a visão do mundo que o Jesus histórico pregou. É sabido que ele não se anunciou a si mesmo — o conteúdo central da sua pregação não era a sua própria pessoa — mas ao reino de Deus — à sua soberania bondosa e clemente em ação no mundo e no coração de cada ser humano. E como Deus não se impõe, de outro modo não respeitaria a liberdade humana (veja-se a parábola do filho pródigo), a dinâmica do reino só acontece quando o ser humano se dispõe a acolhê-la, ou seja, a entregar-se confiadamente nas mãos da bondade absoluta de Deus. Contudo, tal atitude não depende da adesão a uma religião concreta, a um credo específico, a um conjunto de formulações como as que encontramos no Catecismo da Igreja Católica, a rituais religiosos concretos ou a instituições, por mais sagradas que sejam, depende apenas da disposição do indivíduo para acolher e ativar a bondade e o amor, a fraternidade e a justiça, a verdade e a comunhão. Tais valores são aquilo a que Jesus chamava vontade de Deus, numa formulação especificamente religiosa. Nesta perspetiva percebe-se por que razão, na parábola de Mt 25 sobre o juízo final, todos, independentemente das suas origens e ideologias, são julgados apenas pela assunção e prática destes valores; e percebe-se igualmente como é que um Deus absolutamente bom não condena ao abismo absurdo da morte por aplicação direta de critérios de pertença religiosa ou ideológica. Que a Igreja primitiva se sentisse na necessidade de afirmar a excelência de Cristo também não é de admirar. Tinham vivido a experiência do encontro com aquele homem excecional, que entregou a própria vida em nome de um ideal profundamente humano e simultaneamente divino. Ninguém que se tenha deixado tocar pela personalidade deste profeta da Galileia e pela sua mensagem pode permanecer indiferente ao seu apelo. Mas tal não significa excluir do amor universal de Deus aqueles que não o fazem através de uma adesão explícita à comunidade que reivindica para si a autêntica interpretação da mensagem cristã.


[1] Cf. também Mt 8, 5-13; 15, 21-28.
[2] Cf. Lc 13, 10-17; Mt 7, 21-23.
[3] Cf. Lc 6, 20-22 em contraste com 6, 24-25; 6, 27-38.
[4] Cf. também Jo 3, 36; 6, 53; 8, 24; 14, 6.
[5] Cf. Rm 2, 5-11.
[6] Cf. Rm 3, 21ss.
[7] Cf. Rm 5, 15ss.
[8] Cf. 1Tm 2, 4.

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