segunda-feira, 25 de junho de 2012

«A douta ignorância»




Nicolau de Cusa foi um eminente humanista que defendeu durante toda a sua vida a paz e a concórdia entre os povos, a tolerância religiosa e a unidade no tecido do cristianismo, rasgado pela incompreensão mútua entre Igreja oriental (ortodoxa) e Igreja ocidental (católica-romana). Nasceu em Cusa, na Alemanha, em 1401, e morreu em Itália em 1464. Defendeu inicialmente as ideias conciliaristas, estabelecidas pelo Concílio de Constança (1414-1418), segundo as quais o concílio é a autoridade suprema da Igreja, acima do papa, devendo este submeter-se às suas prescrições, mesmo quando se oponham à posição de um papa. Mais tarde, empenhado na construção teológico-prática da unidade da Igreja, aderiu à posição dominante, segundo a qual o papa é a autoridade máxima na Igreja e as suas posições não necessitam de ser confirmadas por nenhum concílio. Na luta pelo poder, venceu a perspetiva monárquica absoluta, cujas sequelas se fazem sentir ainda hoje na Igreja católica-romana. E assim Nicolau pôde ascender ao episcopado e ao cardinalato.
Apesar disso, foi um exímio pensador. A sua obra filosófica é ainda hoje amplamente estudada e apreciada, pela sagacidade das suas afirmações, a inteligência das suas propostas e a forma sistemática como aborda os vários temas. Em linha com as práticas do humanismo, dedica-se também a investigações matemáticas, cosmológicas, hermenêuticas, teológicas, etc. Enfim, o ideal do sábio converge neste homem tão inteligente quanto empenhado na construção do mundo que o rodeia.
«A Douta Ignorância», publicada em 1440, é a sua obra-prima, um clássico que vale a pena revisitar, exatamente porque resiste à passagem do tempo.
Apesar da propensão do autor para o pensamento especulativo — ou talvez por isso mesmo — ele inscreve o seu pensamento naquilo que se convencionou chamar a teologia negativa, de matriz mística. Na multiplicidade de perspetivas teológicas é possível destacar duas tendências gerais. A primeira deduz as suas reflexões a partir da noção de Deus enquanto mistério absoluto e inacessível ao pensamento humano. Daí decorre que de Deus se conhece muito pouco e aquilo que se conhece é imperfeito e provisório. A melhor via para dizer o que Deus é consiste, pois, em negar que ele seja qualquer dos objetos ou ideias que pululam o efémero conhecimento humano. Estamos mais próximos da verdade quando afirmamos o que Deus não é do que quando pretendemos clarificar o que ele é. É esta a essência da teologia negativa, claramente de matriz mística, pois o acesso a Deus é realizado por via da experiência espiritual-relacional e não tanto da especulação positiva sobre a sua essência.
Nos antípodas desta visão, a teologia «positiva» reforça a ideia de que Deus se revelou e, enquanto tal, se tornou acessível ao conhecimento humano. A forma mais radical deste pensamento encerra a natureza de Deus num conjunto de fórmulas, impostas à totalidade da Igreja, visando desvendar o mistério de Deus. Esta teologia, de origem helenística, é ainda hoje um dos principais óbices ao reconhecimento da relevância da diversidade, bem como da importância da investigação teológica, uma vez que considera acabado o processo de clarificação teológica quando uma dada expressão de fé é elevada a dogma.

Para Nicolau de Cusa, Deus é o Uno, a unidade total da realidade. Deus encontra-se em cada objeto, como suporte da sua existência, uma vez que, sem ele, tudo haveria de se despenhar no nada. É assim que tudo quanto existe só pode existir em Deus.
Nele ocorre a coincidência dos opostos — conceito fundamental do pensamento do autor. Sendo Uno, está no plural; é simultaneamente o ser e o nada, o máximo e o mínimo… Esta ideia genial terá repercussões claras no idealismo alemão do século XIX, sobretudo em Hegel.
Deus está para lá de toda a capacidade humana de o compreender. Só a douta ignorância é método capaz de abordar a questão de Deus, pois nenhum ser humano pode apreender uma vez por todas a verdade total. Trata-se de um processo sem fim, feito de aproximações e recuos.
Mas Deus distingue-se dos objetos do mundo. De facto, as coisas podem comparar-se, são mutuamente proporcionais. Deus, pelo contrário, é incomparável, é desproporcional. A sua natureza é inteiramente diversa de tudo quanto existe no mundo. Deus não é o universo elevado ao infinito, pois a sua infinitude não é mais nem menos do que o mundo material. É essencialmente diferente de tudo quanto existe. «Na verdade, assim como é tudo, é também nada de tudo» (§43).
Nicolau de Cusa desenvolve uma subtil e profunda especulação na qual utiliza objetos matemáticos (linha infinita, triângulo infinito, círculo e esfera infinitos…) como metáforas de Deus.
No essencial, o seu pensamento inscreve-se numa filosofia da identidade (monismo), na qual toda a diversidade e alteridade são subsumidas na unidade absoluta de Deus, ainda que a sua natureza seja incompreensível, inefável e inominável. Talvez o nome que melhor se aplique a ele seja o Uno-Tudo, a unidade de tudo quanto existe.
Deus é, portanto, todas as coisas. As arrojadas afirmações do autor, como a que acabámos de referir, roçam o panteísmo. Disso foi acusado em vida. Mas soube defender-se de forma inteligente. De facto, se o panteísmo é a afirmação de que Deus se identifica com a totalidade do mundo e nele se esgota, o nosso filósofo está longe de ser panteísta, pois para ele Deus está em tudo, como o princípio que garante a sua existência, e tudo está em Deus, uma vez que Deus é a totalidade da realidade, mas Deus é mais do que o universo com todos os seus objetos. A sua exuberância ontológica fá-lo ser infinitamente mais do que o universo material; a sua abundância simples e simultaneamente complexa transborda para lá das fronteiras do universo.
À pergunta se Deus poderia não ter criado o universo, o nosso filósofo sustenta que a criação deriva de uma necessidade absoluta da natureza de Deus. As coisas são, portanto, contingentes, não têm em si a razão da sua própria existência, mas, do ponto de vista de Deus, são uma necessidade, porque tudo em Deus é necessidade (e ao mesmo tempo liberdade!). As coisas vivem no ser de Deus, sem deixarem de ser contingentes; são, por isso, infinutides finitas.
O problema está em perceber como é que da unidade absoluta originária deriva a pluralidade que o universo exibe. Este é um dos pontos que obriga Nicolau a colocar em ação o conceito de douta ignorância: a dedução da pluralidade a partir da unidade absoluta não é humanamente compreensível dada a incapacidade do intelecto humano.
Se o universo é também uma infinitude é contudo a infinitude contraída, uma espécie de contração de Deus. É a mediação entre Deus e as coisas singulares, a forma de presença de Deus em cada uma. O universo é a unidade das coisas que são plurais. Da unidade absoluta que é Deus deriva a unidade do universo, da qual deriva a unidade na pluralidade de cada objeto.
E é interessante verificar como Nicolau de Cusa deduz do seu sistema filosófico a necessidade de a Terra se mover (§ 162), muito antes de Galileu o ter feito. Deus é o centro de tudo quanto existe e a circunferência que tudo envolve; por conseguinte, a Terra também tem de se mover em torno deste centro absoluto que é Deus. Nenhum astro se pode mover em círculos perfeitos (ideia que contraria a posição dominante na época), uma vez que só Deus é a perfeição. Curiosamente, o nosso filósofo introduz aqui também a noção de relatividade do movimento. E tal como o movimento da Terra, também a sua esfericidade não pode ser perfeita, porque só Deus o é.
Deus é, portanto, o autor, o princípio e o fim de todas as coisas, a verdade de tudo quanto existe. Em suma, «Ele é tudo» (§ 179). Mostra-se através do mundo e no mundo. Ele é a razão e a causa de tudo. E se Deus é a razão última, encontrar-se a si mesmo é achar-se em Deus, a única resposta total para a sede humana de plenitude.

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