sábado, 9 de junho de 2012

Angustiar-se com o passado: um absurdo recorrente




Por que razão nos angustiamos com o que já não é possível modificar? O meu primeiro impulso é negar qualquer sentido a tal atitude. A tomada de consciência do absurdo da nossa preocupação em relação a factos do passado, cuja alteração nos está vedada por impossibilidade temporal, há de ajudar-nos a minorar os seus efeitos destrutivos, mas não será suficiente, pelo menos em muitos casos, para nos abrigar de toda a inquietação e ansiedade.
O absurdo da situação é, contudo, patente. Vale a pena orientarmos a nossa atenção em direção aos desafios que o futuro nos reserva, mas é totalmente desprovido de sentido que o façamos em relação ao passado imóvel e inalterável. Inscritos indelevelmente nos acontecimentos que marcam o tempo, as nossas ações, as nossas vitórias, os nossos fracassos concluídos não poderão ser reformatados por obra da nossa vontade presente. É, portanto, totalmente irrelevante que nos preocupemos com as sombras que nos assaltam a memória. Além disso, toda a inquietude e angústia devastam o sujeito e eliminam o potencial de energia de que precisa para fazer face às vicissitudes atuais, bem como aos reptos que o futuro lhe lança.
A excessiva concentração do indivíduo sobre o seu passado incapacita-o para a construção da sua existência no mundo concreto em que habita, aqui e agora. É, pois, uma doença de que deve libertar-se.
E, todavia, o que somos hoje resulta da história que diretamente vivemos ou indiretamente assumimos como nossa. É esse o grande drama de uma existência permanentemente com construção: somos liberdades que se autodeterminam, mas no pano de fundo de um ser que jamais parte do grau zero. Cada instante é uma promessa e uma herança. E se a promessa é um pórtico aberto sobre o amanhã, não tem lugar senão no terreno movediço das opções que ontem legámos a nós mesmos. Cada dia fazemos as contas com a nossa pequenez, com a clivagem entre o que sonhamos e o que efetivamente conseguimos realizar. É essa indigência de que somos feitos que tendemos a sufocar, sob o impulso da vontade de recriar o mundo em cada momento, como se fosse possível excluir da nossa identidade a incomodidade do passado. Talvez por isso nos angustiemos com a história pessoal. Quer amemos os seus contornos difusos, quer os reneguemos, somos essa mistura cinzenta, ocultando a verdade sempre para lá de toda a concretização.
Tomar consciência disso mesmo dar-nos-á ânimo para prosseguirmos o conturbado caminho da vida.

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