terça-feira, 1 de maio de 2012

Superstição e sentimento religioso: identidade ou distinção?




Superstição e sentimento religioso são amiúde confundidos pelos detratores do fenómeno religioso. Creio, no entanto, que se trata de duas realidades bem distintas, apesar de a história das religiões se ter encarregado de confundir os dois planos.
Já os antigos diziam que o ponto de partida de qualquer investigação, diálogo ou discurso sensato é a definição dos termos-chave. Não vale a pena investirmos a nossa paixão e o nosso poder argumentativo antes de havermos clarificado os conceitos essenciais a que nos referimos, sob pena de alimentarmos polémicas inúteis ou de contribuirmos, mesmo que sem disso tenhamos consciência, para a confusão e o obscurecimento da realidade que pretendemos explicar. É, pois, forçoso que definamos «superstição» e «religião», uma vez que desta distinção (ou identificação) decorre todo o discurso subsequente.
Tendemos a ver superstição em manifestações individuais arreigadas no espírito humano desde tempos remotíssimos, provavelmente fruto do medo de todos os imponderáveis que provocam um destino alheio à responsabilidade e liberdade humanas. Mas há igualmente fenómenos de superstição nas religiões estruturadas. A par com grandes edifícios teológicos racionalmente sustentados, dos quais a «Cidade de Deus» de Agostinho de Hipona ou a «Suma Teológica» de Tomás de Aquino — só para citar duas obras incontestáveis que a tradição nos legou — são testemunhos evidentes, o cristianismo perseguiu e condenou mulheres que tinham supostamente poderes demoníacos ou que, por meio da manipulação de determinados rituais, seriam capazes de alterar o curso da vida. Se, por um lado, a Igreja ao condená-las sustentava a proibição ética e jurídica de tais práticas, por outro, aceitava como certos os efeitos de tais «bruxarias», acolhendo, assim, a superstição no seu sistema de crenças. E foi provavelmente este último facto que tantas vítimas fez e tanto mal provocou à vida da própria Igreja.
A maneira como agimos está indelevelmente ligada ao sistema de crenças que perfilhamos. A despeito do racionalismo mais radical, provavelmente não seremos capazes de eliminar todas as crenças, porque a mera racionalização do mundo da vida não é suficiente para cobrir a totalidade de situações que constituem a existência humana. Toda a ação é resultado de um misto de racionalidade e confiança (fé, crença). Quando atravesso a rua, acredito que os automobilistas vão conduzir os seus carros pelas estradas e não pelos passeios, vão parar nos sinais vermelhos, etc. Descanso, portanto, não apenas na racionalidade das regras que a sociedade impôs, mas, em última instância, na crença de que todos as vamos cumprir (infelizmente, às vezes enganamo-nos). A crença, desde que justificada, é tão humana como a estrutura racional da mente. Por isso, a possibilidade de eliminarmos toda a fé é, ela própria, uma crença, ainda que não justificada. O que fazer então? A solução parece-me estar no equilíbrio entre racionalidade e fé. Depurar a crença dos seus elementos mais obscuros através do trabalho contínuo da razão e simultaneamente assumir humildemente que toda a racionalidade se funda, em última análise, na confiança nas potencialidades luminosas da razão e na crença de que o mundo da vida tem sentido.
Diria então que superstição é toda a crença destituída de qualquer razoabilidade ou justificação e, sobretudo, com consequências mais ou menos trágicas sobre a mente e a ação humana. Acreditar que existem forças ocultas em jogo no universo e que tais forças podem ser controladas por alguns seres humanos para sua vantagem particular pode ter repercussões não só na saúde mental de quem acredita em tais miragens como na sua atuação social, bem como no equilíbrio emocional das vítimas que nisso acreditam. Mas é igualmente trágica a crença de que um ser (Diabo, Demónio, etc.) ou um conjunto de seres espiritualizados (demónios, almas dos mortos, etc.) podem controlar a vida humana, reduzindo a cinzas toda a liberdade e responsabilidade e provocando males que a pessoa não é capaz de evitar ou superar. E ainda que tal controlo seja apenas parcial, tem efeitos nefastos sobre as pessoas que nele acreditam, limitando o seu campo de ação e a sua confiança na capacidade pessoal de erigir o próprio destino.
Pelo contrário, o sentimento religioso consiste na crença de que o ser humano está intimamente ligado à totalidade das coisas, ao universo global, e de que essa conexão é garantida por aquela realidade espiritual absoluta a que se costuma chamar Deus.
Não será esta crença tão injustificada como as outras? Não teve ela as suas repercussões profundamente negativas na ação humana, se observarmos a história das principais religiões? Quanto à primeira questão, julgo que não existe uma justificação racional estrita. Deus não se pode demonstrar, porque não é um elemento manipulável do mundo. Está no mundo como seu fundamento. O mundo vive nele como grão de areia na imensidão da praia. Mas sem a existência desta realidade transcendente teria o universo um sentido interno que justificasse a sua existência e a sua permanência? Teria a vida humana, na sua sede de plenitude, a esperança num destino que a saciasse? Submetidos à efemeridade do tempo e à fragilidade do espaço, necessitamos de um porto seguro onde podemos sonhar a plenitude humana. Deus é esse ponto de orientação inabalável, que não tem ocaso nem definha, resposta cabal a todas as insuficiências humanas. E ao mesmo tempo é o alicerce de todos os valores éticos, de toda a ação desinteressada e altruísta.
Quanto à segunda questão, não há dúvida de que as religiões foram palco de muitas atrocidades cometidas em nome de Deus. Alguns teólogos pensam mesmo que o monoteísmo, por rejeitar a pluralidade e a diferença no coração da realidade, é a razão da violência e do fanatismo religioso. Resta saber se o problema está verdadeiramente na fé monoteísta. Não podemos esconder o facto de as religiões incluírem no seu sistema de crenças a mescla do sentimento religioso (definido acima) com elementos de caráter supersticioso. Por muito que custe, ainda hoje se acredita em possessões demoníacas, bem como na necessidade da prática de exorcismos com vista a libertar os supostos endemoninhados. Tal crença tem consequências deletérias evidentes. Não só não tem justificação racional (os estudos psiquiátricos apontam, pelo contrário, para doenças do foro mental que explicam tais manifestações), como mantém a pessoa enferma longe de qualquer intervenção médica segura, submetida a obscuras tendências mentais demolidoras. A religião ou liberta o ser humano ou é mera superstição. Depurar as religiões concretas de todas as crenças absurdas é a grande conquista do iluminismo moderno. Infelizmente, estamos demasiado dependentes dos nossos medos para sairmos do conforto das seguranças ancestrais (ainda que doentias) e lançarmo-nos à conquista de um futuro sem demónios que nos atormentem. Mas não vejo outro destino sensato para o ser humano.

Sem comentários:

Enviar um comentário