sábado, 19 de maio de 2012

Resgatar do presente os caminhos do futuro

Vincent van Gogh


Entristecemos. Reclusos sob condições adversas, incapazes de nos libertarmos, apagamos em nós aquela esperança de nos cumprirmos, que o simples dom da vida nos havia prometido. Ainda assim, recusamos crer que a nossa condição profunda anseia pelo terreno fértil da terra-mãe, onde é possível medrar. E barricamo-nos em orgias de pedra e cinza, de onde a vida há muito foi expulsa. Um passeio esporádico pela natureza refresca a memória da harmonia antiga. Mas não chega para apaziguar o desejo ancestral de assumirmos o nosso lugar na fraterna mesa das árvores e dos animais. Outrora, ali vivemos, naquela irmandade perigosa mas dedicada. Corre nas nossas veias o sangue da mesma vida que percorre o corpo da terra. Entretanto, deportámos o nosso ser para o ermo litoral da terra-mãe, onde se não ouve já o límpido rumor das flores abertas. E definhamos, sob o cansaço quotidiano daquilo a que, teimosa mas confrangedoramente, chamamos realidade. Quem nos há de libertar da nossa fuga para o deserto, onde as rosas não exalam o seu delicado perfume, nem as árvores dão fruto?
Longe de nós mesmos, sufocamos a vida que se nos repropõe sem vazios nem delongas. Talvez um dia despertemos do sono que a fuligem dos dias escurece. Porém, enquanto permitirmos que a competição leve a melhor sobre a cooperação, que a compaixão sucumba à avidez, que a morte se desdobre na inquietação do tempo, nada seremos; e, sob o transtornado olhar da loucura, haveremos de abrir no coração da terra a mágoa de negarmos a nossa unidade com o todo de que somos parte.
Ainda que ajude, a solução não se encontra nos jardins plantados no centro das cidades. É toda uma outra conceção da vida que urge acolher. Não creio que a história tenha chegado ao seu termo. Pelo menos, no sentido em que teria alcançado o ponto mais elevado da consumação humana. Bem pelo contrário, se persistirmos no caminho trilhado, hão de sobrar apenas as escarpas rochosas da nossa indignação, quando nenhuma senda se abrir e nenhum horizonte se vislumbrar.
Pode um ser humano subsistir quando reduzido a mero instrumento de produção? A medição do que somos a partir da nossa utilidade mecânica, que a organização social nos constrange a assumir, é um erro fatal. Somos, antes de mais, liberdades que aspiram à plenitude da vida, ou nada somos. E contudo, enredados nas malhas da cultura dominante, temos de nós uma imagem estéril, vincada por critérios alheios aos interesses reais e profundos da condição humana. E assim nos arrastamos tristemente no «inverno do nosso descontentamento».
Sou pessimista? Talvez seja. Observemos, todavia, sem preconceitos ideológicos, as elevadas taxas de suicídio, de criminalidade, de doenças do foro psíquico, de exclusão dos mais diversos géneros — tanto dos que assim nasceram e da exclusão jamais foram resgatadas, como daqueles que nela tombaram sob a pressão de condições fatais… Constituímos uma sociedade cujos membros se esqueceram das antigas conexões vitais… e, deste modo, jamais seremos comunidade de pessoas, húmus onde cresce o todo sem que o indivíduo seja nele absorvido, onde cada um encontra a razão de ser da própria liberdade, onde havemos de ser para os outros o que o nosso instinto exige que sejamos para nós mesmos.
Sem a tão difícil quanto necessária conversão de mentalidades, nunca aportaremos ao nosso destino. Urge, pois, resgatar do presente frio os caminhos do futuro. Sob uma nova ótica, autenticamente humana.

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