quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Europa: um sonho de visionários




Sou um convicto defensor da integração europeia. Penso até que o destino dos europeus — tal como o de toda a humanidade — tem de superar o exíguo espaço dos seus egoísmos individuais, nacionais, culturais, étnicos ou religiosos. A identificação com a humanidade, como um todo, e com cada ser humano, qualquer que seja a sua condição de origem, é a direção a tomar. E tal finalidade é simultaneamente o caminho da história universal, no seu titubeante e confuso vaivém, e um dever ético que a toda a consciência se propõe. Mas antes, a Europa terá de se cumprir, sobre os escombros dos nacionalismos fanáticos.
A intolerância racista e xenófoba medra no terreno da crise e da pobreza, que alastra preocupantemente sob a ação nefasta dos particularismos não solidários. Infelizmente, a atual situação da Europa é profundamente desagregadora. A consequência é o recrudescimento de partidos nacionalistas de extrema-direita. Os políticos do velho continente parecem ter esquecido as motivações que estiveram na origem da construção europeia. A amnésia de que sofrem provoca inevitavelmente maus resultados. Trilhamos inquietantemente os mesmos caminhos que outrora causaram tanto ódio, tanta perversão, tanta penumbra. Se aprender com os próprios erros é sinal incontestável de sabedoria, estamos longe de ser sábios. Vogamos, pelo contrário, nas águas turvas da própria ignorância. E embora o naufrágio não seja inevitável, é, pelo menos, um horizonte possível no cenário que a atual conjuntura nos oferece. Só se vislumbra uma solução adequada: despertar a consciência solidária de todos os cidadãos europeus, de todas as nacionalidades.
A União Europeia é ainda um sonho em larga medida por realizar. No dia seguinte a uma das maiores catástrofes da história humana, apesar de ter sido fustigada pelos ventos da discórdia e, sobretudo, dos egoísmos nacionalistas, o projeto europeu emergiu da vontade férrea de homens visionários, cujas mentes se não quedaram no tempo que lhes foi contemporâneo; viram para além do horizonte imediato. Foram utópicos, asseguram os pragmáticos de hoje, cuja visão se confina aos poucos anos durante os quais ocupam o poder. Talvez o tenham sido. Todavia, o que a eles sobejava, escasseia hoje no mundo político. Faz-nos falta aquele otimismo profético, impulsionado pela esperança na capacidade humana de se autotranscender. Definhamos sob o olhar gasto e baço da razão instrumental. E onde os pais da Europa viam uma união fraterna de nacionalidades e vontades, nós sucumbimos à mediocridade dos nossos interesses materiais, despidos de toda a universalidade ética tão premente quanto esquecida.
Reinventemos novas alternativas ao mísero fatalismo que nos subtrai à vida. Recuperemos a dimensão autenticamente humana da história. Façamos do futuro um projeto fraterno que não exclua ninguém — grupos, etnias, nacionalidades… —, mas se empenhe na tarefa de criar conexões onde outros criam clivagens. Creio numa Europa livre e democrática, porque creio na bondade possível de todo o ser humano.

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