sábado, 26 de maio de 2012

Procura a sabedoria... e hás de encontrá-la




Buscar a sabedoria é tarefa de uma vida inteira. Por maior que seja a longevidade de uma pessoa, tal finalidade há de estar para lá de toda a conquista plena. Pelo contrário, vamos tropeçando na escuridão das noites de Lua nova. Por vezes, lá está a sábia decisão de cuja consistência só mais tarde nos apercebemos. Outras vezes, é clara a via da sabedoria ética, ainda que nem sempre vislumbremos vantagens pessoais. Decerto que a felicidade tem um substrato eminentemente individual, mas o seu húmus é a comunidade, enquanto relação entre indivíduos erguendo-se acima de si mesmos.
Também não é possível confundir a sabedoria com o que os outros pensam acerca de nós e das decisões que tomamos. Perseguir o ideal do consenso generalizado sobre as opções que tomamos é negar a própria clarividência racional, perseguir propósitos que nada têm que ver com ética e desmembrar as convicções pessoais no turbilhão perigoso e fútil da ideia que os outros hão de fazer de nós. E não esqueçamos que tal ideia não vai além, afinal, daquilo que julgamos que os outros pensam de nós. A verdade é que temos de conviver diariamente com o que calculamos ser, com as escolhas que fazemos no amplo espaço de possibilidades que cada dia nos oferece. E nem sempre nos suportamos interiormente, por vivermos ancorados na falaciosa busca de consenso sobre aquilo que somos ou fazemos. «Para quem será bom aquele que é mau para si mesmo?» (Sir 14, 5). Sê antes de mais o que a tua consciência solicita que sejas e hás de conviver pacificamente contigo mesmo, apesar das contrariedades que tal atitude te trouxer.
Infelizmente, nuvens negras pululam no horizonte da condição humana. Não é límpida, como o céu de um típico dia de verão. Temos de fazer as contas com esta realidade. E ninguém está acima dos invernos que o desassossegam. É por isso que a vigilância constante no processo de autoconstrução livre e responsável se torna um imperativo de ordem moral. Descansar ou estagnar num dos pontos do caminho da vida é retroceder. Todavia, também não podemos ser tão intransigentes connosco próprios que nos exilemos da nossa condição finita e imperfeita, transformando o processo de crescimento num inferno sem esperança nem futuro. Aceitarmos o que somos e investirmos no caminho da perfeição são dois eixos igualmente determinantes.
E é aqui que o juízo sobre os outros é parte integrante da nossa relação interior. Quem se acha inaceitável tenderá a perpetuar nos outros esta imagem, em geral, desfigurada de si mesmo. E tende a habitar num mundo povoado de demónios, sem aquela memória da vida que nos há de abrigar. Tolerar os outros, com os seus defeitos, não é, com certeza, passar a ler positivamente aquilo que de positivo nada tem. Penso muitas vezes por que razão hei de ser para os outros uma espécie de consciência moral. Sobretudo quando se trata de adultos. A minha profissão obriga-me a educar crianças e jovens e, por conseguinte, a ser quase diariamente uma espécie de consciência moral. Mas já me nego a sê-lo, exceto em condições muito específicas, em que o bem-estar de terceiros está em questão, quando se trata de adultos. Em vez disso, procuro perceber por que razão alguém me dececionou, comportando-se de determinada maneira. E há, normalmente, interpretações mais benignas do que outras. Tendo, assim, a interpretar os factos da forma mais favorável. Não gostaria eu que os outros fizessem o mesmo em relação à minha conduta?
Amar, portanto, é o verbo certo. Amar a vida, não obstante as nebulosas vicissitudes do tempo; amar-se a si mesmo, ainda que se não corresponda à autoimagem projetada; amar os outros, na sua irritante finitude. Mas não me detenho aqui. Julgo mesmo que o amor de deve dilatar a toda a natureza, ambiente vital em que a dádiva da vida nos é oferecida a cada instante, à totalidade do universo, enquanto espaço cósmico de onde viemos e do qual fazemos parte, e, por fim, àquele fundamento de todas as coisas que habita em nós, mas é infinitamente mais do que nós.
E assim, creio, vale a pena embarcar na aventura da vida. Nesta aventura que decorre num ínfimo lapso de tempo, no qual mal aprendemos a saborear o valor de existir.

sábado, 19 de maio de 2012

Resgatar do presente os caminhos do futuro

Vincent van Gogh


Entristecemos. Reclusos sob condições adversas, incapazes de nos libertarmos, apagamos em nós aquela esperança de nos cumprirmos, que o simples dom da vida nos havia prometido. Ainda assim, recusamos crer que a nossa condição profunda anseia pelo terreno fértil da terra-mãe, onde é possível medrar. E barricamo-nos em orgias de pedra e cinza, de onde a vida há muito foi expulsa. Um passeio esporádico pela natureza refresca a memória da harmonia antiga. Mas não chega para apaziguar o desejo ancestral de assumirmos o nosso lugar na fraterna mesa das árvores e dos animais. Outrora, ali vivemos, naquela irmandade perigosa mas dedicada. Corre nas nossas veias o sangue da mesma vida que percorre o corpo da terra. Entretanto, deportámos o nosso ser para o ermo litoral da terra-mãe, onde se não ouve já o límpido rumor das flores abertas. E definhamos, sob o cansaço quotidiano daquilo a que, teimosa mas confrangedoramente, chamamos realidade. Quem nos há de libertar da nossa fuga para o deserto, onde as rosas não exalam o seu delicado perfume, nem as árvores dão fruto?
Longe de nós mesmos, sufocamos a vida que se nos repropõe sem vazios nem delongas. Talvez um dia despertemos do sono que a fuligem dos dias escurece. Porém, enquanto permitirmos que a competição leve a melhor sobre a cooperação, que a compaixão sucumba à avidez, que a morte se desdobre na inquietação do tempo, nada seremos; e, sob o transtornado olhar da loucura, haveremos de abrir no coração da terra a mágoa de negarmos a nossa unidade com o todo de que somos parte.
Ainda que ajude, a solução não se encontra nos jardins plantados no centro das cidades. É toda uma outra conceção da vida que urge acolher. Não creio que a história tenha chegado ao seu termo. Pelo menos, no sentido em que teria alcançado o ponto mais elevado da consumação humana. Bem pelo contrário, se persistirmos no caminho trilhado, hão de sobrar apenas as escarpas rochosas da nossa indignação, quando nenhuma senda se abrir e nenhum horizonte se vislumbrar.
Pode um ser humano subsistir quando reduzido a mero instrumento de produção? A medição do que somos a partir da nossa utilidade mecânica, que a organização social nos constrange a assumir, é um erro fatal. Somos, antes de mais, liberdades que aspiram à plenitude da vida, ou nada somos. E contudo, enredados nas malhas da cultura dominante, temos de nós uma imagem estéril, vincada por critérios alheios aos interesses reais e profundos da condição humana. E assim nos arrastamos tristemente no «inverno do nosso descontentamento».
Sou pessimista? Talvez seja. Observemos, todavia, sem preconceitos ideológicos, as elevadas taxas de suicídio, de criminalidade, de doenças do foro psíquico, de exclusão dos mais diversos géneros — tanto dos que assim nasceram e da exclusão jamais foram resgatadas, como daqueles que nela tombaram sob a pressão de condições fatais… Constituímos uma sociedade cujos membros se esqueceram das antigas conexões vitais… e, deste modo, jamais seremos comunidade de pessoas, húmus onde cresce o todo sem que o indivíduo seja nele absorvido, onde cada um encontra a razão de ser da própria liberdade, onde havemos de ser para os outros o que o nosso instinto exige que sejamos para nós mesmos.
Sem a tão difícil quanto necessária conversão de mentalidades, nunca aportaremos ao nosso destino. Urge, pois, resgatar do presente frio os caminhos do futuro. Sob uma nova ótica, autenticamente humana.

sábado, 12 de maio de 2012

Quando as palavras não bastam



O silêncio

A Bernardo Sassetti

Sobre a ravina, é o perigo
que espreita, intrépido, através das rochas que o mar fustiga.
Ou talvez não,
apenas o desabrigo nos abismos inconscientes,
junto aos escolhos do cansaço.
Um pé sobre o tempo movediço,
o outro sobre o chão desamparado,
derrocando o impossível sonho.
E o mar condescendente que atravessa os íntimos penhascos
e as vagas como um berço de sossego,
reclamando o regresso inexplicável
à secreta origem.

Escuta o silêncio, sugerias,
e eu escuto, sobre as pautas da vida,
a respiração do mundo;
no ventre do piano,
as vigorosas ressonâncias.

Que mais farei, quando tudo foi feito?
inquirias no receio triste,
logo que a penumbra invadia a aridez das folhas.
Que mais direi de inaugural,
depois do canto dos pássaros, do marulho dos ventos,
do silêncio do mar entre onda e onda?

Tudo quiseste…
…e foi de mais.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Europa: um sonho de visionários




Sou um convicto defensor da integração europeia. Penso até que o destino dos europeus — tal como o de toda a humanidade — tem de superar o exíguo espaço dos seus egoísmos individuais, nacionais, culturais, étnicos ou religiosos. A identificação com a humanidade, como um todo, e com cada ser humano, qualquer que seja a sua condição de origem, é a direção a tomar. E tal finalidade é simultaneamente o caminho da história universal, no seu titubeante e confuso vaivém, e um dever ético que a toda a consciência se propõe. Mas antes, a Europa terá de se cumprir, sobre os escombros dos nacionalismos fanáticos.
A intolerância racista e xenófoba medra no terreno da crise e da pobreza, que alastra preocupantemente sob a ação nefasta dos particularismos não solidários. Infelizmente, a atual situação da Europa é profundamente desagregadora. A consequência é o recrudescimento de partidos nacionalistas de extrema-direita. Os políticos do velho continente parecem ter esquecido as motivações que estiveram na origem da construção europeia. A amnésia de que sofrem provoca inevitavelmente maus resultados. Trilhamos inquietantemente os mesmos caminhos que outrora causaram tanto ódio, tanta perversão, tanta penumbra. Se aprender com os próprios erros é sinal incontestável de sabedoria, estamos longe de ser sábios. Vogamos, pelo contrário, nas águas turvas da própria ignorância. E embora o naufrágio não seja inevitável, é, pelo menos, um horizonte possível no cenário que a atual conjuntura nos oferece. Só se vislumbra uma solução adequada: despertar a consciência solidária de todos os cidadãos europeus, de todas as nacionalidades.
A União Europeia é ainda um sonho em larga medida por realizar. No dia seguinte a uma das maiores catástrofes da história humana, apesar de ter sido fustigada pelos ventos da discórdia e, sobretudo, dos egoísmos nacionalistas, o projeto europeu emergiu da vontade férrea de homens visionários, cujas mentes se não quedaram no tempo que lhes foi contemporâneo; viram para além do horizonte imediato. Foram utópicos, asseguram os pragmáticos de hoje, cuja visão se confina aos poucos anos durante os quais ocupam o poder. Talvez o tenham sido. Todavia, o que a eles sobejava, escasseia hoje no mundo político. Faz-nos falta aquele otimismo profético, impulsionado pela esperança na capacidade humana de se autotranscender. Definhamos sob o olhar gasto e baço da razão instrumental. E onde os pais da Europa viam uma união fraterna de nacionalidades e vontades, nós sucumbimos à mediocridade dos nossos interesses materiais, despidos de toda a universalidade ética tão premente quanto esquecida.
Reinventemos novas alternativas ao mísero fatalismo que nos subtrai à vida. Recuperemos a dimensão autenticamente humana da história. Façamos do futuro um projeto fraterno que não exclua ninguém — grupos, etnias, nacionalidades… —, mas se empenhe na tarefa de criar conexões onde outros criam clivagens. Creio numa Europa livre e democrática, porque creio na bondade possível de todo o ser humano.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Superstição e sentimento religioso: identidade ou distinção?




Superstição e sentimento religioso são amiúde confundidos pelos detratores do fenómeno religioso. Creio, no entanto, que se trata de duas realidades bem distintas, apesar de a história das religiões se ter encarregado de confundir os dois planos.
Já os antigos diziam que o ponto de partida de qualquer investigação, diálogo ou discurso sensato é a definição dos termos-chave. Não vale a pena investirmos a nossa paixão e o nosso poder argumentativo antes de havermos clarificado os conceitos essenciais a que nos referimos, sob pena de alimentarmos polémicas inúteis ou de contribuirmos, mesmo que sem disso tenhamos consciência, para a confusão e o obscurecimento da realidade que pretendemos explicar. É, pois, forçoso que definamos «superstição» e «religião», uma vez que desta distinção (ou identificação) decorre todo o discurso subsequente.
Tendemos a ver superstição em manifestações individuais arreigadas no espírito humano desde tempos remotíssimos, provavelmente fruto do medo de todos os imponderáveis que provocam um destino alheio à responsabilidade e liberdade humanas. Mas há igualmente fenómenos de superstição nas religiões estruturadas. A par com grandes edifícios teológicos racionalmente sustentados, dos quais a «Cidade de Deus» de Agostinho de Hipona ou a «Suma Teológica» de Tomás de Aquino — só para citar duas obras incontestáveis que a tradição nos legou — são testemunhos evidentes, o cristianismo perseguiu e condenou mulheres que tinham supostamente poderes demoníacos ou que, por meio da manipulação de determinados rituais, seriam capazes de alterar o curso da vida. Se, por um lado, a Igreja ao condená-las sustentava a proibição ética e jurídica de tais práticas, por outro, aceitava como certos os efeitos de tais «bruxarias», acolhendo, assim, a superstição no seu sistema de crenças. E foi provavelmente este último facto que tantas vítimas fez e tanto mal provocou à vida da própria Igreja.
A maneira como agimos está indelevelmente ligada ao sistema de crenças que perfilhamos. A despeito do racionalismo mais radical, provavelmente não seremos capazes de eliminar todas as crenças, porque a mera racionalização do mundo da vida não é suficiente para cobrir a totalidade de situações que constituem a existência humana. Toda a ação é resultado de um misto de racionalidade e confiança (fé, crença). Quando atravesso a rua, acredito que os automobilistas vão conduzir os seus carros pelas estradas e não pelos passeios, vão parar nos sinais vermelhos, etc. Descanso, portanto, não apenas na racionalidade das regras que a sociedade impôs, mas, em última instância, na crença de que todos as vamos cumprir (infelizmente, às vezes enganamo-nos). A crença, desde que justificada, é tão humana como a estrutura racional da mente. Por isso, a possibilidade de eliminarmos toda a fé é, ela própria, uma crença, ainda que não justificada. O que fazer então? A solução parece-me estar no equilíbrio entre racionalidade e fé. Depurar a crença dos seus elementos mais obscuros através do trabalho contínuo da razão e simultaneamente assumir humildemente que toda a racionalidade se funda, em última análise, na confiança nas potencialidades luminosas da razão e na crença de que o mundo da vida tem sentido.
Diria então que superstição é toda a crença destituída de qualquer razoabilidade ou justificação e, sobretudo, com consequências mais ou menos trágicas sobre a mente e a ação humana. Acreditar que existem forças ocultas em jogo no universo e que tais forças podem ser controladas por alguns seres humanos para sua vantagem particular pode ter repercussões não só na saúde mental de quem acredita em tais miragens como na sua atuação social, bem como no equilíbrio emocional das vítimas que nisso acreditam. Mas é igualmente trágica a crença de que um ser (Diabo, Demónio, etc.) ou um conjunto de seres espiritualizados (demónios, almas dos mortos, etc.) podem controlar a vida humana, reduzindo a cinzas toda a liberdade e responsabilidade e provocando males que a pessoa não é capaz de evitar ou superar. E ainda que tal controlo seja apenas parcial, tem efeitos nefastos sobre as pessoas que nele acreditam, limitando o seu campo de ação e a sua confiança na capacidade pessoal de erigir o próprio destino.
Pelo contrário, o sentimento religioso consiste na crença de que o ser humano está intimamente ligado à totalidade das coisas, ao universo global, e de que essa conexão é garantida por aquela realidade espiritual absoluta a que se costuma chamar Deus.
Não será esta crença tão injustificada como as outras? Não teve ela as suas repercussões profundamente negativas na ação humana, se observarmos a história das principais religiões? Quanto à primeira questão, julgo que não existe uma justificação racional estrita. Deus não se pode demonstrar, porque não é um elemento manipulável do mundo. Está no mundo como seu fundamento. O mundo vive nele como grão de areia na imensidão da praia. Mas sem a existência desta realidade transcendente teria o universo um sentido interno que justificasse a sua existência e a sua permanência? Teria a vida humana, na sua sede de plenitude, a esperança num destino que a saciasse? Submetidos à efemeridade do tempo e à fragilidade do espaço, necessitamos de um porto seguro onde podemos sonhar a plenitude humana. Deus é esse ponto de orientação inabalável, que não tem ocaso nem definha, resposta cabal a todas as insuficiências humanas. E ao mesmo tempo é o alicerce de todos os valores éticos, de toda a ação desinteressada e altruísta.
Quanto à segunda questão, não há dúvida de que as religiões foram palco de muitas atrocidades cometidas em nome de Deus. Alguns teólogos pensam mesmo que o monoteísmo, por rejeitar a pluralidade e a diferença no coração da realidade, é a razão da violência e do fanatismo religioso. Resta saber se o problema está verdadeiramente na fé monoteísta. Não podemos esconder o facto de as religiões incluírem no seu sistema de crenças a mescla do sentimento religioso (definido acima) com elementos de caráter supersticioso. Por muito que custe, ainda hoje se acredita em possessões demoníacas, bem como na necessidade da prática de exorcismos com vista a libertar os supostos endemoninhados. Tal crença tem consequências deletérias evidentes. Não só não tem justificação racional (os estudos psiquiátricos apontam, pelo contrário, para doenças do foro mental que explicam tais manifestações), como mantém a pessoa enferma longe de qualquer intervenção médica segura, submetida a obscuras tendências mentais demolidoras. A religião ou liberta o ser humano ou é mera superstição. Depurar as religiões concretas de todas as crenças absurdas é a grande conquista do iluminismo moderno. Infelizmente, estamos demasiado dependentes dos nossos medos para sairmos do conforto das seguranças ancestrais (ainda que doentias) e lançarmo-nos à conquista de um futuro sem demónios que nos atormentem. Mas não vejo outro destino sensato para o ser humano.