sexta-feira, 6 de abril de 2012

A sagrada liberdade




É a liberdade que constitui o centro da Páscoa. Pode parecer estranho, mas os dois eventos que a Páscoa arranca dos meandros do esquecimento e traz à memória do tempo — a libertação da escravidão do Egito e a morte e ressurreição de Cristo — estão intimamente relacionados com este valor sagrado.
O primeiro acontecimento tem uma dimensão inegavelmente sociopolítica. Não é uma vaga e espiritualizada libertação que as narrativas do Êxodo referem. É a libertação de um povo da sua condição de escravo, da sua situação subserviente, da total ausência de autonomia e, portanto, de capacidade para definir o seu próprio destino. Contudo, de acordo com esses mesmos relatos, tal processo de desobediência revolucionária, que havia de conduzir à libertação, só pôde acontecer por força da vontade de Deus. Estamos, pois, longe de uma conceção divina que o separe irremediavelmente do mundo e, sobretudo, do destino da humanidade. Deus atenta nas circunstâncias desumanas em que Israel vive… e age em seu favor: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus opressores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel. E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles. E agora, vai; eu te envio ao faraó, e faz sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel» (Êx 3, 7-10). Deus investe pessoalmente na libertação sociopolítica de um povo subjugado, rejeita liminarmente toda a opressão e afirma-se contrário à vil tirania do ser humano, ávido de poder, sobre o seu semelhante. Não estamos, pois, perante uma religião espiritualizada, desencarnada da vida real, das condições sociais, económicas e políticas em que o ser humano vive. O pecado de que fala o texto não é um mero somatório de pequenas ou grandes falhas éticas pessoais, subjetivas, intimistas, mas a rejeição de reconhecer o outro como um ser autónomo e livre, semelhante a si mesmo e com o mesmo direito a construir o seu próprio futuro, ou, se preferirmos, a opressão exercida sobre o outro com vista a obter dividendos para si mesmo.
O segundo acontecimento, ainda que de contornos menos sociopolíticos, tem claras ressonâncias sociais. De facto, Jesus não foi condenado à morte por mero acaso. A acusação que constava no alto da cruz era política («rei dos Judeus»). E embora a ocupação de cargos políticos estivesse fora dos seus propósitos pessoais, a sua mensagem era demasiado revolucionária para se poder deixar à solta numa sociedade ávida de libertação, onde a opressão social e política andava de mãos dadas com o poder religioso. E é exatamente contra essa religião da exclusão que Jesus anuncia o reino da libertação do ser humano de todas as condições desumanas que o poder — qualquer poder — tende a impor. E Jesus fá-lo em nome de um Deus que se indigna com a perversão religiosa e política que atira para as margens da vida uma multidão de deserdados. Também aqui Deus ouve o seu clamor diante dos opressores. E é esta conceção insubmissa, esta rebeldia face à indiferença do poder que é condenada à morte na cruz de Cristo. Também neste caso não é uma religião espiritualizada, alheia a toda a condição sociopolítica do ser humano, que os evangelhos pressupõem.
O que dizer então das múltiplas fórmulas que o Novo Testamento tem inscritas, interpretando a morte de Cristo num sentido mais espiritual? Apesar de toda uma tradição que leu tais fórmulas acriticamente, é preciso reconhecer o seu caráter metafórico. A morte de Cristo como «sacrifício expiatório», Cristo como o «cordeiro pascal», a morte como «sacrifício redentor» (no sentido do pagamento de uma quantia para a libertação do escravo), etc. mais não são do que metáforas enraizadas no contexto cultural judaico do início da nossa Era. O objetivo parece ser o de reconhecer, no evento Cristo, a ação libertadora de Deus, mas não certamente uma ação inteiramente desligada de toda a ação e vida pública de Jesus. Em suma: não é na morte de Cristo, considerada em si mesma, que se realiza a libertação, a salvação (mesmo que espiritual) da humanidade, é no evento Cristo, na sua irrupção na história da humanidade que Deus se revela inteiramente empenhado no processo de libertação do ser humano. Continuar a repetir as mesmas fórmulas num tempo em que já não são reconhecíveis como metáforas é transformar a novidade do Evangelho numa réplica desgastada pelo tempo cujo sentido não transparece. Mas infelizmente a Igreja parece estar mais concentrada na manutenção de tais fórmulas do que na mensagem efetiva que originalmente transmitiam.
Ultimamente, veio a lume mais um processo inquisitorial (Notificação da Comissão da Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola), desta vez contra o reputadíssimo teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga. A Notificação — uma forma eufemística de condenação — parece ter sido produzida, como é próprio de poderes autoritários, sem julgamento prévio e sem dar a oportunidade de defesa ao visado.
Neste contexto, interessa-nos esta triste notícia por vários motivos. Em primeiro lugar, porque somos lamentavelmente confrontados com a continuidade entre o poder religioso do tempo de Jesus e o poder religioso que diz hoje falar em nome de Jesus; em segundo lugar, porque sendo a Páscoa uma festa em que a liberdade é o valor fulcral, verificamos ainda quão longe estamos do cumprimentos das promessas pascais; em terceiro lugar, porque um dos pontos condenados na dita Notificação diz respeito à ressurreição de Jesus.
Na verdade, Queiruga terá negado o «realismo da ressurreição de Jesus Cristo, enquanto acontecimento histórico (milagroso) e transcendente». E não admira que o tenha feito! Nenhuma pessoa de bom senso acredita que a ressurreição de Cristo possa ser classificada como acontecimento histórico (já para não falar no adjetivo «milagroso»). Se o fosse, poderia ser constatada a partir da mera aplicação de métodos estritamente historiográficos, coisa que nenhum historiador sério poderá assumir. A ressurreição é um «evento» da fé, não um evento que tenha ocorrido nas condições espácio-temporais do mundo. Nem poderia ser diferente, uma vez que se refere a algo que ocorreu após a morte de Cristo. Ora a história lida apenas com ações realizadas ou vividas por sujeitos históricos, ou seja, por pessoas que ainda não viveram o derradeiro processo da morte. A ressurreição não pode, pois, ser explicada historicamente, está para lá de toda a condição da vida humana no mundo presente; só pode referir-se à transcendência de Deus e é assim que se coloca à fé dos crentes. Um evento histórico não necessita obviamente de fé. É um facto e como tal se impõe ao conhecimento humano. Por ser matéria de fé, a ressurreição não se inclui no conjunto dos factos históricos; é uma realização da ação transcendente de Deus sobre o homem morto. Não é para o nada absoluto que morremos, mas para o uno-todo que é Deus, para a Vida em plenitude. É evidente que tal afirmação só faz sentido para quem acredita na existência de um Deus.

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