domingo, 22 de abril de 2012

Democracia e credibilidade




De vez em quando, sou confrontado com a perplexa argumentação dos defensores de sistemas autoritários. E fico a pensar na fragilidade da democracia (portuguesa e não só), conquistada, no plano político, depois de décadas de autocracia devoradora.
Dizem-me que a democracia está repleta de corrupção, de luta por interesses particulares, de desinteresse pela causa pública. Dizem-me que o povo, de um modo geral, não tem a mínima noção das consequências do seu voto. Dizem-me que a verdade é tão válida quando pronunciada por uma só pessoa como quando é pronunciada por uma multidão. Dizem-me que o que conta realmente é a verdade, não a liberdade pura e simples, enquanto possibilidade de autodeterminação do sujeito sem referência ao seu escopo último (a verdade).
Penso, então, em como a corrupção grassa em sistemas autocráticos. Reparo que a luta por interesses particulares não é defeito inerente às democracias, mas a todos os sistemas humanos, uma vez que decorre da concentração excessiva do indivíduo sobre si próprio, do egocentrismo de que todos padecemos e do qual todos somos chamados a libertar-nos. Aceito igualmente que alguns cidadãos não terão a mínima noção daquilo que fazem quando colocam uma cruz num boletim de voto; contudo, tal facto não deriva do sistema democrático em si mesmo, mas da atávica iliteracia escolar e sobretudo cívica. A resposta a tal situação não é o regresso ao autoritarismo, mas o investimento na cultura e na educação. Quanto ao problema da verdade, é certo que um enunciado verdadeiro é tão válido quando pronunciado por apenas um indivíduo, como quando é proferido por todos; no entanto, e este é que é o ponto central da questão, quanto mais indivíduos trabalharem para o mesmo objetivo, mais hipótese existem de se descobrir a verdade. Basta observarmos o que se passa na pesquisa científica e nas suas conquistas, no trabalho de equipa que está a montante de cada descoberta. Os sistemas democráticos, enquanto apelam à participação de todos, são, assim, mais propensos ao desvelamento da verdade e à sua aplicação concreta, do que os sistemas autocráticos, nos quais apenas um ou um pequeno número de privilegiados se arrogam o direito a dirigir a comunidade a partir da sua conceção do mundo, da sua verdade inquestionável.
Os benefícios da democracia são tão evidentes que a defesa do autoritarismo me parece uma aventura titânica. É certo que a democracia não evoluiu ainda a ponto de podermos descansar; não descobrimos ainda o melhor de todos os sistemas possíveis. Não, a democracia representativa atual não é, de modo nenhum, o melhor de todos os sistemas. É apenas o melhor dos sistemas até agora implementados. Mas esta constatação não nos deve desviar da rota: a democracia tem de ser aprofundada, depurada dos seus escolhos, elevada a padrões humanos que servem se suporte à ação humana coletiva, os quais, provavelmente, serão sempre finalidades nunca inteiramente cumpridas. A democracia pressupõe a existência de cidadãos adultos e esclarecidos que conduzem a sua existência por meio da razão, independentemente dos constrangimentos individuais ou sociais. Exige, portanto, educação. E concretiza-se na participação de todos na construção da vida social coletiva. Tal participação não se pode reduzir ao mero ato eleitoral, mas exige-o. Se não somos chamados a escolher os que nos governam, também não seremos ouvidos nos nossos protestos, quando os nossos direitos forem espezinhados, ou na defesa de causas que consideramos justas e necessárias.
Cada ser humano é uma liberdade em autoconstrução. E se a verdade é a via estreita e difícil que somos chamados a percorrer, não podemos permitir que outros, ainda que motivados por uma intenção filantrópica, nos tracem o caminho, impedindo assim que façamos o percurso pessoal por entre tentativas frustradas e erros mais ou menos evidentes. Não me considero superior a ninguém e procuro tomar seriamente em consideração as perspetivas e pontos de vista dos outros. Mas não aceito que tomem o meu destino nas suas mãos, como se de uma criança de tratasse, e me conduzam por caminhos que rejeito. E esta parece-me ser a essência da democracia: a possibilidade de todos os cidadãos — «livres e iguais em dignidade e direitos», «dotadas de razão e consciência» — tomarem decisões que impliquem não só a própria vida como também o conjunto da vida comunitária.
A democracia precisa urgentemente de recuperar da sua baixa credibilidade. Mas só o juízo crítico de toda uma sociedade poderá fazê-lo, não um qualquer messias iluminado que reduza os outros ao estádio infantil e torne a vida comunitária um tempo de letargia e de inenarrável submissão.

1 comentário:

  1. Parabéns pelo artigo.
    Concordo inteiramente.
    Saudações democráticas.
    CC

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