domingo, 1 de abril de 2012

«A Dama de Ferro»




Foi, na verdade, uma mulher determinada. O epíteto que a identificou tinha a sua razão de ser. Praticamente todos os ingredientes a favor da sua derrota — oriunda de um meio social desfavorecido e… «pior que tudo», mulher — se reuniram naquela personalidade fascinante; mas atingiu a glória inteiramente pelo seu mérito, constância e firmeza. Uma mulher que durante tanto tempo alcançou o triunfo, num mundo dominado por homens, só poderia ter sido uma Dama de Ferro. O filme dá conta desta impressionante pujança. E a vitória sobre tantas contrariedades, apesar de poder ter a sua origem numa certa ambição pessoal, estava com certeza alicerçada na intenção de servir o bem comum e na convicção de que a decadência britânica não era uma fatalidade, mas o resultado de políticas pusilânimes e incorretas.
E é um dado de facto que esta mulher desabrida projetou a Grã-Bretanha, de novo, no mapa das grandes nações mundiais. Podemo-nos justamente questionar a que preço tal empreendimento foi conseguido. E não será difícil obter uma resposta: à custa da morte de muitos jovens sujeitos a uma guerra inútil, fundada apenas no orgulho ferido de uma nação, de tumultos sociais de grande envergadura, do aprofundamento da clivagem entre ricos e pobres, etc.
O filme — essa excelente interpretação de Meryl Streep — revela ainda que a entrega total ao governo de uma nação tem os seus custos familiares. São duas áreas da vida praticamente incompatíveis, porque absorvem grande parte do tempo e da energia pessoal.
Foi certamente o seu feitio pouco conciliador, pouco atento às vozes discordantes que a fez tombar abruptamente na rejeição do partido a que pertencia, após muitos anos de triunfos sucessivos. E talvez tenha sido bom que assim acontecesse. Ninguém se pode julgar acima de qualquer escrutínio, para lá de toda a opinião adversa. A determinação pode facilmente derrapar no terreno baldio da cega teimosia, da surda inatenção ao mundo. Somos humanos. Esta certeza não pode jamais deixar ofuscar a nossa intervenção no mundo, por mais convencidos que estejamos da verdade das nossas posições. E, sobretudo, determinação não pode contrapor-se a diálogo, tornando-nos indiferentes aos sinais e aos apelos alheios. A sabedoria consiste exatamente neste equilíbrio entre a convicção pessoal e a atenção à pluralidade de vozes que ecoam numa sociedade complexa. Perpetuando-se no poder, os políticos tendem a julgar-se no Olimpo, onde a sorte os assiste e a verdade se não nega. Essa é mais uma das razões por que as democracias são determinantes.
Há ainda aquela excelente caracterização de uma vida plena, no centro dos assuntos mais relevantes tanto na política interna como na política externa, que, no entanto, se opõe drástica e tristemente ao abandono e à solidão de uma vida senil, privada da companhia dos que amara, remetida para o exíguo espaço do seu apartamento (quando, antes, o mundo era a sua casa), imersa nas memórias do que fora, dos filhos que, demasiado depressa, haviam crescido, da vida que teima sempre em correr alucinada para a fronteira do seu apagamento, do amor que se perdera na morte…
O que fomos e aquilo em que nos tornamos! Quase desejamos que a vida se retire antes de banir o passado pessoal e nos remeta para o espaço inútil de um deserto decadente, nos arrebate o amor que havia dado sentido à mais pequena ação, ou a suave companhia dos que construíram connosco a existência pessoal. Talvez o segredo esteja em reconstruir, dia após dia, um novo sentido para a cada circunstância, se nos sobejarem energias para tanto.

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