sexta-feira, 30 de março de 2012

«Viajante solitário»



Nunca tinha lido um livro de maneira tão invulgar! Experiência única na minha já longa carreira de leitor constante e apaixonado. Comecei pelo princípio, como convém. Aborreci-me. Não havia intriga. Perante mim, desdobrava-se uma sucessão de descrições e de impressões subjetivas. Algumas belas, sem dúvida, mas insuficientes para me prenderem às entranhas do texto. Pu-lo de parte. Contudo, qualquer coisa de inexplicável naquela escrita — semelhante a uma torrente nas imediações de uma cascata — me seduzia, a ponto de retomar a leitura. Porém, desta vez, de forma inusitada: iniciei pelo último capítulo! Não tinha qualquer relevância, pois a ausência de um enredo permite tais liberdades. E devorei-o. Então continuei o meu desusado percurso e fui lendo com gosto os restantes capítulos, sempre na ordem inversa da sua apresentação editorial.
Valeu a pena, se bem que a leitura de «Viajante solitário», de Jack Kerouac, exija uma predisposição especial. Nem todos os momentos são bons. Nem todos os estados de espírito de adequam a tal empreendimento. Mas a obra aí está, resistente ao tempo. E interessante, para além da arte de escrever, é a maneira como o narrador autobiográfico repara nos mais pequenos pormenores da vida, por onde quer que passe: as paisagens naturais ou humanas, o tempo, a disposição dos objetos, os comportamentos humanos, as cidades, a incomensurável natureza…
O melhor capítulo, ou pelo menos aquele que me tocou mais fundo, intitula-se «Sozinho no cimo da Montanha» e descreve a sua estadia, enquanto vigia de incêndios, no cimo do Monte Baker, perto de Seattle (EUA), depois de se ter cansado da vida citadina e de desejar alcançar a sabedoria por meio da sagrada solidão. Lembra «Walden ou a vida nos bosques», a obra-prima de Henry David Thoreau, que descreve, para além de outros assuntos, a frugalidade autoimposta e a denegação de supostas necessidades que a sociedade moderna nos incute, por forma a escoar os seus stocks comerciais, tão ilimitados quanto inúteis:
«Fui para os bosques porque pretendia deliberadamente viver, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida e ver se podia aprender o que tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não havia vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso».
Dois anos nos bosques desenvolveram nele aquela identificação com o meio natural que o capitalismo teima em ofuscar, por considerar a natureza apenas um prontuário de recursos ao alcance da voracidade humana. Foi viver para os bosques para «sugar o tutano da vida», como ele afirma. Decerto, ali não haveria de encontrar os preconceitos de uma sociedade esclavagista contra a qual lutara, nem teria de apelar à desobediência civil com que brindara a sociedade norte-americana. E é assim que reencontramos em Jack Kerouac mais um americano esgotado de tanta obrigação imposta e atento ao silêncio puro que só a solidão permite:
«Deixava-me ficar deitado do lado do prado da montanha, ao luar, com a cabeça na erva, e ouvia o reconhecimento silencioso das minhas angústias temporárias. — Sim, tentar atingir o Nirvana estando já lá, chegar ao cimo de uma montanha quando já lá estamos e só temos de permanecer (…), não é preciso nenhum esforço (…), mas sim, apenas, saber que está tudo vazio e desperto, que é tudo uma Visão e um Filme no Espírito Universal de Deus (…), e permanecer mais ou menos sensatamente nisso. — Porque o próprio silêncio é o som (…) da bem-aventurança (…), do nada-aconteceu-jamais-exceto-Deus (…). O que existe é Deus na Sua Emanação, o que não existe é Deus na Sua serena Neutralidade, o que nem existe nem não existe é a divina alvorada imortal e primordial do Pai Céu (…)»
Que dizer ainda perante tanta sensibilidade, tanta penetração no coração do ser? Apesar de uma certa resignação aos factos da vida, atitude que não partilho, há sobretudo a serena transposição de um olhar medíocre, que não vê senão a superfície das coisas.
Kerouac pertence a uma geração à procura de si mesma. Profundamente insatisfeita com a realidade, oscila entre a fuga que as drogas e o álcool proporcionam e a defesa de uma outra consciência cívica e política, capaz de alterar as ideias e as práticas instaladas na sociedade ocidental. Não foi por acaso que morreu com apenas 47 anos. Os excessos consomem o corpo… e o espírito.

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