terça-feira, 6 de março de 2012

«Que Deus passe pelo mundo»




Jon Sobrino: um dos maiores teólogos latino-americanos que entregou a sua vida e o seu esforço de investigação à teologia da libertação. Num artigo atual — «A passagem de Deus pela América Latina», fevereiro de 2012 —, revela o seu desejo mais fecundo, como teólogo e homem de fé: «(…) a minha maior preocupação não é o futuro do que chamamos “Igreja” (…). O que me interessa e me alegra é que “Deus passe por este mundo”». E justifica a sua posição pelo facto de o mundo estar doente e precisar, portanto, da presença e da ação de Deus.
A enfermidade do mundo atual não é difícil de descortinar. Muitos estudos têm apontado nesse sentido e posto a nu as chagas do tempo contemporâneo. Desde as questões socioeconómicas que incluem a exclusão de milhares de pessoas, o consequente aumento da pobreza (económica e cultural) e a pretensão dogmática do intocável e desregrado liberalismo económico, às questões ambientais — a exploração imoderada dos recursos, a poluição e o efeito estufa, o aumento da temperatura média global, a destruição do habitat e a decorrente extinção em massa de muitas espécies, a rutura nos equilíbrios ecológicos tão precários, etc. —, ao gravíssimo problema demográfico — aumento exponencial da população mundial e paradoxal envelhecimento da população nos países mais ricos —, às consequências negativas da globalização, sobretudo no plano económico, à ausência de um sentido global para a existência, particularmente entre os mais abastados, à confusão axiológica que grassa nas sociedades modernas, nas quais se não descortina uma clara hierarquia de valores suficientemente partilhada por todos ou, pelo menos, por uma maioria sustentável, à corrosão dos fundamentos dos princípios democráticos… e por aí adiante.
É assim que se justifica plenamente a formulação optativa de Jon Sobrino. A passagem de Deus por este mundo torna-se, portanto, um imperativo de sobrevivência para a própria humanidade. Contudo, enquanto as instituições religiosas forem encaradas como os principais veículos do discurso sobre Deus, a suspeita de que tal discurso se revista de uma intenção dominadora apavora os nossos contemporâneos. Curiosamente, as instituições que foram, durante séculos, as herdeiras do divino e transmissoras do seu discurso, passaram a constituir verdadeiros obstáculos ao desvelamento de Deus perante os olhos perdidos das nossas comunidades humanas.
Para a teologia da libertação, não é na sumptuosidade dos palácios do poder — sejam eles políticos, económicos ou religiosos — que Deus se revela. É na humildade dos excluídos, dos sem nome, dos que viram a sua existência transformada num exílio. E não porque assim o determinaram esses teólogos, mas por um imperativo do próprio evangelho.
Na verdade, a teologia oficial, resultante do chamado «magistério», compraz-se num academismo dogmático incolor, acinzentado, que nenhum movimento libertador produz nas sociedades. E nesse anódino discurso que não interpela, não sacode as estruturas sociais e muito menos a consciência do poder, parece, mesmo não intencionalmente, estar ao serviço das classes dominantes para manter sob a embriaguez celestial os excluídos, como já Marx havia denunciado no século XIX e, em boa medida, se mantém válido no nosso tempo. Percorramos o Credo niceno-constantinopolitano (o Credo que usualmente se proclama nas missas dominicais). Repleto de pomposas fórmulas sobre Deus, sobre Jesus e sobre o Espírito Santo, invade-nos o cérebro sem tocar o coração, nem impelir à ação. Infelizmente, a coisa tornou-se ainda mais problemática quando se deu prioridade ao discurso sobre a Igreja. É como se a instituição (já não tanto a comunidade) vivesse para si própria, se alimentasse a si própria e todo o seu esforço se concentrasse, quase exclusivamente, na sua manutenção. É contra esta visão eclesiocêntrica da fé que Jon Sobrino e os teólogos da libertação proclamam a primazia do Reino de Deus, separando-o claramente da instituição eclesial. É para a realização da justiça e da humanidade em toda a sua amplitude que a Igreja existe, não para si mesma, como se os seus interesses enquanto estrutura se autojustificassem.
Jon Sobrino viu os seus escritos condenados pela cúria romana e foi-lhe imposta a pena de «silêncio obsequioso», uma forma pomposa e enganadora de subjugar a diversidade de opinião, transformando num delito o dever de cada ser humano intervir com as suas ideias e os seus contributos para a libertação humana de toda a servidão.
Torna-se, por conseguinte, premente que Deus passe pela Igreja, como desejamos que passe pelo mundo, para a libertar de todos os discursos ofuscantes, de todos os dogmatismos desumanos e a reoriente para o único significado da sua existência: o bem de todo e qualquer ser humano.
No entanto, Deus não passará pelo mundo se não permitirmos que passe. Ou melhor, aquilo que somos, dizemos e fazemos oculta ou desvela o coração de Deus nas intrincadas vielas do mundo. E este é um recado sobretudo para mim próprio. Para que me não esqueça de que Deus está onde a minha presença o revelar e tornar-se-á opaco onde a minha presença não permitir que a eternidade beije os gestos quotidianos da vida.
Cada vez mais estou consciente de que há uma teologia da dominação por oposição a uma teologia da libertação. A primeira orienta o discurso religioso para as zonas limítrofes do humano, onde não cause perturbações na ordem estabelecida. A segunda desvela na sua crueza revolucionária o evangelho de Cristo, lendo os passos do mundo sob a perspetiva desse ponto focal. Incomoda? Decerto que sim. Mas que teremos nós a ver com um Deus que não incomode?

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