sábado, 24 de março de 2012

Poesia e humanização




A poesia opõe-se essencialmente a prosa. Pouco ou nada tem que ver com modos ou géneros literários. É este um equívoco amplamente difundido entre o senso comum. Como em todos os outros âmbitos da vida, o senso comum não pensa a realidade a partir de critérios racionalmente justificados. Enuncia apenas ideias vagas, impressões que se tornam certezas à força de serem repetidas sem jamais terem sido submetidas ao crivo da razão.
A tradicional identificação de prosa com texto narrativo — para nos cingirmos apenas o plano da obra de arte literária — e poesia com texto lírico é, pois, injustificado e claramente falsificado pela realidade concreta. Encontramos, desde tempos remotíssimos, textos poéticos (ou seja, escritos sob a forma de poesia) que pertencem ao modo narrativo. As grandes obras homéricas e, em geral, as epopeias são disso exemplo evidente. Embora menos frequente, também se podem ler textos do modo lírico escritos sob a forma de prosa.
A poesia, como aliás toda a obra de arte, é um dos «artefactos» que melhor esclarece a especificidade do ser humano em relação a todos os outros componentes da natureza, na qual se insere e se destaca. O que o torna único na rica diversidade da natureza é, entre outras coisas, poder configurar o mundo a partir de um olhar estético, transfigurador do real, criador de universos aparentemente inexistentes, mas disponíveis no mundo quase ilimitado do espírito humano.
A pergunta sobre a utilidade da poesia revela-se perfeitamente inútil face à dimensão cultural e, portanto, criadora de mundos alternativos, que define em larga medida a condição humana.
Escrever poesia é plantar flores na secura do deserto. Como podem, pois, vingar nessa aridez adversa? Medram apenas, diria eu, quando o universo que propõem é revisitado no ato redentor da leitura que outros habitantes dessa inóspita morada teimam em realizar. Cada verso proferido e saboreado é um pequeno arroio regando indizíveis canteiros nas areias inóspitas.
Talvez a mais fundamental de todas as funções da poesia seja a de autorrevelar a nossa indefinível humanidade e até de nos transfigurar no processo de humanização a que todo o indivíduo está sujeito, se teve a sorte de nascer e crescer num ambiente propício a tal processo. A poesia é, tanto para o seu operário como para o leitor, uma abertura estética sobre o mundo, uma visão transubstanciada dessa realidade, demasiadas vezes insuportável, seja ela o mundo dos eventos e das formas externas ao sujeito ou o próprio universo subjetivo, onde pulula uma miríade infindável de ideias, emoções, desejos ou propósitos.
A polémica que opôs os partidários da arte pela arte aos partidários da arte comprometida social e até politicamente não equacionou as funções da arte numa perspetiva autenticamente inclusiva, como parece dever ser. Em vez disso, cada fação enredou-se num exclusivismo que denegou o outro enquanto possibilidade inteiramente justificada. Toda a poesia, na medida em que for uma obra de arte, e qualquer que seja a sua finalidade explícita ou implícita, goza do direito de cidadania. Diria mais: é exatamente a pluralidade de estilos e de conceções estéticas e ideológicas que faz dela a dimensão inteiramente humanizadora, se não insistirmos em reduzir o humanum a uma única dimensão, por mais relevante que seja.
Não há dúvida de que há perigos numa e noutra tendência. A arte pela arte pode transformar o ato de criação, o objeto artístico e a sua fruição numa espécie de evasão ao mundo real, refugiando o ser humano numa espécie de limbo narcotizante que o afasta da sua condição de ser sociopolítico, inscrito num tecido social. A arte comprometida — ainda que vise a transformação do mundo real, através da denúncia das condições de injustiça e de desumanidade que nele vigoram, bem como da criação de modelos sociais alternativos, densos de humanidade e de universalidade — pode transformar-se em panfleto político-revolucionário sem espessura estética.
É, contudo, na pluralidade que a verdade se revela. Não numa unívoca forma de encarar o mundo.
E aqui deixo, por ocasião da comemoração do dia mundial da poesia (21 de março), dois testemunhos poéticos de incalculável valor estético e humano, de dois dos maiores poetas da língua portuguesa.

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Um homem na cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!

José Carlos Ary dos Santos

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