sábado, 3 de março de 2012

O evangelho: um discurso revolucionário




Há momentos em que a leitura dos evangelhos me atinge tão desmedidamente como um murro no estômago. Tudo se parece clarificar, numa espécie de epifania do sagrado no cimo da montanha onde a eternidade parece transfigurar a finitude humana. Claro que não me julgo destinatário de uma qualquer mensagem divina mais autêntica do que aquela a que têm acesso todos os outros seres humanos. Sendo especial, nada tenho de especial. Explico-me: sendo aos olhos de Deus alguém amado e único, não tenho qualquer vantagem sobre os demais cidadãos do mundo no que se refere a decifrar a verdade. E, contudo, determinados instantes assemelham-se, sem nenhuma pretensão pessoal, a uma experiência mística que encurta a distância entre a grandeza do Bem e a exiguidade da própria consciência.
Há tempos, reli o excerto do evangelho de Mateus no qual Jesus se dirige à multidão para esconjurar a doentia dependência que as classes possidentes, cultas e detentoras da «verdade» religiosa impunham aos demais, num complexo acervo de leis e regras que, mais do que proporcionar experiências gratificantes de relação interpessoal, encarceravam as consciências. A contundente narração encontra-se em Mt 23,1-12. Um texto arrasador e fulgurante. Mas a sua dimensão profundamente crítica, e até revolucionária, é hoje reduzida ao problema da relação entre os doutores da lei e a multidão que deviam servir. Tudo encarcerado no tempo morto que o passado encerra. É sempre bom apaziguarmos a nossa consciência domando a carga crítica que tais textos transpiram. Conseguiríamos suportar que a sua mensagem pusesse em causa muito daquilo em que acreditamos? Por isso, afagamos o pelo eriçado daquelas impróprias palavras e passamos adiante, sem nos questionarmos sobre se estamos do lado de Cristo ou do lado daqueles a quem ele não poupa.
E a semelhança entre tais doutores da Lei e a hierarquia da Igreja Católica é de tal forma lancinante que até parece impossível escorrer os dedos pela superfície do texto sem mergulhar fundo no seu miolo. Tal como outrora, também hoje a Igreja hierárquica se instalou na cátedra do «poder» divino. Julgam-se únicos mestres da verdade religiosa, da qual dispõem com tal altivez que aos outros cabe apenas aprender com as suas sábias preleções. Ontem como hoje, «atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros». E não seria difícil expor a relação de obrigações cujo duvidoso sentido as torna insuportáveis: a condenação de toda a contraceção artificial, de toda a fecundação medicamente assistida, de toda a relação homossexual, do divórcio, do casamento posterior a um divórcio, da plena integração de divorciados recasados na comunidade cristã, de toda a possibilidade das mulheres acederem a cargos hierárquicos no seio da Igreja, de toda a autêntica democracia no desenvolvimento dos destinos da comunidade cristã… e o rol poderia continuar por aqui fora.
«Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens». Dir-me-ão: que injustiça! Nem todas as altas individualidades da Igreja agem com vista a serem notadas pelos homens. Mas não seria assim também no tempo em que Jesus ousou proferir aquelas palavras? Mesmo correndo o risco de alguma injustiça quando procedemos a generalizações, não há que enganar: muitos dos que ocupam elevados cargos de chefia na Igreja chagaram lá à custa de uma carreira muito bem gerida, com o intuito claro de assumir o poder e de o manter. Por isso, vestem-se de formas e de cores anacrónicas, cujo sentido se não percebe imediatamente mas cuja presença se torna indisfarçável, tal como os de outrora alongavam as orlas dos seus mantos; gostam de ocupar os primeiros lugares nas grandes cerimónias religiosas para serem vistos e reconhecidos por todos; não abdicam de ser chamados «papa», «santidade», «eminência», «excelência», «monsenhor»… tal como os antigos adoravam que se lhes chamasse mestres. E assim vale a pena reler a forma incisiva como Jesus reduz a cinzas todos os títulos que coloquem os seres humanos acima uns dos outros: «…não deixem que vos tratem por mestres, pois um só é o vosso Mestre e vocês são todos irmãos. E, na terra, a ninguém chamem pai, porque um só é o vosso Pai: aquele que está no Céu. Nem permitam que vos tratem por doutores, porque um só é o vosso Doutor.» E a conclusão é límpida e madura: «O maior de entre vocês será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado.»
E eu anseio pelo momento em que todos os seres humanos sejam autenticamente irmãos e nenhuma barreira imponha limites àquela radical fraternidade que deriva da única origem e do único fim de todas as pessoas. E a promessa aí está, como um chicote estalando junto aos nossos ouvidos. Basta que nos despojemos de todas as certezas que a poeira do tempo foi carregando, de todos os direitos canónicos com que o passado nos pretende amarrar, de todos os dogmas que nos afrontam a razão, de todos os poderes sem a face visível do serviço e da comunhão.
Talvez um dia — e sonhar é condição de possibilidade de toda a transformação —, talvez um dia…

1 comentário:

  1. Parabéns pelo artigo que constitui um importante alerta para dentro e fora da Igreja. São palavras deste tipo que ajudam a Igreja a ser mais autêntica e próxima daquele Deus em que acredito, e que Jesus Cristo exemplificou ao ponto de ser condenado à morte pelos homens do seu tempo que não conseguiram calar de outro modo as suas palavras contra os poderosos da época.
    O poder é sempre controverso e deve ser vigiado, seja ele qual for.
    Creio que Deus está tanto mais presente onde maior for a simplicidade e menor a ostentação.
    No entanto, considero também que as sociedades e o ser humano precisam de rituais e símbolos para se expressarem, precisam do culto do grandioso e do belo, mas nesse percurso não podem nunca esquecer o que mais importa: a promoção da igualdade entre todos os seres humanos, a fraternidade, a autenticidade e tantos outros valores que cristãos ou não cristãos, elevam a dignidade do ser humano.

    ResponderEliminar