sábado, 11 de fevereiro de 2012

Unidade e dispersão



A unidade é a suprema vocação do ser humano, a sua plenitude. O desejo mais íntimo e essencial é reconstruir na unidade aquela dispersão em que se movimenta. Cada pessoa vive, efetivamente, na dispersão, como fragmentos de realidade que aspiram por encontrar-se, por coincidir consigo mesmos, por orientar a sua ação para a unidade absoluta. Somos, portanto, esta tensão desoladora entre a vontade de coincidirmos connosco próprios e a disseminação real a que estamos sujeitos por força da nossa imperfeição estrutural.
Se observarmos com algum cuidado, verificamos que todas as dimensões humanas vivem nesta esgotante tensão. A vontade livre quer agir numa determinada direção, mas decide e impele o ser humano numa outra que é exatamente o seu contrário. A razão humana indaga a verdade, mas perde-se amiúde na opinião enganadora, na ilusão perturbante, na mentira avassaladora. Os sentidos captam a rica pluralidade do mundo, mas dificilmente escapam às ciladas do logro de que são vítimas inconscientes. O nosso corpo é uma unidade orgânica. Mas tende inexoravelmente para a sua própria autodestruição, para a sua fragmentação mortal. E, muitas vezes, por decisão, consciente ou inconsciente, do próprio sujeito. Basta observarmos os que amarraram a sua vontade ao cais do prazer imediato que as substâncias psicoativas proporcionam, numa espécie de fuga mundi sem desertos nem mosteiros. Estilhaçaram o próprio ser, arrastando-se nas ruas da solidão, do esquecimento, do isolamento e, por último, da própria morte. Não que o prazer seja, em si mesmo, um princípio necessariamente destrutivo. Mas não contém em si o critério que o bem exige. É cego e incapaz de vislumbrar os efeitos da ação que promove. Tanto pode conduzir à dispersão exasperante como à unidade reconfortante. Uma boa e prazenteira refeição, sobretudo se partilhada com aqueles que amamos, favorece a unidade orgânica que tendemos a ser. Mas aí está esse nosso gosto alienado pelo açúcar ou pelo sal a testemunhar a força pulverizadora que o prazer pode ser, até à desagregação orgânica do nosso enraizamento material. Não é o corpo — a nossa condição natural de filhos da Terra — que nos dispersa ou empurra para a desordem avessa à unidade, como pensavam os platónicos. Aquilo que procuramos é o equilíbrio orgânico e espiritual que fará de nós seres em direção à unidade, nos quais as várias dimensões humanas de não digladiam, mas concorrem para o mesmo fim.
Divergimos de nós mesmos. Todavia, desencontramo-nos igualmente dos outros, com quem partilhamos o mesmo espaço humano. E os elementos que poderíamos trazer como testemunhos disso mesmo são tantos e tão evidentes que apenas enunciamos alguns, de entre os mais extremos. A guerra entre povos e nações nunca deixou de existir, desde que a humanidade colonizou a Terra. A violência entre grupos sociais e entre indivíduos, sejam quais forem os motivos expressos, resultam sempre de uma ausência de identificação com o outro, de uma dispersão do sujeito ou do grupo em relação ao conjunto mais vasto que constitui a humanidade. Os ódios, as invejas, a vontade de poder e outras pulsões desagregadoras infligem ao coração humano uma tal fratura que a condição comunitária do ser humano se vê indelevelmente ferida. Somos para os outros — dizia Thomas Hobbes, recorrendo a um adágio latino — como lobos que se devoram na luta pela sobrevivência. Ainda não percebemos que o princípio da cooperação nos haveria de conduzir bem mais longe do que o da competição pura e simples. Afastamo-nos de nós mesmos quando dos outros nos afastamos. Cavamos fossos insuperáveis e neles caímos, desatentos que estamos à igualdade da condição humana. O destino dos outros é também o nosso destino, apesar de pontualmente parecer o contrário. Percorremos a estrada do confronto e o que aos outros dizemos ou fazemos torna-se um espinho na nossa carne. Para sempre. Pode sarar, doer menos, ser aparentemente esquecida. Mas está lá e connosco há de soçobrar quando o momento final nos deportar definitivamente do mundo.
Desencontramo-nos também da natureza. A moderna sociedade tecnológica erigiu uma vergonhosa muralha entre a civilização humana e o elemento natural de onde vimos e para onde vamos. Só muito recentemente começámos a tomar consciência disso, mas os interesses dispersivos que inundam o coração e as sociedades humanas têm vindo a tornar penosamente lenta a recuperação da nossa relação vital com a natureza. Aquilo que fora, desde sempre, o território natural de que fazia parte, a sua família, o seu ambiente vital, a casa que abrigava a vida tornou-se a estranha figuração da morte à qual o ser humano foge para o recato das suas complexas relações virtuais. E porque figuração da morte, a natureza representa o inimigo, o outro que nos ameaça demolidoramente e que, portanto, é necessário reduzir à condição de servo, de escravo subserviente, ou mesmo à mera condição de escombro. E assim tem feito, sob a pulsão da vontade de poder e dos seus discípulos — a inveja, a avidez e a cobiça. No entanto, é neste habitat que a subsistência humana tem lugar. A sua dissolução envolve a dissolução do humanum. Pequenos sinais relembram a nostalgia da mãe enjeitada. Jardins plantados no centro das cidades, como bosques que a memória deliu, flores nos vasos das varandas, como indícios de primaveras nas florestas e nos campos. Mas até nestes vestígios está patente a dispersão mortífera. Não é a natureza que cresce, bela e exuberante, é um resquício de outrora na mortalha do tempo. Devoramos impavidamente tudo aquilo que tocamos, como titãs que ressuscitam dos primórdios da Terra. Se, enquanto caminhamos, nos detivermos e olharmos para a estrada percorrida, vemos que, à nossa passagem, sobrou a aridez desoladora, o deserto escaldante, montes glabros e escalvados pela nossa voracidade infinita.
Por último, de tão sedentos de todas as experiências que o mundo moderno nos pode oferecer, de todas as distrações letais, esquecemos o segredo essencial da nossa relação umbilical com o todo-uno, com a transcendência absoluta que é, simultaneamente, imanência absoluta. O oblívio de Deus é a perdição do ser humano. É certo que as religiões têm dado o seu contributo à silenciosa expulsão de Deus do coração humano. Precisamos de recuperar essa unidade perdida.
Convivem em nós duas pulsões opostas: o desejo de unidade que o princípio do amor pode cumprir e a força cega da dispersão que nos dá a ilusão de ser nos fragmentos de existência sem conexão com a unidade pessoal, coletiva, natural e transcendente.
O caminho da vida pode ser o ínvio percurso da pulverização do ser humano ou do seu itinerário para a perfeição que só a unidade pode legar.
Muitos empreenderam esta aventura abraçando a via da mortificação, outros a via oposta do prazer. Mas o autêntico itinerário humano é o do amor, da identificação consigo mesmo, com os outros de quem somos irmãos e com quem partilhamos o mesmo desejo sem tréguas, com a natureza, nossa casa comum, e com Deus, a eterna unidade de tudo consigo mesmo.
Cada momento deste itinerário é condição para o momento seguinte. Ninguém amará os outros e com eles se identificará se não se tiver previamente amado e tiver encontrado essa coincidência de si consigo mesmo que pode trazer sossego. Ninguém há de encontrar repouso na unidade absoluta se antes não tiver feito o percurso de identificação com os outros, com todos eles, independentemente do grupo, do povo, da etnia, da raça, da cor da pele, do género, da religião ou das crenças que tiverem.
E no momento derradeiro da vida, a questão fundamental não será se alcançámos a perfeição da unidade, mas se percorremos incansavelmente o caminho que a ela conduz, sob as intempéries interiores e exteriores, ou se, pelo contrário, nos deixámos enredar na engrenagem que nos estilhaça a vida. Provavelmente está muito para lá das nossas forças alcançarmos a plena unidade. Ponto de referência do nosso itinerário espiritual, mas não meta que alguém possa plenamente alcançar, a perfeição será uma dádiva. «Só um deus nos poderá salvar» (Heidegger). Quando perante a sua infinita bondade, depusermos o que somos, aquilo em que nos transformámos, fruto da nossa liberdade criadora, pouco teremos para mostrar. Que seremos nós diante da unidade absoluta? Haveremos de ser sempre e sem exceção indigências à procura de abrigo, mera disponibilidade para acolher, no espaço de silêncio da consciência pessoal, a força criadora e surpreendente de Deus. E todo o trabalho de nos moldar de novo, de nos recriar inteiramente, será seu e exclusivamente seu. E só então poderemos identificar-nos com a totalidade do real, por ação da unidade absoluta que tudo ama, que em tudo vive e onde tudo repousa.

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