quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um inesperado protesto




O meu ofício de professor, ainda que muitas vezes frustrante e outras violento, tem-me oferecido oportunidades de aprendizagem humana indizíveis. E é sobretudo neste campo que eu tenho colhido mais da minha profissão. O resto pode-se aprender lendo, investigando, escrevendo… Mas o conhecimento do ser humano — das suas matreirices, dos seus ardis, da sua arrogância, mas também da sua bondade, das suas fraquezas, da sua dependência — é coisa que só um assíduo contacto humano pode suscitar.
Suporto com muita dificuldade a sobranceria. Fico fora de mim quando põem em causa a minha honorabilidade, a minha retidão profissional, a bondade das minhas intenções. Perco as estribeiras quando os alunos, entrincheirados numa inamovível preguiça, se recusam a aprender. Preocupo-me com eles, com o seu futuro, com o que poderão ser se não se deixarem agora moldar pela iniciativa benigna dos adultos.
Conheço os defeitos do ensino que, aliás, não reputo, de uma forma geral, tão mau como por aí se diz. Sei que, na ausência de motivação para a aprendizagem, na irrequietude que os múltiplos estímulos atuais provocam nas crianças e nos jovens, sob o efeito da desorganização, do caos, da indisciplina, poucas oportunidades restam a um professor no sentido de transformar seriamente a ignorância que se desconhece em ignorância autoconsciente, que é afinal tudo o que qualquer ato educativo pretende.
Mas fico profundamente perturbado quando vejo nos olhos de um aluno meu o desespero de quem se não aceita com todas as limitações que pode ter. É certo que, sem experiências de frustração, as pessoas não crescem. Todavia, quando tais experiências sitiam o percurso de alguém, provavelmente já não será possível suportar a própria realidade. Tudo parece desmoronar-se sob o signo do fracasso. E quando nada mais somos, para nós mesmos, do que um malogro existencial, que sobra ainda da tão prometida beleza do mundo em que nos calhou nascer? Em casos como este, temo o que possa acontecer. Nunca sei até que ponto um desabafo morre ali mesmo, ou é apenas a ponta de um perigoso icebergue.
Num dia destes, um aluno, perante o insucesso de mais um resultado, abriu em pranto e declarou ser para si mesmo insuportável (não me recorda exatamente que palavras usou, mas era este o sentido), revelando nos gestos toda a ruína que a luta interior provocara. Senti que o meu coração se dissolvia naquela revolta desacompanhada. E quando todos julgavam que eu o haveria de repreender porque gritara e pontapeara, consolei-o frente à turma atónita. Na verdade, não era um aluno que aluía à minha frente: era um filho, como os dois que tenho em casa e cujo sofrimento, quando acontece, me dói até ao tutano. Será isto a compaixão de que falava Buda? O amor de que falava Jesus? É, de qualquer forma, a inenarrável miséria humana de termos de crescer na provação do próprio caminho. Pelo menos, não aceitemos que alguém o percorra na inteira solidão de si mesmo. É a companhia que nos torna humanos.

1 comentário:

  1. Obrigada pelo belíssimo e ternurento post que revela o quanto nós pais e todo o país tanto deve aos nossos professores, classe tantas vezes incompreendida.
    Escrevo descomprometidamente porque não sou professora e sempre tive pelos professores o maior respeito e consideração. E como pensar de outro modo se são eles que ensinam os tesouros maiores que podemos ter: os nossos filhos e as gerações de cranças ejovens que são o nosso Portugal sempre renovado.
    O meu obrigada muito sentido a todos os professores e professoras deste país.

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