domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ser humano e comunidade




De acordo com todas as evidências, o ser humano só pode crescer e viver humanamente no quadro de uma comunidade de pessoas. Sem este pano de fundo, jamais seria capaz de ascender àquilo que é plenamente humano (cf. a experiência dos meninos-lobo).
Os maiores sábios da humanidade estão de acordo quanto a este ponto: somos seres de comunhão, a nossa condição pressupõe a vivência comum e a partilha da própria existência; sem tais prerrogativas ficaríamos privados de humanidade, no autêntico sentido do termo. Já Aristóteles (385 a.C. – 322 a.C.) refere como essencial esta dimensão comunitário do ser humano: «(…) o homem é, por natureza, um animal político (politikón zôon)» (cf. Política, 1253a), ou seja, um ser que, apenas enquanto vive em relação com os demais membros da sociedade humana, pode cumprir os traços distintivos da sua estrutura.
A Bíblia insere esta visão da humanidade no projeto de Deus que, desde toda a eternidade, quis que o ser humano não convivesse bem com o isolamento e a solidão. E na verdade, precisa do outro seu semelhante para se realizar. Na primeira narrativa da criação é claro o propósito divino: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; ele os criou homem e mulher.» (Gn 1, 27). Foi enquanto par humano votado à comunhão, que o ser humano foi pensado e projetado por Deus. A segunda narrativa da criação (Gn 2,4bss) é, porventura, ainda mais eloquente. Deus cria o varão e transfere-o para um ambiente propício ao desenvolvimento do seu bem-estar e da sua felicidade. Mas falta-lhe o essencial: uma companhia adequada, que lhe seja semelhante — da sua própria natureza —, com quem pudesse partilhar a vida. Nem a companhia de Deus, nem a companhia dos restantes elementos naturais parecem ser suficientes para satisfazer o seu desejo de plenitude. Só a criação da mulher — o outro com quem o varão se podia relacionar de igual para igual — concilia o homem com o peso da sua solidão.
Ao longo da história bíblica, o ser humano é múltiplas vezes, senão mesmo continuamente, convocado para a vivência em comunidade. O grande acontecimento da libertação do Egito e a subsequente entrega da Lei a Moisés no monte Sinai marcam a fundação do povo de Israel enquanto comunidade, instada a viver na comunhão com Deus (cf. primeira parte do Decálogo: Ex 20, 2-11), bem como na comunhão com os seus semelhantes (cf. segunda parte do Decálogo: Ex. 20, 12-17). E ao longo do complexo processo histórico, os israelitas hão de desviar-se desta vocação primordial e serão outras tantas vezes chamados por Deus a regressar à comunhão inaugural de que se haviam afastado.
O profeta Amós vê a fratura nas relações interpessoais como um espinho cravado na relação com Deus, que deve ser denunciado: «(…) vendem o justo por dinheiro e o pobre, por um par de sandálias; esmagam sobre o pó da terra a cabeça do pobre, desviam os pequenos do caminho certo» (Am 2, 6-7); «eles detestam o que repreende no tribunal e odeiam o que fala com retidão. Portanto, já que oprimem o pobre e lhe exigem o seu quinhão de trigo, não habitarão nestes palácios de pedra que construíram; (…) são opressores do justo, aceitam subornos e violam o direito dos pobres no tribunal» (Am 5, 10-12).
Mas será com Jesus que se revelará, em toda a sua plenitude, a vocação humana para a comunhão. Desde logo, Jesus anuncia que o maior dos mandamentos é o amor (Mc 12, 28-34), a plena entrega do ser humano a Deus e aos outros. Só nesta dádiva da própria vida, enquanto existência para os outros, o ser humano vê realizada a grande promessa da felicidade.
A parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32) ilustra exatamente esta ideia: autoisolado dos restantes membros da sua comunidade familiar, na solidão da sua mesquinhez e do seu libertinismo desregrado, o filho mais novo atingirá o ponto mais baixo da sua humanidade; e só quando regressa para junto da comunhão que desde sempre lhe havia sido oferecida é que percebe que a liberdade humana só há de realizar-se quando orientada para o amor, a fraternidade e, portanto, a comunhão.
A parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37) insere-se no mesmo esquema geral. Sacerdote e Levita nunca haviam aprendido o que é a comunhão. Vivem mergulhados na preservação da sua existência individualista, salpicada de interesses pessoais, opostos à sua vocação autenticamente humana, aberta aos demais. Nem se apercebem do outro que jaz na berma da estrada, espancado pelo destino funesto. Contra todas as probabilidades, será, então, um estrangeiro e herege que repara na condição de necessidade do pobre homem, fustigado e meio morto. De facto, é o samaritano que reconhece no desvalido — apesar da sua alteridade, da sua pertença problemática a um outro povo e a uma outra religião — um ser humano digno de toda a fraternidade. Aprendeu a viver na comunhão do encontro. Não na solidão do egoísmo.
Também a parábola do juízo final (Mt 25, 31-46) indica claramente o que Jesus pensava do destino do ser humano: «Em verdade vos digo: sempre que fizeram isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeram.» Uma vez que o outro se identifica com Deus, a comunhão com ele é ela própria comunhão com Deus, como duas faces de uma mesma moeda. São João dará talvez a melhor definição de Deus: «amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor» (1Jo 4, 7-8). E é por isso que «quem diz que está na luz, mas tem ódio a seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar» (1Jo 2, 9-10).
É para o amor, para a fraternidade e para a comunhão que fomos pensados. Pela força da nossa natureza, vive em nós esse desejo infinito, mesclado, contudo, com a precaridade da nossa condição. Somos, por isso, instados a identificar-nos com Cristo (Gl 2, 20) que entregou inteiramente a sua existência aos outros e fez desta experiência fundamental o autêntico ritual religioso de autodoação a Deus.

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