quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Grande Gatsby



Escrito pelo americano F. Scott Fitzgerald (1896-1940), o romance «O Grande Gatsby» é, sem dúvida nenhuma, uma obra-prima do século XX. Um texto narrativo de exígua dimensão mas de enormes proporções literárias. E não é tanto a história que faz dele uma obra de alcance universal. É o trabalho literário sobre a língua. Há excertos de enorme consistência humana, sobre o pano da história.
Logo o incipit é um gigante vaticinando o que aí virá: «Quando te sentires com vontade de criticar alguém, lembra-te disto: nem todos tiveram neste mundo as vantagens que tu tiveste.» E assim é. Rápidos no olhar crítico sobre os outros, tendemos à lentidão exasperante quando olhamos para nós próprios e nos recusamos a ver o que somos à luz do nosso itinerário vital, talvez um privilégio que a outros foi negado.
É por isso que Nick, o narrador homodiegético, não assume uma perspetiva crítica sobre os impulsos passionais de Gatsby, de Daisy ou de Tom, ou ainda sobre os negócios obscuros do protagonista. Liga-se a Gatsby, numa amizade sincera e desinteressada, sem qualquer juízo crítico sobre o seu comportamento, e está com ele até último momento, quando o corpo liberto de toda vitalidade é solitariamente conduzido até à sua última morada. A ascensão de um self made man está intimamente ligada a um calculismo sem escrúpulos, mas com resultados materialmente contundentes. A sua queda decorre do ódio que homens sem espessura ética atraem sobre a sua miserável existência. A par disso, eventos fortuitos mas verosímeis empurram a ação para o seu desfecho trágico.
Um mundo de aparência, interiormente decomposto e inautêntico, desvenda-se ao leitor sob a virilidade de um texto magistralmente construído. No fundo, o maior erro do protagonista é não ter percebido que é impossível exumar o passado sobre o chão do presente. E apesar disso «Assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando as águas, a caminho do passa-do». O tempo não perdoa. Morre no mesmo instante em que ocorre. Dilui-se sem apelo, ainda que teimemos em fazê-lo acontecer para sarar as feridas da solidão sinistra em que porventura mergulhamos.

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