sábado, 28 de janeiro de 2012

Um filho


Um filho nasce. Um filho cresce. Um filho surpreende o amor com que veio ao mundo. E lamentamos quando tal não acontece. Talvez seja a melhor obra que um ser humano pode escrever na face materna da Terra. Esse nós mesmos que se nega e se alheia num outro, autónomo e livre. Mas a liberdade é uma condição e uma conquista. Dói vê-la transgredir o passado; uma paixão recorrente sobre a cruz da vida, até ao florescer da madrugada no domingo seguinte, o da plenitude da vida, o da ressurreição de todos os desejos, de todos os sonhos.
Um filho entrega-nos o outro que é, se estivermos disponíveis para aceitar essa diferença intransponível, esse vão sobre o arco do tempo. Um tesouro que se desvenda precocemente nas horas saturadas de esperança. De coração aberto, contemplamos as pérolas todas ou as opalas dos gestos amados. E damos as mãos a esse acontecer sem nos aventurarmos mais a percorrer sozinhos a solidão do tédio. Toda a obra criadora é um golpe na carne do esquecimento, um clarão nas trevas moribundas. E mais que todas, um filho apaga os vestígios do deserto, como a árvore da vida no centro do bosque primordial, onde colhemos o sussurro de todas as coisas e, junto à tarde, no encontro com a brisa infinita, passeamos as nossas mágoas de mãos dadas com Deus. É isso um filho: esse milagre inefável de fazer surgir sobre os ínferos espaços esse bosque inaudito, outrora plantado no coração da Terra.
E há maior felicidade que vê-lo crescer, limpo e belo, nas vertentes do tempo, como uma promessa antiga e luminosa que todos os dias se cumpre no sorriso, no espanto ou nas pequenas travessuras que a vida consente?
Parabéns, meu filho amado.

1 comentário:

  1. É o aniversário do teu filho?
    Parabéns para o rapaz e para a família.

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