sábado, 7 de janeiro de 2012

O oceano triste das nossas mágoas


 
O problema da distribuição dos recursos disponíveis pela população mundial é uma das questões humanas de maior relevância. Dela dependem não apenas os níveis objetivos de bem-estar dos povos, mas, sobretudo, os níveis «subjetivos» de felicidade. Por níveis objetivos quero referir-me à possibilidade de acesso aos bens essenciais à sobrevivência e aos bens culturais bem como ao lazer em quantidades humanamente aceitáveis (valor que há de variar de região para região). Por níveis subjetivos entendo a perceção que os cidadãos têm, num dado território, de estarem socialmente integrados, participarem ativamente na construção da vida coletiva e terem acesso aos bens de que a maioria dos seus concidadãos usufrui.
O nível objetivo é útil para compararmos sociedades muito diferentes. Todavia, do ponto de vista da perceção subjetiva dos cidadãos, o fator que maior implicação tem na sua felicidade pessoal é o valor da desigualdade entre classes. Em sociedades onde a clivagem entre classes sociais é maior, o cidadão menos afortunado sente-se injustamente tratado. Tal sensação tem claras repercussões sobre os níveis de participação pessoal, de desempenho profissional, de equilíbrio espiritual e de relação com os demais membros da comunidade a que pertence. É por isso que sociedades com enormes desequilíbrios tendem a desenvolver expedientes marginalmente legais, ou mesmo ilegais, de sobrevivência, uma vez que o cidadão encara o Estado e, de um modo geral, a coletivada como uma ameaça ao bem-estar pessoal e familiar. Por vezes, tais condições produzem mesmo conflitos sociais de maior envergadura e, mais correntemente, conduzem à passividade, ao desinteresse e à indiferença em relação à vida pública (baixa participação em atos eleitorais, fuga a impostos, etc.), sendo esta percecionada como algo externo e estranho ao sujeito. Assim sendo, não se sente na obrigação de promover pessoalmente a construção da vida pública. Por detrás da organização coletiva está, na perceção individual, uma organização sem rosto, desumana e alheia aos seus interesses intrinsecamente humanos.
Infelizmente, é assim que os portugueses têm vindo a encarar a comunidade humana da qual fazem parte, com evidentes custos para o tecido produtivo e, principalmente, para a sensação de bem-estar e felicidade que cada pessoa aufere. E percebe-se bem porquê. Um estudo recente da OCDE pôs a nu os desequilíbrios sociais de que Portugal padece. É claro que não se trata apenas de um problema nosso. Também em alguns dos outros países da mesma organização se acentuaram nos últimos anos as desigualdades sociais. Em pleno avanço sem controlo do capitalismo desregrado, as sociedades mais desenvolvidas têm vindo a acentuar o fosso entre ricos e pobres. E com esta vertiginosa clivagem, modifica-se significativamente a perceção das pessoas em relação à comunidade. Mas enquanto a média deste fosso, nos países da OCDE, é de 5,5% vezes, em Portugal é de 6,1 vezes. E se continuarmos a trilhar este perigoso caminho sem nos interrogarmos acerca das suas consequências humanas e sociais, o futuro não será menos tenebroso do que se desenha hoje no horizonte.
O mesmo estudo refere que o investimento público em serviços como a saúde e a educação tende a esbater as assimetrias entre os possidentes e os carenciados. E se até agora tal investimento era claramente assumido pelo Estado como uma das suas prioridades, neste momento, face a problemas de ordem financeira mais agudos, os orçamentos atribuídos às componentes sociais tendem a esbater-se drasticamente, coagindo os cidadãos a pagar os serviços que usam, aumentando assim ainda mais o fosso entre ricos e pobres e atirando, muito possivelmente, para contextos próximos da pobreza grupos de cidadãos que se enquadravam em níveis de vida compatíveis com a classe média.
É relativamente fácil perceber-se por que razão num país como a Dinamarca os cidadãos não têm a mesma perceção da vida pública, nem concebem o Estado como um opositor. Trata-se do país com menor nível de desigualdades.
Um dos princípios essenciais da doutrina social da Igreja é o destino universal dos bens. Todos os seres humanos, porque filhos de Deus, têm exatamente a mesma dignidade. E dessa condição resulta que todos devem ter acesso aos bens que Deus colocou à disposição de todos e se direcionam para a felicidade e o bem-estar dos seres humanos, sem exceção alguma. À humanidade é apenas exigido que os use com aquela parcimónia que respeita o princípio da sustentabilidade do meio natural. Contudo, basta atendermos aos indignos números que as organizações internacionais publicam para verificarmos que o princípio da universalidade do acesso aos bens está muito longe de ser cumprido. A UNICEF queixa-se justamente de que todos os dias morrem mais de vinte e duas mil crianças maioritariamente de causas evitáveis: má nutrição, diarreias, consumo de água contaminada, etc. Entretanto, os países mais ricos investem somas avultadíssimas na defesa. Mas este contraste parece não chocar as consciências dos governantes.
Enquanto subsistirem desigualdades tão gritantes não haverá para todos as mesmas oportunidades. Uns, nascendo em berço de ouro, veem abrir-se diante de si uma infinidade de possibilidades que nem sempre podem, sabem ou querem aproveitar; outros, a grande maioria, veem as suas condições tão reduzidas à procura da sobrevivência que não se lhes abrem outras portas a que certamente muitos poderiam aceder por mérito e capacidade pessoal. Parecem ter o destino traçado logo desde o momento do seu nascimento. Alguns nem chegam a viver tempo suficiente para que os outros se possam sequer dar conta da sua valiosa existência. Somos todos iguais. Mas uns mais iguais do que os outros. E é aqui, na forma concreta como cada um pode gerir a sua vida, que se joga a questão da igual dignidade e dos direitos que dela decorrem. Talvez um dia equacionemos a possibilidade de construir uma outra ordem social. Mas se nada fizermos desde já, esse dia tardará a chegar. Entretanto, Portugal permanecerá aquele país cuja alma vemos passear-se teimosamente, de norte a sul, pelo areal que bordeja o oceano triste das nossas mágoas.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

6 comentários:

  1. O Jorge preocupa-se em demasia com os bens terrenos, em detrimento dos valores espirituais; estes merecem uma posição mais elevada na tomada de consciência ético-moral por parte de qualquer cidadão de boa vontade

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  2. Concordo inteiramente consigo, Jorge! Todos os homens de boa vontade, sobretudo os cristãos, devem lutar contra as desigualdades económicas. Centrar as nossas preocupações em bens e valores espirituais é uma mera utopia, se não houver justiça! "Dar de comer a quem tem fome" e "dar de beber a quem tem sede" torna-se cada vez mais urgente, neste mundo onde as desigualdades não param de aumentar.

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  3. Gostei muito de ler o artigo.
    Também eu considero que uma sociedade em que os bens terrenos, leia-se, não apenas os bens essenciais de sobrevivência, mas também os de usufruto cultural são uma condição essencial para que o ser humano possa ter a existência condigna a que tem pleno direito.
    Considero uma obrigação dos governantes zelarem pela igual distribuição dos bens materiais e sociais.
    Considero uma obrigação dos governantes contribuir para combater todo o tipo de discriminações.
    Considero uma obrigação da Igreja de que me sinto parte integrante, como católica que sou, estar atenta e contribuir para alertar pelo respeito desses direitos.
    Considero uma obrigação dos não-governantes exercermos uma cidadania activa que contribua para que todos os cidadãos vejam reconhecidos os seus direitos, sem discriminações.

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  4. Como tudo o que foi dito está em clara contradição com as palavras do Santo Padre: "Neste fim de ano, a Europa encontra-se em uma crise econômica e financeira que, em última instância, funda-se sobre a crise ética que ameaça o Velho Continente"
    Estas palavras foram proferidas a 22 de dezembro último.

    Que tempos estes em que se dá prioridade à justiça em detrimento da ética, num insaciável e desenfreado apetite por bens terrenos.

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  5. Caro amigo e companheiro de fé, concordo plenamente com o papa quando fala de uma crise de valores éticos. Mas não será a justiça um desses valores? Tenho para mim que não devo centrar a minha existência nos bens materiais, contudo não vejo como se possa separar de forma nítida a vida espiritual e os valores éticos que clamam por justiça, igualdade e reconhecimento da mesma dignidade para todos os habitantes do mundo em que vivemos. Calar este aspeto é transformar a religião numa negação da condição corporal do ser humano.

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  6. De acordo, Jorge, mas o que mais me custa é deparar com uma ininterrupta sequência de reinvidicações materialistas numa altura em que o nosso estado está falido. Privemo-nos um pouco já que apesar de tudo há quem esteja com mais sede e fome do que nós.
    Fazê-lo será um imperativo ético e simultaneamnete da mais elementar justiça.

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