sábado, 14 de janeiro de 2012

O medo na Igreja


Numa entrevista de António Marujo a José María Castillo Sánchez, refere-se que o medo invade as consciências dos católicos, reduzindo ao silêncio toda a criatividade. Não é novidade. Qualquer pessoa que tenha um conhecimento suficientemente aprofundado do que se passa nos meandros do poder eclesial sabe que há efetivamente medo. E tal sentimento tem repercussões claras na maneira como as pessoas se relacionam com o poder, como exercem ou deixam de exercer a sua liberdade, como se expõem ou se calam quando era oportuno apresentarem as suas ideias. Há, portanto, uma forma antiquada, despótica e invasiva de exercer o poder dentro da Igreja católica. Um teólogo que ouse ser mais arrojado nas suas investigações paga com a expulsão do ensino em faculdades de teologia, com a obrigação de se manter em silêncio, de prescindir de qualquer publicação… Transforma-se num marginal, apenas pelo simples facto de investigar livremente, não subjugando a sua consciência às peias de um poder superior que julga ter o exclusivo da verdade.
Toda a ciência corresponde a um exercício livre. Sem liberdade não há ciência. E é por isso, embora não apenas, que a teologia, principalmente nos tempos que correm, só muito dificilmente poderá ser reconhecida como uma área do saber científico. Sob o olhar inquisitório de uma instância superior que controla os resultados da investigação e a sua divulgação, a teologia não poderá aspirar a ser reconhecida como uma ciência, tal como hoje tal conceito é entendido. É que a verdade não é, nem nunca será, inteiramente translúcida, de forma que uma qualquer instância a possa visionar diretamente. É, pelo contrário, a finalidade de toda a investigação científica — ainda que no âmbito das chamadas ciências humanas, como a literatura, a filosofia ou a teologia — e como tal está sempre para lá de toda a conquista, porque todo o conhecimento acumulado, embora se aproxime da verdade, não o esgota e é sempre provisório, como interino é igualmente tudo aquilo que o ser humano vai produzindo ao longo do seu percurso civilizacional. Mas uma coisa é certa: todos estamos de acordo que sem liberdade para propor novas hipóteses, testar novos caminhos, verificar ou falsificar novas e antigas teorias não é possível construir nada de relevante. E é aí exatamente que a Igreja católica tem ainda um longo caminho a percorrer.
Com o Concílio Vaticano II julgou-se que tinha chegado ao fim o período obscuro e autocrático de governo da Igreja. Puro engano. Sob o influxo de forças pendulares, os anos que se seguiram, sobretudo no consulado do ultraconservador João Paulo II e do atual papa, observa-se um regresso a formas de repressão do pensamento e da ação que se equiparam a modelos pré-conciliares. Neste sentido, talvez a mais emblemática e significativa decisão do Vaticano tenha sido a destruição da teologia da libertação que era uma forma de pensamento com resultados práticos muito promissores na organização das comunidades cristãs. Em vez disso, assistimos ao triste ramerrão da teologia neoescolástica que mais não é do que o mero papaguear daquilo que antigos escritores antigos ou medievais, outrora perseguidos, mas hoje amplamente aceites, escreveram. E as reformas que o tempo diz serem urgentes, são teimosamente adiadas para um tempo em que a Igreja se verá constrangida a aceitá-las, quando talvez já não tenham qualquer impacto sobre a vida comunitária e a relação da instituição com o mundo. Ou seja, quando o definhamento letal da Igreja for um dado de facto, talvez nenhuma reforma a salve do seu esboroamento, transformando-se numa insignificante instituição sem qualquer relevância social. E não se pense que defendo o prestígio pelo prestígio. Defendo que o património espiritual da Igreja é demasiado importante para ser deixado nas mãos da cegueira daqueles que ocupando postos de relevo, não são capazes de introduzir aquelas reformas que haviam de transformar a Igreja numa comunidade viva à qual todos se orgulhassem de pertencer, quer fossem mais conservadores, quer fossem mais progressistas.
Ocupados os principais lugares de poder por homens de um só pensamento (ou muito próximo disso), obrigados a guardar silêncio os que, num escaninho oculto da sua alma, têm razões para pensar diferentemente, empenhados em calar a diversidade e abafar o livre pensamento, nenhum Espírito pode brotar na ação e nas palavras, porque os corações se encontram encurralados num exíguo espaço que a prisão da lei lhes reservou.
Só uma reforma profunda que altere as estruturas de poder, democratizando a sua organização e inserindo no espaço eclesial aquela liberdade de que, segundo S. Paulo, os filhos de Deus estão investidos, poderá ser ocasião propícia à manifestação do Espírito na vida concreta, reconvertendo ao essencial — o Evangelho de Cristo — toda o acanhamento tenebroso e mortificante da instituição eclesial.
Oxalá estejamos todos despertos para os sinais dos tempos e não façamos como no tempo dos profetas bíblicos, quando as estruturas de poder, instadas à mudança, preferiam calar as vozes livres que só o tempo havia de resgatar ao despotismo inepto.



Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo post.
    Quando estudei Ciência Política estudei a Teologia da Libertação e o seu importântíssimo papel para os países onde tanto contribuiu para libertar e dignificar os povos e os aproximar de Deus.
    Como católica convicta e empenhada que sou considero imprescindível o respeito dentro da Igreja, como na Sociedade Política e Civil, do respeito da liberdade de expressão e de todos os princípios democráticos. Deus assim o quererá, estou segura disso e Jesus Cristo foi um exemplo vivo desses valores fundamentais.
    Não subscrevo na íntegra o post porque não tenho uma visão tão pessimista desta realidade, mas se calhar porque a estudei menos e conheço menos.
    Parece-me muito importante que acha quem alerte para estes riscos de atentado à democracia para que todos juntos possamos contribuir para uma Igreja mais democrática e próxima de Deus.

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  2. Pois eu ainda vou mais longe. A igreja cada vez mais está do lado de fora. Não penso que esteja em risco porque reside nas consciências. Cabe a esta Igreja colocar a outra no lugar que lhe é devido, ao serviço desta outra.
    Não é claro, para o comum, a forma de controlo e de delito de opinião praticado pelas cúpulas. Contudo, pedia-se mais proximidade e mais sofrimento para levar a cabo OBRAS de grande generosidade e amor ao próximo.
    Belo artigo. Bravo. Haja quem denuncie!!!

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