sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Na foz


Conhecemos as pessoas… e, apesar disso, morrem como árvores caídas após um vendaval. O conhecimento de alguém devia resgatá-la ao desaparecimento. A inscrição de outrem na nossa consciência torná-lo-ia eterno exatamente nesse espaço sagrado que parece não ter margens. E em vez disso, a morte dos outros confronta-nos com a falibilidade da nossa própria consciência, que não deixa de ter pretensões de eternidade: nela se acolhe o universo que só se julga subsistir no ato de aparecer enquanto experiência consciente de um sujeito. Bem podemos conjeturar que o óbito não reduz a cinzas a presença do outro em nós. Mas a verdade é que o lugar ocupado vaga, quando se extingue qualquer possibilidade de reencontro no mundo das relações interpessoais. E é aí que entristecemos, olhos na tarde ruinosa que anuncia a noite.
Como dizia Martin Heidegger (1889-1976), numa entrevista concedida ao semanário Der Spiegel, em 1966, «Só um deus nos poderá salvar». Esculpidos nessa consciência absoluta que tudo recolhe, poderemos alimentar a esperança de persistirmos eternamente na sua presença tal como todos os outros que connosco partilham essa experiência infinita. É essa a minha esperança mais profunda e derradeira. De outro modo, para que serviria esta medíocre passagem pelo tempo?
Conheci o escritor Rui Filipe Aguiar da Costa no Algarve, quando recebeu o prémio Albufeira de Literatura 2007, com o romance «A resistência dos materiais». Ontem, deparei-me com a estranha notícia do seu corpo inerte na foz do Douro, com apenas trinta e nove anos e um futuro promissor. E um pouco do que sou caiu também no inverno das águas geladas onde ele navegava. Só um deus nos poderá salvar. Talvez a metáfora do mar que na foz se encontra com o rio da inquietude humana seja a melhor oração no dia em que foi a enterrar.


A MÚSICA


A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti

Rui Costa


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Conheci também pessoalmente o jovem escritor Rui Costa.
    Agradeço este post contendo uma belíssima poesia do próprio, homenagem que certamente muito apreciaria.
    Faço minha também a homenagem que aqui justamente lhe é prestada.

    ResponderEliminar