sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Feliz Natal



A todos os cibernautas um feliz Natal e que nasça no coração de cada ser humano esse deus de infinita bondade por que anseia toda a humanidade, desde os tempos mais remotos.



Belém



Fins de dezembro. A noite é fria.

Pesa um silêncio triste, enorme

Por sobre a terra, que sorria

À luz do Sol. E tudo dorme.



O luar, agora, álgido, escorre

Pelas campinas. Vales, montes

Dormem. Apenas vela e corre

A água do rio, a água das fontes.



Velam também os pegureiros.

Guardam, fiéis, os seus rebanhos.

E esses zagais, rudes, grosseiros,

À luz do luar tornam-se estranhos.



Olhando o céu (que noite linda!)

Falam com toda a gravidade

Desse Messias, cuja vinda

Espera ansiosa a humanidade.



Jonathas Serrano (1855-1944)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Morte em Newtown



Parece que os Americanos ainda não perceberam que a natureza humana não é apenas inclinada para o bem, mas também para o mal e até para o mal na sua forma mais aviltante: a crueldade. Deste modo, encaram os desastres humanos — como o massacre que ocorreu recentemente na escola primária de Newtown, no estado norte-americano de Connecticut — não como resultado da falibilidade intrínseca ao ser humano, mas como um mero desvio individual, uma exceção a que é preciso pôr cobro, armando até aos dentes os homens e mulheres de bem. Não entenderam que todos nós somos capazes dos melhores atos de compaixão pelos nossos semelhantes mas igualmente pelas piores sacanices, basta somente que determinadas condições estejam reunidas. Não somos seres luminosos e transparentes, nem a abominação da desolação. Somos um misto de tudo isto, uma área primaveril de onde brota a vida e simultaneamente um campo soturno de invernos chuvosos. E disto que somos decorrem as imprudências, as indecências, o logro, a perversão e demais patifarias que enxameiam as parangonas dos jornais sensacionalistas que, afinal de contas, não têm mãos a medir nem espaço suficiente para narrar todos os despautérios de que somos capazes.
E porque os Americanos acreditam piamente na bondade unívoca da natureza humana, creem que as poucas maçãs podres que o cesto ostenta têm de ser derrotados pela força da esmagadora maioria de cidadãos exemplares. A cada massacre, como o que ocorreu agora, seguem-se, portanto, as vozes tipicamente americanas, exigindo que a União e os Estados liberalizem ainda mais o uso de armas para a defesa das pessoas de bem. Não perceberam que a condição humana é tudo menos aquela retidão ética que asseguram ser. Bastava apenas que lessem as estatísticas, sem os preconceitos atávicos. Nos EUA morreram a tiro, em 2012, 9369 pessoas, enquanto no Canadá esse número é de apenas 144. A diferença é esmagadoramente clara! O problema não se resolve armando mais pessoas, mas desarmando a população de forma sistemática. O provérbio português de que a ocasião faz o ladrão funda-se numa desconfiança essencial a respeito da natureza humana, que se tem mostrado basicamente verdadeira. A resolução dos principais problemas sociais, as abissais clivagens na economia mais rica do mundo são outras tantas ocasiões, a juntar à aquisição fácil de armas de fogo, que acicatam os piores demónios que habitam o coração humano.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Epicuro

Uma leitura atenta de «Carta a Meneceu» veio aclarar alguns equívocos sobre Epicuro. Nascido em 341 a.C. na ilha grega de Samos, o filósofo, que sempre se considerou ateniense, pertence a uma geração posterior aos três grandes vultos do pensamento grego clássico: Sócrates, Platão e Aristóteles. E apesar do gigantismo dos três sistemas seus predecessores, Epicuro ousa percorrer o seu próprio caminho. É um homem livre e livre é igualmente o seu pensamento. A «Carta a Meneceu» é um dos poucos documentos do próprio Epicuro que sobreviveram à erosão do tempo. Infelizmente, a maior parte da sua produção foi devorada pela devoção aos dois eminentes sistemas filosóficos clássicos: o académico (platónico) e o peripatético (aristotélico). E sobejaram apenas textos de natureza ética, motivo pelo qual se conhece relativamente bem o sistema ético deste filósofo, mas pouco das outras áreas do saber. Apesar disso, proliferou a ideia de que Epicuro defendia como princípio fundamental do comportamento ético o prazer tout court. Tratar-se-ia, pois, de um sistema que poria no centro das preocupações éticas a satisfação de quaisquer desejos com vista à obtenção do máximo prazer. Nada mais errado!
O texto inicia com a defesa da filosofia como percurso com vista à fruição de uma vida feliz. A filosofia é a reflexão constante acerca dos princípios que, se assumidos como eixos centrais do agir humano, hão de trazer-lhe a felicidade. Sábio é, pois, todo o que realizar na vida o que os princípios éticos decorrentes da reflexão filosófica lhe prescreverem.
E o primeiro princípio é de caráter metafísico: a divindade é feliz e imortal, por conseguinte, não lhe poderá ser atribuída nenhuma qualidade que seja incompatível com estas. Epicuro distingue, na linha do pensamento racional, o discorrer próprio do senso comum, que imagina os deuses como entidades que premeiam os bons e punem os maus, ou seja, como entidades que se relacionam permanentemente com o mundo humano, e a racionalidade filosófica que separa indelevelmente o mundo divino e o mundo humano, uma vez que não poderiam os deuses ser inteiramente felizes, se se importassem com a dimensão mesquinha, efémero e injusta em que a vida humana se processa. Entre o divino e o humano há, pois, uma separação que nenhum deus pode ultrapassar, sob pena de se tornar tão humano quanto o somos nós. Estabelece-se, pois, como no pensamento filosófico aristotélico, uma clara distinção entre o sentimento religioso, que vê os deuses em permanente relação com o humano, e a reflexão filosófica que alcança o divino na sua total e inexcedível transcendência. Estamos tão longe de uma visão ateística da realidade como de uma perceção tradicional-religiosa da relação divindade-humanidade. E esta reflexão inicial está intimamente inscrita no pensamento ético de Epicuro por recusar aos deuses não só a manipulação do comportamento humano (o ser humano é livre na sua vontade), como também a ativação da ordem moral do mundo, castigando os maus e recompensando os bons. Se alguma ordem moral o mundo tiver, será, portanto, ativada unicamente pelo comportamento humano e, sendo este precário e imperfeito, jamais a realidade humana poderá ser resgatada da sua própria imperfeição moral. Estamos, assim, condenados a viver num mundo de desordem ética e sem qualquer possibilidade de salvação, dado o fosso intransponível que separa a divindade da humanidade. E ainda que a tradição religiosa e o naturalismo hajam posto acima dos deuses o destino, que tudo orienta e determina, Epicuro recusa-o, por contrário à responsabilidade da vontade humana, livre e consciente.
O segundo princípio é o de que a morte nada significa para o ser humano. De facto, quando este existe, não há aquela e quando aquela existe, já não há ser humano que a possa vivenciar. São realidades que se excluem mutuamente, não podendo jamais coexistir. Esta convicção dará ao ser humano a possibilidade de fruir da vida, efémera mas preciosa. E porque a morte é sempre vivida in absentia, o medo da morte é um absurdo a que só os menos sábios se submetem. Tal como o suicídio, que é a procura da morte no espaço da sua ausência que é a vida. A única realidade que o ser humano deve procurar é, por conseguinte, a vida, e uma vida com sentido. A morte é a impossibilidade da fruição da vida e, portanto, um nada sem sentido. Ser sábio é aquele que é indiferente à ideia da morte e aquele que sabe viver uma vida feliz. Se queres ser feliz, afasta de ti o cálice da morte, bem como a amargura do medo que o sentimento da morte te repropõe incansavelmente e vive votado apenas ao esplendor da vida.
O desejo da vida e a sua fruição são, pois, dimensões éticas fundamentais para todo o homem sábio. Assim sendo, será toda e qualquer espécie de desejo igualmente digno de ser satisfeito? A resposta de Epicuro é negativa. E é neste ponto que se gerou o maior mal-entendido a respeito do epicurismo original. Uma conceção superficialmente hedonista é tão estranha a este sistema ético como o é o seu suposto ateísmo. Na verdade, se por hedonismo entendermos a conceção filosófica que atribui ao prazer, i.e., à satisfação de todos os desejos imediatos, o supremo bem para o qual a vontade deve orientar-se, o nosso filósofo está longe de o ser.
Epicuro começa por distinguir os desejos naturais dos inúteis. Sendo que entre os primeiros há os que são inteiramente necessários à consecução da felicidade, do bem-estar e da própria vida. E são estas distinções subtis, mas fundamentais, que tornam muito mais complexo e muito menos redutível a fórmulas simplistas o pensamento deste eminente sábio grego. Se a vida ética visa a obtenção da «saúde do corpo e da serenidade do espírito», os desejos que não se direcionem a este fim serão inúteis. É que ambas as finalidades exigem muitas vezes sacrifícios que não são compatíveis com a procura do prazer ilimitado e imediato. Fruir da vida não só aqui e agora, mas a médio e longo prazo supõe a rejeição de alguns prazeres momentâneos e a assunção de ações cujas consequências imediatas podem ser desagradáveis ou mesmo penosas para o sujeito, com vista a alcançar a felicidade e o bem-estar a médio e longo prazo. O homem sábio vê para lá do tempo em que toma as suas decisões e projeta o próprio comportamento no futuro, a partir de uma análise criteriosa das ações e das suas consequências sobre a saúde física e a serenidade espiritual. A dor e o medo são certamente sensações a evitar nas opções a tomar e na sua consecução prática, porque provêm e provocam a doença do corpo e a instabilidade do espírito. Pelo contrário, o prazer é o fim de toda a ação moral, uma vez que as escolhas se devem direcionar para a extinção da dor e o incremento do deleite, que constitui a base de toda a vida feliz. Tal como os desejos, também os prazeres devem ser criteriosamente escolhidos, uma vez que muitos deles têm como consequência mais sofrimento, embora possam ser imediata e enganadoramente apetecíveis. E aquilo que nos causa dor imediata pode ter de ser escolhido, com vista à obtenção de um maior prazer que dessa escolha decorrer.
Decerto que todo o prazer é um bem e toda a dor um mal. Decerto que evitar a dor e escolher o prazer é, para Epicuro, o princípio moral fundamental. Mas tal não significa que se deva rejeitar tudo o que pode causa sofrimento imediato, nem significa que se deva acolher tudo o que provoca prazer imediato. As opções a tomar devem atender não apenas às consequências imediatas, mas a médio e longo prazo, para que ninguém possa hipotecar o seu futuro a partir de uma vivência frívola, sem o necessário equilíbrio, e entregue a todos os prazeres sensíveis.
A satisfação dos desejos naturais (o desejo de saciar a fome, a sede, etc.), que são também os mais simples, é o fim de todo o comportamento. Infelizmente, raramente nos contentamos com a frugalidade e entregamo-nos a desejos cada vez mais requintados, tão refinados quanto inúteis (o luxo, a vaidade, o poder desmedido, a glória, as bebidas, os sumptuosos banquetes, a posse de muitos parceiros sexuais, etc.). Saber viver uma vida simples e contentar-se com pouco é o segredo da sabedoria.
Já no tempo de Epicuro a sua filosofia estava exposta a este equívoco. Alguns acusavam-no de centrar a ação humana na obtenção do prazer desregrado. No fundo, o prazer que Epicuro erige a fim último é o que corresponde à «ausência de sofrimento físico» e a toda a «perturbação da alma». E tal fim só se obtém quando nos contentamos com uma vida simples, que vê os seus desejos naturais satisfeitos e recusa todo o excesso. Se o sábio já não sentir necessidade de uma vida fundada no desregramento dos sentidos, viverá de forma mais saudável, tanto física como espiritualmente.
E assim sendo, a prudência ocupa um lugar cimeiro. E diríamos que ser prudente é refletir sobre os danos ou benefícios que uma determinada escolha comporta e decidir em função desses resultados; é não embarcar em experiências insensatas que a médio ou longo prazo trarão ao indivíduo a convulsão da alma; é ter da própria vida uma visão holística e não meramente circunstancial.
Epicuro descreve a natureza circular das virtudes. Não há felicidade sem prudência, beleza e justiça e não há prudência, beleza e justiça sem felicidade. Há, pois, um vínculo essencial entre as virtudes, de modo que nenhuma subsiste sozinha, mas apenas acompanhada pelas outras.
E o sábio grego termina a sua carta oferecendo ao ser humano a esperança da libertação do efémero. Viver no plano dos valores imortais eleva-o ao mundo dos deuses e dali pode contemplar, digno e feliz, o afã e a perturbação da vida tumultuosa dos seus companheiros de jornada, cujas opções os mantêm aferrolhados na tempestade dos desejos inúteis.

Que limites apontar a uma ética tão profundamente delineada? Julgo que maior pecha do epicurismo é desenvolver-se no interior de uma ética individualista. Não há aqui um laivo de abertura do sujeito aos outros nem se vislumbra o equacionamento dos princípios éticos numa base comunitária, de reconhecimento do outro como seu semelhante, com a mesma estrutura moral e a mesma dignidade do sujeito enunciador do discurso. Pelo contrário, todo o pensamento ético progride na mera relação intrínseca do sujeito consigo, longe da estrutura social no seio da qual os seres humanos crescem «livres e iguais em dignidade e direitos». E é este arejamento político, esta visão comunitária que torna cada pessoa capaz de equacionar o seu comportamento a partir de parâmetros racionais expectáveis. Ou somos com os outros, ou seremos apenas um resíduo de humanidade.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pós-modernismo



É costume referirmo-nos às sociedades contemporâneas atribuindo-lhes a etiqueta de pós-modernas, seja o que for que tal epíteto queira exprimir. Temos consciência de nos termos aventurado numa nova etapa da história da humanidade e de, apesar das continuidades, termos estabelecido algumas ruturas importantes com a época anterior, abrindo novos caminhos e proporcionando novas oportunidades. Não é fácil estabelecer o limite a quo da nova ordem histórica. De uma forma geral e simplificada, como acontece também com o estabelecimento dos limites temporais de outros períodos históricos, podemos identificar essa fronteira com a primeira guerra mundial. De facto, este acontecimento veio introduzir uma série de modificações políticas que marcaram o tempo posterior até aos nossos dias. Foi na sequência desta catástrofe que se desmoronaram antigos impérios e outros entraram em processo de falência. E se as antigas estruturas de poder tombaram, a ascensão do povo ao poder efetivo foi-se consolidando.
Quais serão as características básicas da sociedade pós-moderna? O triunfo incontestável da ciência e das suas aplicações tecnológica marca hoje o quotidiano dos povos e dos indivíduos. É a nova forma do saber seguro, o novo acesso à verdade, que destrona as antigas raízes do conhecimento centradas na religião e seus sucedâneos mais ou menos sérios, através de um conhecimento que vem do Alto, ou mesmo nas sabedorias filosóficas orientadas para a explicação do mundo e sobretudo do lugar do ser humano no contexto do universo global. E se nos afastámos de um certo exagero usualmente apelidado cientismo, também é verdade que nenhuma outra fonte de saber tem tanto prestígio e é tão considerada como a ciência, cujos resultados em matéria de medicina e de avanços tecnológicos são evidentes e irrefutáveis.
No plano político, assiste-se à vitória, com avanços e recuos, da democracia sobre todos os outros sistemas de organização política. Se é verdade que o século XX testemunhou a hegemonia de ditaduras de direita e de esquerda, o mesmo século protagonizou a sua derrota, fortemente incentivada pela consciência da barbárie da sua atuação e da vontade de poder que haviam encarnado. Num interessante programa de televisão, Mário Soares chamou, e com razão, a este período histórico, o século do povo. A ascensão das democracias como sistemas indiscutivelmente mais perfeitos (ou talvez apenas menos injustos) de organização política e social, se bem que frágeis e constantemente postos à prova pela degradação das estruturas, é uma realidade que se não pode escamotear. Por se ter verificado aquilo de que são capazes as ditaduras — basta lembrarmos os Gulag, os campos de concentração nazi e os extermínios, os desaparecimentos, as deslocações de populações inteiras, as prisões políticas, as torturas, a censura, entre muitos outros aspetos — o advento da democracia introduziu oxigénio à humanidade ferida. Este sistema político funda-se na afirmação do poder do povo, para o povo e através do povo, ou seja, todo o exercício do poder deve estar orientado para o bem-estar dos cidadãos e será permanentemente sujeito ao juízo popular para que se apresente como legítimo. Mas como todos os sistemas humanos, tem as suas debilidades. Se não for cuidada, preservada e sujeita a reformas contínuas, cristaliza-se e desaba. Manter a memória viva das atrocidades dos sistemas alternativos e melhorar as próprias democracias são os antídotos contra o seu envenenamento.
A par com a democracia, observa-se por todo o lado a afirmação da dignidade humana e dos valores e direitos que dela decorrem. A Declaração dos direitos humanos, à qual sucederam muitos outros documentos internacionais de defesa da dignidade humana nas mais variadas situações, é disso o testemunho mais eloquente. E não foram apenas os documentos, foi também a aplicação das suas orientações nos fóruns internacionais e no plano nacional. A superação de antigas visões parciais de etnia, nação ou raça vieram abrir caminho à integração de comunidades humanas até há bem pouco tempo excluídas dos poderes decisórios. Apesar de certas formas de racismo e nacionalismo exacerbado ainda persistirem, porque os progressos não se fazem de maneira uniforme, a consciência global assumiu a igual dignidade de todos os seres humanos, qualquer que seja a sua origem étnica, nacional, linguística, cultural, religiosa, sexual, etc. E daí decorrem naturalmente efeitos práticos a que não podemos escusar-nos. É, neste contexto, evidente, por exemplo, que a proibição do acesso das mulheres a lugares de chefia na hierarquia da Igreja Católica (e de outras Igrejas ou religiões, bem como de outras organizações) é fruto de um preconceito inaceitável, o qual está em evidente contradição com o princípio da igual dignidade do homem e da mulher. O feminismo, enquanto luta pela afirmação dos direitos das mulheres numa sociedade eminentemente dominada por homens, que tem vindo a interpor obstáculos, legais ou práticos, à ascensão da mulher, é hoje o sinal mais luminoso das profundas alterações a que a sociedade contemporânea está sujeita.
A questão dos direitos humanos tem-se desenvolvido também em áreas que tradicionalmente não lhe competiam, mas que hoje são indubitavelmente nela integradas. Refiro-me aos direitos económicos e sociais, que entraram recentemente em crise e foram submetidos a uma pressão sem tréguas nas sociedades ocidentais, incapazes de resolver as suas contradições. Qualquer que seja a nossa posição sobre os atuais desenvolvimentos económicos, ninguém nega que constitui um direito de todos os cidadãos usufruir de um salário justo, de condições sociais e económicas que lhe proporcionem, bem como à sua família, uma vida digna…
Esta globalização dos direitos humanos e da consciência ética veio criar em cada ser humano novas formas de identificação. Se outrora nos identificávamos apenas com quem partilhávamos as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma etnia ou nacionalidade, na sociedade hodierna tendemos a identificar-nos com toda a humanidade, transformando o planeta numa grande família de pessoas cujo sofrimento se torna insuportável para todos os outros. Há certamente um longo caminho a percorrer, mas já se avistam sinais de que é para aí que nos orientamos. Isso deve encher-nos de esperança, sobretudo agora que vivemos momentos conturbados.
Se os consensos sobre matérias fundamentais são importantes, também o é a liberdade e o pluralismo que dela provém. A sociedade pós-moderna é igualmente uma comunidade de pluralismos, na qual se impõe ao indivíduo apenas o que for estritamente fundamental para a orgânica e funcionamento da vida coletiva. A tríade que a revolução francesa tão bem sublinhou (liberdade, igualdade e fraternidade), com fortes raízes na mensagem cristã, triunfou inegavelmente, outorgando a cada sujeito possibilidades que lhe estavam vedadas em antigas formas sociais cristalizadas e fortemente hierarquizadas, nas quais os óbices à mobilidade social eram praticamente intransponíveis.
A educação tornou-se a pedra de toque do desenvolvimento económico e humano. As principais organizações internacionais referem-na como a via de saída do subdesenvolvimento. Para além da sua democratização e universalização, muito mudou, tanto nos métodos como na sua conceção global. Todos concordam que a educação visa a emancipação do indivíduo, a sua libertação e autonomia e o desenvolvimento de competências teóricas e práticas que lhe serão úteis tanto na intervenção cívica como na realização profissional, cada vez mais dependente de conhecimentos especializados. Se no passado se sublinhava a repetição obediente, a reprodução de modelos sociais e a memorização, ligada a uma certa compreensão do mundo, agora insiste-se na originalidade, no processo criativo e na construção do mundo como finalidades da educação. Os métodos ativos são, por isso mesmo, privilegiados por oposição ao antigo ensino diretivo, centrado no professor e na aquisição de conhecimento inerte. Contudo, assiste-se a sucessivas reformas do ensino que parecem pretender torná-lo subserviente das necessidades do «mercado» de trabalho, ocultando o seu caráter humanista.
A afirmação do direito dos povos à independência, à autonomia e à gestão dos seus destinos é outra dimensão da sociedade pós-moderna. Tal como o indivíduo se liberta de tutelas inaceitáveis, assim os povos se libertaram (e libertam) de antigas potências coloniais ou sucedâneos. Mas o problema da autonomia dos povos não parece estar ainda inteiramente resolvido. A Espanha é um puzzle de nacionalidades que ainda se não libertou, a contento de todos, do Estado central. A China é um império de povos muito diferentes cuja descolonização não foi ainda levada a cabo e não o será enquanto subsistir um Estado centralizado e ditatorial que o não permitir. O percurso de libertação dos povos, bem como as visíveis alianças e a consequente formação de regiões supranacionais, que é um processo de sinal contrário mas sustentável se partir da vontade livre das nações, ainda estão longe de ter estabilizado. O caminho é longo e espinhoso, mas promissor, se atendermos às reorganizações políticas relativamente pacíficas decorrentes da queda das ditaduras comunistas.
O mundo é cada vez mais uma «aldeia global». As distâncias tornaram-se curtas, porque as possibilidades tecnológicas as minimizaram. A mobilidade humana é mais intensa e a comunicação ocorre à velocidade da luz. Isto é bom, mas tem os seus perigos. Se temos a sensação de viver num pequeno mundo que é a casa de todos, a verdade é que também o crime se tornou global. Há que reinventar a segurança, sem pôr em causa de maneira definitiva a liberdade individual, o que não é nada fácil.
Com a queda dos modelos económicos marxistas, o mundo transformou-se rapidamente num mercado global que exporta e importa produtos juntamente com a ideologia capitalista subjacente. Tal estado de coisas fomentou a emergência de países com economias tradicionalmente subdesenvolvidas. A riqueza distribui-se agora também pelos mais pobres. E os ricos veem-se obrigados a recuar quando têm de competir com mercados mais baratos que, dada a facilidade das comunicações, rapidamente instalam os seus produtos nos consumidores do mundo inteiro. Uns enriquecem, enquanto o nível de outros se deteriora. Mas o que importa relevar é o triunfo, pelo menos aparente e momentâneo, do modelo capitalista de organização económica, fundado no lucro, na acumulação de riqueza nas mãos de poucos e na mercantilização de produtos financeiros. Daí decorreu a terciarização da economia e a concentração de grandes massas populacionais em metrópoles gigantescas, com todos os problemas subsequentes. O consumismo é o nutriente do próprio capitalismo. Sem consumo não há produção de riqueza, nem lucro. A sociedade desenvolve, por isso, todo o tipo de técnicas para fazer suscitar na consciência individual o mais variado conjunto de necessidades, outrora desconhecidas. Queremos tudo e já. Uma nova gama de telemóveis torna obsoleto e inaceitável o «velho» telemóvel de algumas semanas que temos no bolso. Urge substituir… e atirar fora o que já não serve, ainda que funcione. É a sociedade do desperdício. Já não se repara a máquina que se estragou, compra-se uma nova. A consequência é uma enorme acumulação de detritos e a destruição dos recursos naturais. A ideologia subjacente a toda esta mentalidade é o materialismo. Secundarizam-se os valores espirituais para que ocupe agora o centro de todas as preocupações a aquisição de objetos materiais que preencham desejos que os nossos avós não julgavam poder existir.
O capitalismo é, por sua natureza, um eficaz e feroz predador. Mas o planeta não tem recursos ilimitados que satisfaçam a sede de lucro e acumulação que a atual organização económica do mundo promove. E é assim que estamos no centro de uma catástrofe ecológica cujos contornos ainda não são inteiramente visíveis. A sociedade pós-moderna também aprendeu, ainda que a medo e de forma titubeante, a dar atenção ao planeta, às suas condições naturais e aos sistemas ecológicos fortemente fustigados pela transformação de todas as coisas em meros produtos rentáveis. Esperamos que esta dimensão da vida ganhe a devida importância e antes de sucumbirmos à nossa avidez possamos recolocar as coisas no seu respetivo lugar. Para bem de todos. Para bem dos nossos filhos e netos.
Aconteceram igualmente alterações substanciais no plano ético. O antigo consenso em torno dos valores e da sua hierarquia pulverizou-se. A fragmentação das visões do mundo e das suas consequências práticas trouxe novos problemas às relações sociais, mas permitiu a coexistência de universos plurais, bem como o incremento da tolerância em relação à diferença. Se a verdade forra o valor mais apreciado, hoje é a liberdade que ocupa o centro das preocupações éticas. Talvez o mais eloquente dos sinais seja o desmoronamento dos tabus sexuais. Comportamentos considerados «não naturais» (o que quer que isso signifique) são hoje integrados no quotidiano das sociedades. São exemplos disso mesmo a homossexualidade, que fora considerada uma doença e acabou por ser retirada da lista de patologias da Organização Mundial de Saúde, o divórcio e o consequente acréscimo de novos modelos de família, a contraceção, que deu à mulher poder para gerir a sua sexualidade, e a queda de outros tabus de ordem sexual. Para alguns, tal modificação das mentalidades é o espelho da decadência social, como se outrora tudo fosse melhor e nos dirigíssemos a passos largos para o abismo; para outros, porventura a maioria, é a afirmação da liberdade individual contra um excessivo controlo social conservador que outrora se fazia sentir.
A arte e as suas múltiplas manifestações também mudou de paradigma. Hoje sublinha-se a rutura, a novidade e a criatividade, por oposição à perfeição, ao equilíbrio, ao belo ou ao sublime, que dominavam as formas artísticas do passado. A um observador pouco habituado, uma obra de arte pode ser algo de inusitado ou pode simplesmente confundir-se com qualquer objeto casualmente observado no quotidiano. Neste segundo caso, é apenas o contexto que dirime a questão e clarifica a sua função simbólico-artística. Uma vez que se aprecia a rutura, que tudo torna rapidamente obsoleto e corriqueiro, não é raro que obras de arte assumam contornos extravagantes, bizarros ou até grotescos. Tudo é possível no mundo da arte onde antigas barreiras éticas são derribadas e velhos padrões uniformes que tornavam as linguagens artísticas relativamente balizadas dentro de parâmetros consensuais são demolidos. A arte é o fulgor da originalidade, não necessariamente a expressão da beleza.
A sociedade pós-moderna está profundamente secularizada. O profano tomou a dianteira sobre o sagrado. As estruturas religiosas foram amplamente afastadas da organização política da vida. A laicidade é exatamente essa separação, globalmente aceite, entre o poder político (o Estado) e os poderes religiosos (a religião institucional). Mas as instituições religiosas não perderam apenas a sua influência política, perderam também a profunda ascendência ética, sobre as comunidades e os indivíduos, de que gozavam. Muitos, embora continuem a considerar-se religiosos, afastam-se da participação nos rituais sagrados e a influência que a religião tinha outrora em matéria ética e na formação das principais visões do mundo está claramente mitigada pelo esboroamento da sua autoridade. No plano da relação entre religiões, o mundo pós-moderno, acolhendo largamente uma visão relativista, promove o diálogo inter-religioso e o ecumenismo. Todas as visões do mundo passaram a ser igualmente aceitáveis, dentro de determinados limites, e nenhuma religião parece ter argumentos definitivos que imponham a sua supremacia face a todas as outras. O homem moderno não é irreligioso. É relativista.
Em traços largos, e necessariamente de forma sumária, aqui ficam algumas das principais características das sociedades pós-modernas, nossas contemporâneas. O futuro será o que todos quisermos que seja. Os mais conservadores exigem o regresso a antigos modelos de vida. Os mais progressistas preferem olhar em frente e abalar todos os dias à conquista de novas formas de existência. Uns e outros procuram uma vida com sentido. Somente a interpretam de maneira diversa. Apesar de tudo, a humanidade revelou, até agora, ter a sabedoria necessária para resolver os problemas com que se deparou. Somos isso mesmo: seres inseridos no tempo, oriundos de um passado e projetados num futuro que ainda é preciso erguer. Mas entretanto, convém viver o presente e ter os pés bem assentes na terra.