quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Qohélet



Para além de ser o nome de um libro bíblico do antigo testamento — também chamado Eclesiastes —, Qohélet é igualmente o «nome» por que é conhecido o seu protagonista. Não propriamente o nome que lhe concederam ao nascer, mas a sua função social: o «pregador», aquele que fala na assembleia reunida.
Logo no início do livro recorre-se a uma ficção (pseudoepigrafia) muito em voga em textos antigos: a atribuição da autoria do livro a Salomão, o filho do rei David. Na verdade, no imaginário coletivo de Israel, Salomão é o homem sábio por antonomásia. Nada melhor do que atribuir-lhe a autoria do livro para que este se revista da autoridade de que gozava aquele. Sabemos, contudo, que o livro foi redigido por volta do século III a.C., em plena época helénica, muito longe, portanto, do tempo de Salomão (séc. X a.C.). O autor, um judeu da Palestina, insere-se na corrente sapiencial, na qual estão também incluídos outros textos bíblicos e extrabíblicos.
As suas reflexões sempre exerceram sobre mim um certo fascínio. Sobretudo pela lucidez com que pretende descortinar o sentido da vida e pela exaltação de uma vida alegre, bem longe de correntes que, no interior do cristianismo, hão de identificar a virtude ética e religiosa com a procura do sofrimento pessoal.
Qohélet ainda não partilha a visão do mundo que a experiência do martírio judaico, sob o poder ocupante e despótico do helenismo, haveria de produzir. De facto, pertence ainda à antiga linhagem judaica que, embora acredite profundamente num Deus pessoal, não equaciona a vida humana para lá da sua existência terrena, pelo que todo o castigo ou recompensa são servidos no tempo limitado que a cada um é dado viver sobre a face da Terra. Será a experiência do martírio judaico e a consciência da justiça de Deus que abrirão portas sobre a necessidade de uma vida para além da morte, na qual toda a justiça poderá vingar sobre a injusta morte dos mártires. Mas Qohélet ou ainda não se havia confrontado com tal convicção ou simplesmente não a tinha perfilhado — tal como, no tempo de Jesus, alguns grupos judaicos a não adotaram.
É assim que ele tem do mundo uma visão essencialmente negativa: tudo quanto existe é vaidade (vacuidade), uma vez que tudo, sem exceção, está condenado à destruição, ao esquecimento e à morte. Os bons sofrem inexplicavelmente e os maus prosperam sob o olhar omnipotente de Deus! Para tal paradoxo, o crente não tem explicação racionalmente eficaz. Esta visão lúcida do mundo está longe da tradicional proposta dos mestres, segundo a qual a bondade humana é premiada, enquanto a maldade é castigada pela justa intervenção de Deus. E neste ponto, o autor aproxima-se de Job e das suas diatribes com a velha conceção judaica que não resiste a um olhar atento sobre a realidade. Destituído da consolação que a visão tradicional lhe poderia dar, ainda longe da solução que a ressurreição há de trazer, Qohélet contenta-se, por isso, em oferecer a todos os que o escutarem algumas orientações de vida que possam eventualmente iluminar as trevas que muitas vezes invadem o espaço da vida, sob o nosso olhar atónito.
Mas não é apenas a morte a decretar a ausência de sentido. A opressão social e a violência exercida sobre o ser humano tornam-no ainda mais infeliz do que se habitasse a morada subterrânea dos mortos. É que estes nada são — meras sombras deambulando, sem qualquer consistência, pelos espaços inferiores do mundo — e aqueles vivem sufocados pela indignidade que a sua condição social lhes trouxe.
A fadiga humana, fonte de infelicidade, tem a sua raiz na inveja. Trabalha-se desmesuradamente para adquirir bens e poder que outros têm e dos quais nos vemos privados. Mas por se viver direcionados para tal finalidade, não sobra tempo nem disponibilidade espiritual para viver a vida em toda a sua dimensão humana. No Evangelho ouvir-se-á o eco desta visão: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?» (Mt 16, 26). E é igualmente insensato orientar a própria vida para a conquista do poder. A história da usurpação do poder, as mortes violentas que daí decorreram, bem como a precaridade do domínio conquistado são sinais evidentes dessa mesma insanidade.
Como pode ser interpretada a presença da maldade num mundo criado por Deus? O autor propõe que seja considerada como provação humana cuja finalidade seja salientar a distância incomensurável entre a santidade de Deus e a caducidade humana, votada ao abismo da morte. Contudo, o autor está convencido de que cada ser humano será julgado segundo as suas obras. Fica a dúvida sobre o tempo de tal juízo. Haverá, nesta ideia, uma certa abertura sobre a existência de uma realidade post mortem, na qual subsista a humanidade? «Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens subirá às alturas (…)?» (3, 21).
E porque tudo está destituído daquela solidez que só Deus tem — e aí temos a morte, bem como a destruição de cada elemento natural, sob a força inexorável do tempo, a provar isso mesmo —, tudo é mera ilusão. É a própria volatilidade das coisas, dos seres e dos acontecimentos a ensinar ao ser humano a sua inconsistência essencial. Tudo o que existe sob a face da Terra será inevitavelmente entregue ao fragor da morte, esse dilúvio inundando de nada a existência. E o ser humano não escapa a um tal destino. Que sentido poderá, então, ter tudo o que existe, incluindo o próprio ser humano?
O seu pessimismo dissemina-se ainda pela sua conceção do tempo. Se os seus correligionários bíblicos entendiam, de uma forma geral, o tempo como uma realidade linear que teve um início e se encaminha para um fim, podendo introduzir-se a novidade no seu processo, Qohélet, pelo contrário, tem uma noção cíclica do tempo, nisto influenciado pelo regresso periódico da natureza. E em tal perspetiva não há novidade que se possa intrometer no seu percurso. É o eterno retorno daquilo que já foi. O tempo transposta consigo a sua próprio monotonia incessante: «Não há nada de novo sob o Sol». E tal visão justifica-se teologicamente pela imutabilidade da obra divina.
Exatamente por isso, não há nada que o ser humano possa fazer para alterar os acontecimentos. Eles sucedem-se sob o domínio da lei natural que os impele à eterna repetição do que já existiu. Ao ser humano cabe apenas resignar-se a esta ordem natural das coisas. Toda a labuta humana que tenha como fim a renovação da vida está votada ao fracasso. Qohélet leva até às últimas consequências a sua reflexão: até a busca da sabedoria está, ela mesma, destituída de sentido. Quanto mais se investir na busca de um sentido para as coisas, mais nos haveremos de confrontar com a sua ausência, com o absurdo das situações e dos acontecimentos, provocando no ser humano aquele estado de sofrimento ao qual pretendia escapar.
No entanto, Qohélet não foge à tarefa de procurar uma significação que aplaque a estrutura do próprio entendimento humano. Estende, pois, a toalha dos caminhos que outros fizeram para atribuir significado à existência de todas as coisas. E o que encontra é apenas a vaidade humana navegando na sua ignorância. A procura da sabedoria, a busca incessante do prazer, a produção de grandes obras, a acumulação de riquezas, como vias de atribuição de sentido, nunca triunfaram sobre o absurdo. A sabedoria, a estultícia, a pobreza, a riqueza, o prazer, a dor… equivalem-se, uma vez que todos estão igualmente votados à própria extinção. E se é verdade que o ciclo do tempo pode fazer renascer o que antes existiu, tal não acontece em relação à existência pessoal. Outros farão os mesmos percursos. Mas serão outros. Para os que morreram, não há salvação possível. No nada caíram, do nada não se poderão jamais erguer.
Tal conceção, ao diminuir a relevância de toda a ação humana, parece apelar veladamente à inação. O trabalho e a labuta humana não trazem qualquer vantagem ao ser humano. Antes pelo contrário, aumentam o sofrimento e a preocupação. Na verdade, a fadiga presente reverte em larga medida a favor dos que hão de vir, que nada fizeram para o merecer. Que sentido terá, então, o esforço humano pela construção da comunidade?
Apesar da sua renitência em aceitar uma visão da vida que explique o desconcerto do mundo, o autor não deixa de avançar duas razões: a fragilidade humana e as condições precárias em que a vida se desenrola. E assim sendo, só a aceitação deste estado de coisas pode serenar o coração humano. Ainda que o absurdo se esgueire pelas frestas da vida, parece ser mais provável que um sábio triunfe do que um estulto!
No meio do caos que é a vida, patente a qualquer olhar atento, Qohélet extrai um ensinamento: desfruta do trabalho que realizaste, não acumules riquezas sem delas tirares benefício pessoal. De facto, o amor da riqueza não permite um sono descansado e transfigura o ser humano num escravo do esforço e da fadiga. E como tudo o que existe provém de Deus, não usufruir do que está à disposição do ser humano seria o mesmo que rejeitar uma dádiva. Aproveita a vida enquanto a tens! Aceita a tua condição de ser mortal e retira da tua efémera existência o máximo proveito!
Ser sábio é, pois, fruição do prazer da vida. Qohélet advoga uma ética do prazer, ainda que temperada pela fé num Deus pessoal. Esse facto impõe, portanto, limites, exigindo do sujeito moderação e submissão ao bem que é, afinal, a própria natureza de Deus e a sua vontade santa. A maldade deve ser evitada não porque daí decorra algum benefício, mas porque é contrária à vontade de Deus. No entanto, se a morte rouba ao ser humano qualquer vislumbre de futuro, cabe-lhe usar os bens do mundo para a sua felicidade, enquanto o débil curso dos dias lho permitir. Por outro lado e apesar de tudo, acreditar em Deus é assumir na própria consciência todos os valores éticos que ele encarna e, simultaneamente, autoconceber-se como um nada perante a grandeza divina.
No fundo, Qohélet quer apagar da existência, na medida em que tal depender da sua ação, tudo aquilo que pode causar sofrimento. E assim propõe que se seja paciente e se evite a ira, se recuse considerar o tempo presente pior do que o antigo (tal visão inflige sofrimento ao ser humano, desenquadrando-o do momento em que lhe calhou existir), se reflita sobre os erros praticados para se não ser demasiado intransigente com os erros dos outros.
A sabedoria é a procura incessante da razão das coisas. Mas tal razão não é inteiramente transparente à consciência humana: por que razão pensa o ser humano de forma errada, se foi criado justo por Deus?
Na ordem natural das coisas, há um destino, um programa pré-fixado para os seres e os acontecimentos. Talvez não para os eventos e as ações individuais, mas para os seus arquétipos de que os comportamentos concretos mais não são do que pura repetição. Tudo tem o seu tempo. Quer seja bom quer seja mau, tudo tem lugar no tempo adequado. Esta realidade desconcertante é um mistério que o ser humano não sabe deslindar. Ser sábio é submeter-se à ordem que Deus fixou e realizar cada ação no tempo oportuno. Deus criou tanto os desaires como as ocasiões propiciadoras de felicidade. Se há infortúnio, é dádiva de Deus, devendo, por conseguinte, ser aceite. A ação humana tem lugar apenas dentro do exato limite que tal destino permite. E é nesse contexto que cabe a cada ser humano refletir sobre a oportunidade de uma determinada ação.
É verdade que Deus semeou no coração humano a noção de eternidade, mas ninguém conhece a totalidade dos desígnios de Deus. E esta limitação do conhecimento humano retira-lhe o direito de julgar Deus e as suas ações. Sábio é o ser humano que aceita dele tudo quanto existe, seja bom ou mau, e não se afadiga na inútil transformação do mundo, fatalmente condenada ao fracasso. E se o ser humano tem consciência de que não é dono da própria existência (foi-lhe dada gratuitamente, ser-lhe-á retirada sem o seu consentimento), só será verdadeiramente feliz se amar a Deus. E não o faça para daí obter alguma vantagem concreta ou pragmática, faça-o porque Deus é digno de ser amado. Come, bebe, enche os teus dias de alegria, ama a Deus e serás feliz, apesar das desventuras que as circunstâncias hão de trazer.
 
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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