domingo, 18 de dezembro de 2011

À procura da felicidade


 
É certo que a sociedade humana é um espartilho duro que constringe a liberdade individual nas mandíbulas dos seus edifícios legais, extremamente invasivos e tão complexos que nem os peritos conhecem esse labirinto absurdamente burocrático que pretende prever a totalidade dos eventos e domar os comportamentos pessoais.
É certo que nos sentimos cansados e abatidos pela monótona vaga de obrigações que a máquina económica nos impõe, sufocando a espontaneidade da vida e transformando seres humanos em cadeias repetitivas de produção diária.
É certo que há toda uma panóplia de figuras burocráticas mordendo os calcanhares da vida; monstro enferrujado que coarta a fulgurante criatividade humana ora pela má-fé de quem o montou, ora pela má vontade de que o executa.
É certo que as relações humanas são difíceis, por vezes até penosas, porque cada pessoa é um mundo onde a noite e o dia coabitam, por vezes indistintamente; e se nem sempre «o homem é lobo para o seu semelhante», a verdade é que tal acontece vezes de mais, obscurecendo a transparência diurna que transcorre no coração humano.
É certo que nos sentimos abalroados por toda esta miséria que nos estrangula, mas, confiante no futuro humano, pergunto-me se há alternativa exequível e benigna.
Creio surpreender dois caminhos diferentes, para além evidentemente da aceitação acrítica desta ordem que herdámos e alimentamos: um é procurarmos refundar o mundo a partir de critérios mais humanos, associando-nos a tantos homens e mulheres que ao longo da história foram perseguindo o mesmo objetivo; o outro é o exílio voluntário para onde as teias do medo e da desilusão nos não apoquentem os dias.
Ontem vi o filme Into the Wild (O Lado Selvagem); produzido em 2007 e dirigido por Sean Penn. Uma verdadeira obra de arte retratando a história verídica do protagonista, desencantado com o mundo em que vive (e, sobretudo, com a família que a sorte lhe deu), em busca daquela liberdade que só longe do cárcere da vida social pode encontrar a sua plena expansão. É o exílio voluntário de um jovem à procura da vida na natureza selvagem, longe dos olhares ameaçadores dos seus semelhantes. Porque a felicidade é esse encontro com a natureza de onde provimos, mas que teimamos em reconstruir sob a voracidade da nossa inteligência soturna.
No entanto, por onde passa, este rapaz, marcado por sonhos inquietos, vai deixando no coração dos outros a marca impressiva da sua humanidade, da sua inteligência, do seu desejo de libertação. E quando a morte se aproxima, porque não soube lidar com a impiedade da vida longe do olhar atento dos outros, percebe, tarde demais, que a felicidade se não conquista se não for partilhada.
Haverá então alternativa viável a este infindável rol de desgraças que vemos suceder-se no quotidiano social em que nos movemos? Creio que sim. E não será a fuga mundi, seja para longe da presença humana, aventurando-nos solitariamente no mundo selvagem (à maneira romântica que escritores do século XIX tão bem descreveram), seja para longe do circuito onde corre a vida com todas as suas contradições. É no turbilhão de encontros e desencontros, de vitórias e derrotas, de medos e ousadias que podemos acrescentar alguma verdade à nossa condição pessoal e coletiva. Porque não há felicidade se não for partilhada.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Gosto muito deste filme e já reflecti sobre ele com alguns alunos. Muitos jovens ficam impressionados com a coragem do protagonista em largar tudo em nome da sua felicidade. Eu gosto de pensar que é preciso mais coragem para tentar ser feliz com aquilo que temos.

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