sábado, 24 de dezembro de 2011

O Natal e a família

 Murillo, Adoração dos Pastores

 
O Natal é uma das mais atrativas festas cristãs. E de tal forma assim é que, quando pergunto aos meus alunos qual é a festa cristã mais importante, obtenho invariavelmente a mesma resposta: o Natal. É certo que o centro das solenidades cristãs é a festividade da Páscoa, mas dado o caráter apelativo e emotivo que o Natal transporta, esta solenidade ombreia, no coração dos crentes, com a mais importante de todas elas.
Uma das mais marcantes dimensões do Natal é a sua valência familiar. Símbolo disso mesmo, o presépio representa uma família no ato de acolher um recém-nascido, o Cristo de Deus que naquele instante assume a mais completa fragilidade humana, inteiramente dependente dos pais para sobreviver e para crescer. Ameaçado pela barbárie do poder de Herodes — um rei que proclama na prática a sua absurda omnipotência—, o Menino está à mercê da bondade divina, que para ele tem um desígnio, e da ação concreta dos seus pais.
E é assim também nas restantes famílias. A precaridade da vida de um recém-nascido é um grito calado solicitando um cuidado constante nas mais pequenas situações da vida humana. E só muito mais tarde, muitos anos depois, aquela dependência integral dá lugar à livre vontade de se afirmar autonomamente frente aos pais e à sociedade em que vive. Mas entretanto terão de passar muitos invernos sobre a pequenez de uma criança.
Assusta-me, contudo, que esse grito de auxílio não veja sempre do outro lado aquela ternura, aquela disponibilidade que se espera encontrar. E assim, as notícias vão dando conta de um recém-nascido abandonado na frieza morta do chão ou até junto aos restos de um fétido contentor. Ou, se quisermos ser mais autênticos, basta lermos, estupefactos, os relatórios da UNICEF dando conta das mais de vinte e duas mil crianças que morrem todos os dias no mundo por causas evitáveis. Deparamo-nos também com famílias sem condições materiais, mas sobretudo sem a estrutura anímica que sirva de suporte humano ao crescimento equilibrado dos filhos. E as crianças, vítimas de um mundo onde não pediram para nascer, são empurradas de um local para outro, porque sobram sempre, onde quer que estejam.
Há pouco tempo, vi os olhos tristes de um menino à espera que o adotem. Meu Deus, aquela ânsia de vida, aquele grito calado no olhar suplicante! E como ele, muitas crianças não são adotadas enquanto bebés, porque as famílias de sangue o não permitem; e não são adotadas quando as famílias se rendem às evidências, porque ninguém se dispõe a cuidar de um pré-adolescente ou de um adolescente a quem não pôde transmitir, desde tenra idade, aqueles valores que julga essenciais à coluna vertebral de qualquer ser humano. O medo toma conta de nós. E paralisa-nos. Teremos decerto boas razões para tomar as decisões que tomamos. Mas o gesto daquelas crianças, implorando renúncia a nós mesmos, não pode ser apagado, por mais indiferentes que sejamos, por mais insensíveis que nos tornemos. Para quando a justiça plena? A justiça que oferece a todos aquilo a que têm direito? Deus saberá. Mas para nós é tão incompreensível esta realidade que somos tentados a atribuir a Deus — ao seu silêncio inexplicável — a responsabilidade que devíamos assumir enquanto seres livres e dotados de consciência moral, criados à sua imagem e semelhança.
Mais um Natal que nos deve fazer refletir sobre a nossa condição de seres frágeis, que precisam dos outros, que para os outros devem ser fraternos até que o mundo seja aquele habitat onde todos cabem e são amados. Até que Deus reconcilie inteiramente o mundo consigo mesmo.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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