quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Educação e sociedade


 
A educação é um problema complexo para o qual ninguém tem tratamento tão adequado que constitua solução plena. Vamos remediando o que nos parecem ser distorções, vamos abrindo a nossa mente a novos impulsos que estudos mais recentes procuram dar, vamos aplicando os resultados dessas investigações ao sistema educativo e à forma como procuramos educar os nossos filhos — tanto em contexto familiar como em situações de acolhimento de crianças em risco. Pouco depois, obedecendo à velocidade vertiginosa que as pesquisas e a sua quase imediata divulgação incutem no nosso conhecimento da realidade, somos levados a considerar obsoletas pedagogias que usámos recentemente, como se fossem as soluções acabadas para os problemas com que nos confrontávamos quotidianamente no campo da educação.
Isso deve fazer-nos refletir sobre a necessidade de esperarmos o tempo suficiente para assumirmos uma dada experiência pedagógica num determinado sistema educativo. Tal como os físicos não adotam imediatamente uma teoria só porque parece ser a que explica melhor o funcionamento do mundo sem a submeter a testes rigorosos que procuram a todo o custo a sua falsificação, assim a educação deveria submeter as novas teorias às benéficas investidas teóricas dos seus opositores para ver se são suficientemente consistentes para resistirem. E só depois de se estruturarem consensos relativamente generalizados é que seria aconselhável, tendo em conta a prudência com que o assunto deve ser afrontado, a sua implementação prática num sistema educativo. Mas parece que os governos preferem deixar «obra feita», imprimindo apressadamente alterações substanciais aos sistemas educativos ainda que tais modificações não se fundem em teorias suficientemente consensuais na comunidade científica. Parece-me, portanto, essencial que tal procedimento seja adotado com rigor e distanciamento, de forma desapaixonada, permitindo que o tempo — o melhor de todos os conselheiros — consolide os efeitos da imaginação criativa da mente humana.
Em Portugal e em muitos outros países, os indicadores de abandono escolar e as taxas de retenção são elevadíssimos. Estamos todos de acordo quanto à necessidade de nos orientarmos no sentido da sua resolução. O problema coloca-se no preciso momento em que se propõem estratégias que venham obviar a tais desarranjos do sistema educativo. E a manta parece curta demais. Se aumentarmos os níveis de exigência, incluindo mais exames e exames mais exigentes, veremos inevitavelmente crescer a taxa de retenção; se, pelo contrário, investirmos na simplificação dos instrumentos de avaliação, seremos acusados de abandalhar o sistema educativo, entregando à sociedade indivíduos incultos e tecnicamente mal preparados que completaram com sucesso formal todo o percurso escolar.
A verdade é que — parece-me — os fatores que determinam o sucesso ou o insucesso são muitíssimo variados. No interior da escola podem ser observados os seguintes (e tenho quase a certeza de os não ter visto todos): a competência científica e pedagógica dos professores, a sua motivação, a sua assiduidade, a sua relação com o restante corpo docente; a existência, na escola, de meios materiais e condições logísticas que permitam o acesso a bens culturais; o interesse e a motivação dos alunos — a qual depende em larga medida da cultura axiológica que absorveram no meio familiar; as suas condições sociais, o que determina também a existência de um ambiente físico e psicológico favorável ao estudo e ao empenho nas tarefas escolares; a organização da escola e a consequente celeridade e eficácia com que enfrenta os problemas, bem como a projeção no futuro de formas alternativas mais consentâneas com os objetivos do estabelecimento de ensino; a correção dos programas disciplinares (nomeadamente a sua adequação à faixa etária, a sua extensão, a sua exequibilidade, etc.); a qualidade dos instrumentos de avaliação (internos e externos).
Mas como educar uma criança é tarefa de toda uma comunidade, uma vez que um aluno transfere para o campo escolar a cultura e a experiência de vida que adquire na família e no meio mais restrito ou alargado com que contacta, também há impedimentos ao sucesso escolar exteriores à própria escola. Desde logo, o clima de toda uma sociedade. Se se respiram os ventos da impunidade, do «salve-se quem puder», da fuga às próprias obrigações, tal visão do mundo repercute-se na vida escolar. O aluno tenderá a arranjar subterfúgios para não trabalhar, expedientes para obter resultados sem o esforço de os conquistar através do mérito, do desrespeito pela autoridade do professor, etc. Daí a necessidade de haver famílias estruturadas que invistam nos valores fundamentais que hão de habitar a consciência dos próprios filhos: a dignidade da pessoa, o respeito pelos outros, o investimento no trabalho, a importância do mérito na organização da própria vida, etc.
No entanto, do mundo ideal até ao real vai uma distância tão grande como a que separa a Terra do céu. E Portugal está ainda para ser aquela tal sociedade promotora do esforço, da honestidade, da verdade, do mérito, do respeito… E como as famílias se inserem neste meio social mais alargado, grande parte delas, quando as há, estão longe de transmitir aos seus membros mais novos tais valores. Provavelmente necessitaremos ainda de mais uma ou duas gerações, se começarmos já a remar em direção ao porto certo, para atingirmos o nível de civismo que trará à escola aquele descanso de que precisa para exercer com eficácia as suas funções.
Entretanto, alguma coisa terá de ser feita. As escolas poderão organizar-se melhor, os professores poderão ser selecionados de acordo com o seu mérito (e não de acordo com relações de compadrio que vemos projetarem-se no horizonte), os programas poderão ser melhorados e os instrumentos de avaliação terão de ser exigentes mas apenas naquela justa medida, difícil de conseguir, à qual as crianças e os jovens são capazes de corresponder.
Não sei se estaremos em condições de atingir tais precários equilíbrios. Mas temos o dever de investir neles. De outro modo, nunca alcançaremos a tão desejada comunidade de seres que há de corresponder ao húmus vital onde os mais pequenos poderão crescer saudável e alegremente.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Parabéns por este texto. Não podia estar mais de acordo

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